Resenha: Céu Sem Estrelas, de Íris Figueiredo

Céu Sem Estrelas foi uma das apostas da Seguinte em 2018 na literatura nacional. Um livro jovem adulto que toca em muitos temas importantes e que já merece um aviso de gatilho logo no começo para depressão, ansiedade e automutilação. Um livro sensível e importante, com pautas que precisam urgente de discussão mais aprofundada.



O livro

Há muitas estrelas no céu, não deixe que as nuvens te façam se esquecer disso.

Página 354

Cecília é uma personagem com quem é fácil se identificar e acompanhar durante sua jornada tão dolorosa. Quando completa a maioridade, já no primeiro ano da faculdade de desenho industrial, ela é mandada embora do emprego. Sua vida em casa é complicada, com uma mãe narcisista e que dá mais valor ao namorado traidor e canalha do que para a própria filha, que se afoga em problemas. Sem conhecer o pai, sentindo-se invisível, ela vai obrigada para o seu aniversário de 18 anos, orquestrado pela melhor amiga, Iasmin.

Resenha: Céu Sem Estrelas, de Íris Figueiredo

Cecília tem problemas de autoestima pelo fato de ser gorda e muita gente fazer questão de lembrá-la disso, dando palpites em sua aparência. Quando comete um erro, ela repete de forma irracional todas as merdas que já lhe falaram, o quanto é feia, o quanto é gorda, como ninguém acha que ela é interessante. E quem sofre de ansiedade sabe que é uma espiral incontrolável. Os pensamentos giram e giram sem parar. Como se não bastasse, sempre tem a tia chata para dizer que você tá mais "fortinha" ou então que você tem um rosto lindo, por que não emagrece?

Os capítulos oscilam entre as visões de Cecília e Bernardo, irmão de Iasmin e por quem ela se sente atraída, ainda que sinta vergonha de estar perto dele, que está no segundo ano de engenharia e começa a ver a melhor amiga da irmã com outros olhos. Num primeiro momento achei o relacionamento clichê, o que me importava era a jornada de Cecília e os problemas de Bernardo me pareceram mais "white problems", gente de classe média alta que reclama da vida, até que vemos que a vida dos irmãos não é assim tão colorida e fofinha quanto pode parecer.

Cecília é posta para fora de casa, já que a mãe prefere o namorado e Cecília vai para a casa da avó, onde sempre passou várias temporadas. O relacionamento com a mãe pode ser visto como abusivo, distante e aposto que muitas garotas se identificaram com isso, vendo que um de seus maiores inimigos está dentro de sua própria casa. Bernardo acaba sendo um amigo nessas horas, levando a um envolvimento romântico dos dois, que Cecília acredita não merecer, afinal o que ele via numa gorda?

Devo dizer que me identifiquei em vários momentos com Cecília. Odeio comprar roupas, assim como ela. Já desisti de ir em lojas e ficar provando roupas que não me cabem, não caem bem e frustrada, suada e cansada eu começava a chorar nos provadores. O sentimento de ser completamente invisível, o sentimento de não ser interessante para ninguém também é um pensamento comum e também tive um pai que sumiu.

O livro conta com alguns personagens secundários importantes, diversos, bem construídos. Foi interessante acompanhar as visões pessoais de Cecília e Bernardo, mostrando como cada um vê o relacionamento, como eles se interessam pelos mesmos assuntos, a troca de livros e como a falta de comunicação atrapalhou o bom andamento do relacionamento. Bernardo enxerga Cecília como ela é, não a vê como a gordinha amiga da irmã, mas é difícil convencer Cecília disso e entendo perfeitamente. A gorda costuma ser vista como um guilty pleasure de caras que só ficam com "garotas padrão"; é um tesão a se satisfazer, não uma pessoa com quem se relacionar.

A edição da Seguinte tem uma bela capa de autoria de Malena Flores e com seu usual marca páginas na orelha da contra capa para você destacar. Não encontrei grandes problemas de revisão ou diagramação.


Ficção e realidade
Muita gente descarta os problemas da adolescência, achando que é drama, mimimi, ou então se veem os problemas dos adolescentes apenas os ignoram, afinal elas não passaram por isso. É uma tremenda falta de empatia e de querer estender a mão para o outro que pode estar com uma dor tão grande que pode pensar em suicídio.

Quando nos importamos com alguém que vive uma luta tão profunda contra seus próprios monstros, o medo de que algo esteja fora do lugar sempre bate à porta.

Página 321

Vi algumas pessoas falando que o livro é bom, mas não é pra ela, já que na adolescência ela não passou por nada disso. Se isso lhe impede de acompanhar a jornada da personagem e de se compadecer dela, então ler livros não é sua área, melhor parar mesmo. É justamente para andarmos ao lados das personagens que lemos livros, então como que é tão difícil assim? Se você é capaz de se identificar com a capitã de uma nave estelar, não consegue se identificar com uma adolescente sofrendo? Faz favor, né?

Íris Figueiredo é carioca, formada em produção editorial pela UFRJ e pós-graduada em transmídia.

Íris Figueiredo


Pontos positivos
Cecília
Bernardo
Discussões e dilemas
Pontos negativos

Gatilhos
Algumas partes podem ser lentas

Título: Céu Sem Estrelas
Autora: Íris Figueiredo
Editora: Seguinte
Páginas: 360
Ano de lançamento: 2016
Onde comprar: Amazon

Avaliação do MS?
Já avisei sobre os gatilhos, então esteja preparada para se emocionar em vários momentos, para respirar fundo quando for necessário parar uns minutos. Os temas são atuais, pertinentes e acredito que muitas leitoras podem perceber que há uma luz no fim do túnel, que há uma solução para os problemas, ainda que seja um processo que não será tão tranquilo quanto esperamos. O importante é manter os olhos no céu. Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também.

MUITO BOM!

Até mais! 🌠

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