Resenha: O caçador cibernético da Rua Treze, de Fábio Kabral

Fábio Kabral é uma força da natureza e do afrofuturismo nacional. De escrita impactante e poética, é um dos grandes nomes da ficção especulativa. Neste livro, nós temos caçador de espíritos e uma forte metáfora para a diáspora entrelaçadas no enredo, com elementos da mitologia Iorubá em uma aventura futurista.



Este livro foi uma cortesia da Editora Malê


O livro
João Arolê, um jovem negro, é um caçador de aluguel de espíritos malignos. Ele vive em Ketu 3, a Cidade das Alturas, um tipo de cidade-estado em um mundo novo, de homens e mulheres “melaninados”, originalmente abduzidos de seu planeta natal por aliens. Já é fácil notar aqui que Ketu 3 é uma metáfora para o Brasil, país que recebeu milhões de africanos escravizados em navios. Neste enredo, as pessoas injustamente sequestradas de seus lares se revoltaram contra a dominação e a opressão e dominaram o planeta alienígena, fundando cidades.

Resenha: O caçador cibernético da Rua Treze, de Fábio Kabral

Repleta de tecnologia avançada, Ketu 3 possui 13 círculos concêntricos que a formam e sua rua mais movimentada e importante é a Rua 13, que atravessa tais círculos. João é um mutante cibernético que foi treinado para caçar e eliminar indivíduos corrompidos entre a elite da metrópole. Ele é um ẹmí ẹjẹ, uma pessoa que nasceu com dons especiais que lhe conferem um super poder. É importante frisar que religião e tecnologia possuem uma grande intimidade no livro, bem como o resgate da importância de se reconhecer os ancestrais africanos. A cidade é protegida pelos Odés, grandes caçadores espirituais, além de ter seu contingente de fantasmas e ancestrais familiares. Preste atenção nas ilustrações!

O destino de João mudou drasticamente quando ele descobriu possuir habilidades especiais ainda criança. Ele foi então separado da família e enviado a um centro de treinamento mantido pelas poderosas Corporações Ibualama. Ela me lembrou um pouco a Weyland-Yutani, de Alien, pela extensão de seus poderes na cidade. João, porém, é um personagem assolado por pesadelos. Sim, ele precisa caçar espíritos malignos, mas não quer dizer que ele vive bem com essa decisão.

Fábio vai e volta durante a narrativa para nos mostrar partes do passado de João, onde começamos a entender suas ações. João tenta se redimir de todo o mal que causou, tentando acabar com os pesadelos e quando uma série de assassinatos envolvem celebridades da cidade, João agarra a oportunidade, sem saber que isso trará ainda mais negócios inacabados de seu passado para assombrá-lo.

João Arolê se levantou. Estava nu. Era alto. Magro. Pele bem escura. Dreads longos brotavam da cabeça. Braço e perna direitos tomados por tatuagens tribais esbranquiçadas. Braço esquerdo de metal reluzente. Metade direita do rosto também de metal. O olho direito era um monóculo azul.

A narrativa de Fábio é bem conhecida dos fãs de RPG e quadrinhos, pois segue o mesmo estilo ágil e intenso. A agilidade também acabou deixando algumas partes apressadas, alguns personagens mais rasos que outros, o que não chega exatamente a atrapalhar o enredo. Achei inclusive muito curto, caberia mais algumas páginas para finalizar os eventos sem correr demais. O livro também conta com algumas ilustrações em preto e branco no final de alguns capítulos e um bem-vindo e revigorante progonismo feminino como as de Nina Oníṣẹ e de Jamila Olabamiji. Maria Àrònì, uma curandeira, certamente, rouba a cena em diversos momentos.

Como eu li a cortesia que a editora me enviou por email, não sei se a edição física tem um mapa, mas também senti falta de um ao ler o livro, até por se passar em uma rua e contar com a geografia da cidade para nortear quem está lendo. O que mais se destaca, sem dúvida foi o resgate da ancestralidade e da cultura africanas em um enredo afrofuturista que tem tudo a ver com o Brasil e ainda assim consegue extrapolar o futuro e o destino de seus personagens. Acredito que é um marco para a literatura brasileira de ficção especulativa e agrada tanto jovens quanto adultos.

Ficção e realidade
O Brasil é um palco muito prolífico para discussões afrofuturistas devido ao nosso longo histórico de escravidão e também à longa negação de um holocausto contra a população negra. Podemos ver a escravidão pelas lentes da ficção científica tranquilamente: um povo sendo invadido por aliens (termo que em inglês quer dizer estrangeiro, imigrante e alienígena) e enviado à força para um novo mundo onde sofre todo tipo de atrocidades. Livros afrofuturistas não só podem tratar destes temas como podem mostrar um futuro que lide com essas questões, que mostrem uma nova perspectiva, uma nova forma de ver o mundo. E precisamos de mais obras como esta.

Fábio Kabral

Fábio Kabral é carioca, formado em artes dramáticas na Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), Letras na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e na Universidade de São Paulo (USP). É autor também de Ritos de Passagem, colaborador e co-fundador do site O Lado Negro da Força e um voraz leitor de quadrinhos e RPG.

Ouça o AntiCast sobre Afrofuturismo!

Não adianta fingir que não aconteceu. Não adianta negar todas as feridas jorrando sangue.

Pontos positivos
João Arolê
Protagonismo feminino
Críticas e discussões sociais
Pontos negativos
Não tem mapa
Alguns personagens rasos
Acaba rápido

Título: O caçador cibernético da Rua Treze
Coleção Afrofuturismo
Autor: Fábio Kabral
Ilustrações: Rodrigo Cândido
Editora: Malê
Páginas: 208
Ano de lançamento: 2017
Onde comprar: na Amazon ou direto na editora Malê


Avaliação do MS?
A jornada de João é uma jornada que vale à pena acompanhar, com os quais muitos jovens podem se identificar. Você se vê em uma intensa aventura que discute temas de extrema importância para a realidade brasileira. Um livro que poderia ser usado em sala de aula, sem nenhum problema. Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!

MUITO BOM!

Até mais!

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