Janeway era a mãezona da Voyager?

De todas as coisas que as pessoas podem falar sobre a capitã Janeway em Star Trek Voyager, a que mais me incomoda é que ela era a "mãezona da tripulação". Sem perceber, achando que é uma forma de falar bem dela, as pessoas acabam empurrando um estereótipo machista para cima de uma personagem que já sofre com machismo do fã nerd otário, que não gosta dela apenas por ela ser uma mulher. Não é porque ela é mulher que ela vai ser mãe de quem quer que seja.

Janeway era a mãezona da Voyager?



Pra que a gente possa analisar a Janeway, temos que parar de aplicar os estereótipos de gênero tão delimitados e limitados que temos agora. O futuro de Star Trek é um futuro onde mulheres podem ser capitãs, engenheiras, botânicas, embaixadoras, chefes de segurança, conselheiras, médicas, almirantes. E podem também ser mães se quiserem. Se não quiserem, ninguém vai apontar um dedo. Elas são promovidas por suas qualificações e feitos, não têm sua idade sendo usada como régua para sua competência e não precisam ser casadas ou ter um relacionamento com um homem para ter o respeito dos outros. A forma como a sociedade vê a mulher de hoje é incompatível com a forma como a mulher vive no futuro de Star Trek. E tentar medir a capitã pela régua de hoje é cair em machismo e misoginia.

É aqui que reside o primeiro problema: a sociedade vê o ato de cuidar e se preocupar com o outro como uma qualidade tipicamente feminina e não uma qualidade que qualquer ser humano na posição da Janeway teria pela condição em que ela se encontra com sua tripulação, 70 mil anos-luz de distância do espaço da Federação, em uma nave que não foi feita para exploração do espaço profundo. Diferente da Enterprise que tinha como missão a exploração, que tinha bar panorâmico, grandes espaços de lazer e laboratórios, grandes alojamentos para acomodar famílias inteiras, a Voyager era uma nave bem menor, feita para patrulha e missões furtivas. Se olharmos bem, a Voyager cumpre o principal objetivo da Enterprise muito bem: "audaciosamente indo onde ninguém jamais esteve".

Diário pessoal, data estelar 48546.2. Nossa jornada dura várias semanas agora e começo a notar uma mudança sutil em mim e na tripulação conforme nos acostumamos com a situação. Aqui, no Quadrante Delta, somos uma família única. Somos mais que uma tripulação e preciso achar uma maneira de ser mais que uma capitã para essas pessoas, mas não sei bem como começar. Na Academia nos ensinam que espera-se uma certa distância de um capitão. Até agora, eu estive bem confortável com esta distância.

Episódio 6, 1ª temporada

Cada capitão das séries de Star Trek é conhecido por suas características únicas, mas Janeway é a única que cai na categoria de "mãezona" e não há outra explicação além do fato de ser mulher. Janeway enfrentou os Kazon, os Vidiian, negociou com os Hirogen e com os Borg, manteve uma nave e sua tripulação inteiras por sete anos e ainda é vista apenas como a mãe da tripulação. Precisamos parar de achar que tudo o que uma mulher faz pelo outro é maternal.

Neste futuro de Star Trek, os homens não exercem masculinidade tóxica (pelo menos a maioria) e poucos podem dizer que eles exercem atitudes paternais. Aliás, se formos aplicar estereótipos de gêneros nos homens, podemos dizer que Picard é um pai para sua tripulação: distante, sem se envolver em um nível pessoal com ninguém, frio e desconectado de seus sentimentos na maioria dos episódios, cumprindo com o dever que lhe foi imposto. Não é isso o que falam dele, certo? Existem episódios em que vemos um homem sensível, apaixonado pelo o que faz, dedicado ao dever e à diplomacia.

Alguém pode argumentar sobre o relacionamento de Janeway com Sete de Nove. Enquanto uns acham que há uma relação maternal entre as duas, outros dizem que era um relacionamento amoroso. Parece não haver meio termo aqui. Eu já vejo Janeway tendo um projeto. Ela lutou por muito tempo para criar uma unidade dentro da Voyager que mantivesse seus tripulantes vivos. Unir Maquis com a tripulação da Frota certamente geraria atritos e ela precisaria ir além do papel tradicional de capitã por estar presa junto com eles do outro lado da galáxia, longe das famílias e dos amigos. As dinâmicas sociais da Voyager são completamente diferentes daquelas na Enterprise e na estação DS9.

Quando Janeway enfim cria essa unidade em sua tripulação, chega Sete de Nove. Ela age em um primeiro momento como um elemento externo, causador de conflitos, que até mesmo Chakotay chega a discordar de sua presença na nave. Mas é graças ao conhecimento de Sete que a nave acaba voltando para casa. Janeway assume a tarefa de ajudar Sete a trilhar o caminho de volta à sua humanidade não por ter sentimentos maternais, mas por acreditar que era o correto a fazer. Janeway tem uma paixão intensa por tudo o que faz. Ela se dedica com afinco a cada tarefa, por isso sua dedicação intensa à nave, à Sete e até mesmo à vingança.

Os episódios da Equinox são alguns daqueles que quebram o estereótipo maternal que tanto lhe atribuem. A Voyager encontra a pequena nave científica Equinox, que também foi levada contra sua vontade para o Quadrante Delta e lá ficou presa. Porém, com bem menos recursos que a Voyager e sem a unidade moral e social que Janeway conseguiu, o capitão Ransom quebra o juramento feito aos preceitos da Frota Estelar e da Federação e usa alienígenas para turbinar seu motor de dobra a fim de voltar mais rápido para casa. Quando Janeway descobre o que Ransom fez, ela quase mata um tripulante no setor de carga na busca do paradeiro do capitão, a ponto de Chakotay ter que interferir. Ela é a fúria em pessoa por ver que Ransom não tem pelos preceitos da Frota e da Federação o mesmo afinco e lealdade que ela tem.

Janeway também tem uma fúria controlada com Paris quando é obrigada a rebaixá-lo para alferes depois de uma molecagem da parte do piloto. Quando foi necessário, Janeway puniu seus tripulantes e seus desafetos, às vezes indo longe demais e reconhecendo que precisou ser impedida de ir adiante. Ela combateu perigos inomináveis no Quadrante Delta - Kazon, Hirogen, Borg, Vidiian, Krenim - e em nenhum momento fugiu da luta ou ficou tricotando cachecóis para seus tripulantes.

Outra crítica que fazem à ela é sua "inconstância", um machismo discreto de que mulher muda de ideia o tempo inteiro e assim a capitã se comporta de maneiras diferentes em vários episódios. Quem fala isso deve ser uma pessoa incrivelmente chata, que nunca na vida mudou de atitude, opinião ou costume e que deve ser daquelas que se agarra às coisas que lhe foram ensinadas lá no passado, sem aprender algo de novo. Temos lá em cima uma explicação para ações diferentes tomadas não só por ela, mas por outros membros da tripulação. É uma situação excepcional para todos: eles estão sozinhos, sem apoio operacional da Frota Estelar e longe do espaço da Federação. Ou Janeway improvisava e era flexível (como no caso da molécula Ômega) ou eles não sobreviveriam.

Acho que a melhor maneira de descrever Janeway é como um - veja só! - ser humano, um mosaico de profundas características fluídas e multi-dimensional. Ela tem falhas, ela tem virtudes, é extremamente inteligente e nunca abandonou a cientista que era quando se tornou capitã. A difícil situação em que ela estava a aproximou de sua tripulação, mas esta foi uma decisão primeiramente tática, por questão de sobrevivência e segundo afetiva, pois tudo o que havia de familiaridade com o espaço da Federação estava dentro daquela nave da classe Intrepid.

Aviva Dove-Viebahn, professora de cinema e estudos de mídia da Universidade do Arizona, diz que a Voyager é uma "heterotopia feminista" centrada na figura de liderança da Janeway. A heterotopia é um conceito criado por Michel Foucault, que descreve lugares e espaços que funcionam em condições não hegemônicas. Ele usa o termo heterotopia para descrever espaços que têm múltiplas camadas de significação ou de relações a outros lugares e cuja complexidade não pode ser vista imediatamente.

A heterotopia é um lugar onde pessoas, objetos e situações que são incompatíveis são justapostas. As diferenças entre os tripulantes - Maquis e Frota Estelar - são necessárias para a sobrevivência de todos e se torna uma fonte de força para todos eles. A mini sociedade da nave é igualitária, enfatizando a diversidade e a individualidade, atando esses sentimentos para criar um laço doméstico que vira também uma estratégia de sobrevivência. É o que a Janeway fala sobre se tornar uma capitã diferente do que lhe foi ensinado para poder levar todos para casa e ainda manter a liberdade e o espírito democrático da Federação. Você consegue ver o Picard agindo dessa forma doméstica? Ele conseguiria se adaptar?

Então o que as pessoas veem como maternal, como uma fraqueza da capitã Janeway são reflexos dos estereótipos femininos que nós temos agora, que já foram extintos na sociedade de Star Trek. Muito possivelmente eles nunca viram a série inteira e já chegaram com preconceitos ao programa, torcendo para encontrar falhas e assim apontar o dedo. Janeway não é a mãe da Voyager, mas sim uma capitã em uma situação adversa que precisou extrapolar o papel de líder e assim manter sua nave unida até o final.

Vida longa e próspera! 🖖

(...) o limite entre ficção científica e realidade social é uma ilusão de ótica.

Donna Haraway

Leia também:
Resistance Is Not Futile: Liberating Captain Janeway from the Masculine-Feminine Dualism of Leadership - Michèle A. Bowring
A Cyborg Manifesto: Science, Technology, and Socialist-Feminism in the Late Twentieth Century - Donna Haraway
Intergalactic Heroines: Land, Body, and Soul in Star Trek Voyager - Susan De Gaia

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