Star Trek, seus fãs e os estúdios

Quem é fã de alguma coisa sabe: saiu um produto, um Funko, um filme, uma série e a gente vai consumir. Pode nem ser muito bom, mas a gente vai consumir e depois debater, problematizar, curtir ou não curtir muito. É assim que a indústria se mantém, certo? Mas tem gente que é tão fã que quer produzir conteúdo baseado nos universos que curte. Todo mundo já deve ter lido ao menos uma fanfic na vida ou visto filmes de fãs.


O fandom de Star Trek sempre foi muito forte e atuante. Quando a CBS tentou cancelar a série original, lá nos anos 60, fãs engajados mandaram cartas, pedindo mais uma nova temporada. Na década de 70, quando não havia séries nem filmes disponíveis, os fãs criaram as primeiras convenções para manter a série e as discussões vivas. Quando a NASA estava para lançar um novo ônibus espacial, toneladas de cartas pediram que ele se chamasse Enterprise.

Gene Roddenberry, criador do conceito de Star Trek, franquia esta que revolucionou a TV há 50 anos e cuja influência a gente sente até hoje, apoiava o trabalho dos fãs. Ele sabia o que sua criação significava para os fãs, mas compreendia muito mais o que os fãs significavam para Star Trek. O próprio Gene escreveu:

Finalmente nós percebemos que não há forma mais intensa para as pessoas expressarem o que Star Trek representa para elas do que criando seu próprio material. (...) Eu os vi meticulosamente criando fanzines com artes excelentes. Alguns eram feitos por escritores profissionais ou por aqueles que viriam a ser. Acima disso, tudo era claramente feito com muito amor.

Em 1987 estreava A Nova Geração, com uma nova Enterprise, um novo capitão e uma nova tripulação. E de 1987 até 2005 nós não ficamos sem Star Trek. Deep Space Nine, Voyager e Enterprise continuaram os legados da série original e da Nova Geração, alimentando toda uma década com seus episódios, além dos longa-metragens.

Mas com o cancelamento de Enterprise em 2005, muitos fãs se sentiram abandonados pelos estúdios. CBS detém os direitos das séries e a Paramount detém os dos filmes. Com o silêncio dos estúdios e a ausência prolongada de séries, fãs começaram a se mobilizar e a criar suas próprias produções, pedindo financiamento coletivo na internet. Dois filmes se destacam: Prelude to Axanar e Star Trek Renegades.

Axanar, especialmente, atraiu a atenção dos estúdios, que alegam que ele é "muito bem feito" e não parece trabalho de fãs. Escritores, roteiristas e atores já conhecidos do público participaram de ambos os filmes (alguns sem receber nada por isso), apenas para engrandecer o imenso trabalho dos fãs. Interessante isso de "bem feito" e que não parece trabalho de fã. Isso me mostra que a produção dos fãs ficou melhor do que a produção dos estúdios e, principalmente, melhor do que Star Trek 2009.

Para impedir novos trabalhos como esse, CBS e Paramount liberaram uma série de regras que devem ser seguidas a fim de evitar processos judiciais. Algumas dessas regras realmente fazem sentido, outras... Por exemplo, é totalmente aceitável que um trabalho não infrinja direitos autorais, disso não há o que se discutir. Mas outras regras publicadas são um insulto a todo o trabalho dos fãs nestes últimos 50 anos.

Por exemplo, você só pode usar produtos oficiais da Paramount, nada de insígnias da Frota Estelar feitas com impressora 3D. O material produzido não pode passar de 15 minutos (ou 30 minutos em duas partes), não pode ter financiamento superior a 50 mil dólares (Axanar levantou 650 mil). Usar qualquer material original está proibido e para usar os áudios de teletransporte, phaser ou torpedo fotônico é preciso uma autorização especial. Tudo tem que ser feito por amadores. Se você trabalha com web design e no seu tempo livre fizer o site do seu fan film, isso pode gerar um processo. Um escritor não pode tentar roteirizar também.


Os fãs se sentiram ofendidos e com razão. O objetivo dessas produções de fãs é expressar o amor por Star Trek e todo o seu legado de diplomacia, inteligência, um futuro tecnológico e em paz, onde a raça humana resolveu problemas e onde aceita e abraça as diferenças. Não é objetivo do fã lucrar com isso! Mas como o financiamento a Axanar foi muito alto, os estúdios ficaram preocupados que "meros fãs" fizessem algo melhor do que eles, que pouco se preocuparam com a franquia desde o cancelamento de Enterprise e embarcou na produção de filmes de ação baseados no universo de Star Trek.

Existem saídas mais elegantes para esse impasse e o universo expandido de Star Wars pode fornecer a resposta. Após o lançamento dos filmes, a produção de livros, quadrinhos e fanzines de Star Wars gerou um impasse para George Lucas. Como lidar com isso? Ele até mesmo falou com Gene Roddenberry a respeito, que teria dito para não se preocupar, são os fãs que os deixam ricos.

Mas para lidar com a quantidade de material, Lucas criou uma divisão responsável por avaliar o trabalho, fazer as devidas críticas e verificar se havia ou não problemas com os direitos autorais. E com isso, um universo inteiro de trabalhos surgiu, chegando a até 25 mil anos antes dos eventos que vemos no primeiro filme de Star Wars. A licença seletiva de Star Wars mostra que é possível ajudar os fãs e os fãs podem contribuir para o universo que tanto amam.

Outra saída para o impasse: criar um kit para criadores, open-source. Poderiam ser trabalhados regulados pela licença Creative Commons, que é menos ambígua e que estaria sob monitoramento dos estúdios. Existem maneiras de fazer isso sem cair na pura ganância como Ferengis descontrolados, que aliás possuem regras de aquisição mais amigáveis. Porque é isso o que CBS e Paramount estão fazendo: passando por cima dos princípios do criador, Gene Roddenberry, a respeito do trabalho dos fãs e atropelando os próprios princípios de Star Trek, que tem como principal pilar a ausência de ganância e inexistência de uma busca desenfreada por lucro e dinheiro.

Com tudo isso, os fãs estão se mobilizando para boicotar a nova série anuncia para 2017 (e que já conta com vários problemas, como de ser via streaming pelo canal oficial pago da CBS e não ter gente entendida de Star Trek na produção) e o filme Star Trek Beyond, que estreia agora em julho. Nunca pensei que diria isso, mas também vou boicotar as produções, por mais que me doa, pois estava muito ansiosa com a nova série.

Star Trek me ensinou que nosso objetivo mor é buscar melhorar a nós mesmos, viver em paz com o que é diferente, abraçar a igualdade e a diversidade, de que a tecnologia é melhor usada para resolver problemas, ao invés de criar guerras, de que podemos audaciosamente ir onde ninguém jamais esteve. É muito triste ver que por ganância e, devo dizer, burrice, os estúdios estejam "homenageando" os 50 anos de Star Trek desta forma. Capaz que com isso eles desvirtuem completamente o legado deixado pelas séries e pelo trabalho dos fãs para transformar a franquia em filmes pipoca com tiro-porrada-e-bomba como os que temos visto ultimamente.

Vida longa e próspera!

Leia mais:
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CBS lista normas para produção de fanfilmes - Trek Brasilis
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Comentários

  1. Aproveito a oportunidade do tema para parabeniza-la pelas participações no podcast holodeck, sempre resultando em ótimos programas

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  2. Gostei do texto. Também acho que o assunto está sendo tratado com uma prepotência e burrice enormes. Algumas observações: por mais que adore Star Trek, sou um pouco reticente em falar sobre a "visão" de Roddenberry. O cara era muito bom, mas queria ganhar dinheiro como todo mundo e há vários exemplos dele explorando a própria criação para isso (como quando ele registrou uma "letra" para a trilha de Star Trek de Alexander Courage e, com isso, ficou com metade dos ganhos em direitos autorais). Quanto à nova série que estão criando, ouvi dizer que Nicholas Meyer está envolvido, então discordo quando você diz "não ter gente entendida de Star Trek na produção". Abs.

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    1. Eu não disse que ele não gostava de ganhar dinheiro. Todo fã de Star Trek sabe que é justamente o contrário. Disse apenas que os estúdios estão indo contra a visão que ele tinha sobre o trabalho dos fãs.

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  3. O problema é Axanar ganhar mais de 650 mil dólares para produzir um filme que custou menos de 100 mil, achei isso muito errado. Imagino que as produtoras também.

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    1. Não justifica criar regras que vão contra leis trabalhistas de vários estados e impedir que o fã crie seu trabalho por amor a Star Trek. Existem maneiras mais justas e que valorizem o trabalho do fã, como tá escrito no texto.

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