O bingo da invisibilidade feminina na literatura

Me deparei semana passada com a 4532 lista de livros obrigatórios de ficção científica do ano. E para o choque #SQN de todas, entre os quinze livros listados (pelo menos quatro deles todos de Asimov) apenas um livro escrito por mulher figurava entre os obrigatórios. Isso não é mais surpresa. Eu apenas fico resignada porque, em geral, essas listas são cópias replicadas de outras postagens e listas. O mais interessante de se notar é que é sempre o mesmo nome - Ursula K. Le Guin - despontando entre os outros nomes já conhecidos, batidos, lidos e relidos.




Entenda o seguinte: não estou proibindo ninguém de ler os clássicos ou gostar dos autores homens que figuram nas listas que se reproduzem feito gremlins por aí. Eu já li os clássicos, já os conheço, já sei quem são esses autores, então para mim já deu. Quero ler as grandes autoras que por alguma razão nunca foram traduzidas para o português. Quero ler as mulheres que estão publicando hoje, que já foram publicadas, que foram suprimidas da listas do gênero.

O problema com essas listas é que elas reproduzem um mito danoso e machista que é bem propagado por aí: que mulher não escreve ficção científica (ou que não gosta nem se interessa por ela). Já vi esse papo mil vezes antes. Inclusive já fui tratada como anomalia em blogs de homens: "esse blog, PASMEM, é escrito por uma mulher!". Uau, cara. Aí alguém que não conheça direito a ficção científica pega uma lista dessas e vai acreditar mesmo que mulher não escreve, não curte, não consome.

A própria Ursula uma vez disse em uma entrevista que escrever ficção científica era algo que os homens tinham criado as regras e se ela quisesse ser publicada, teria que escrever em mundos masculinos, de maneira que ela fosse aceita no clube. As mulheres revolucionárias que estavam escrevendo na época e que rompiam com essa lógica de mercado estavam distantes da realidade de Ursula.

Não por acaso, A Mão Esquerda da Escuridão figura em todas as listas de livros obrigatórios. Em geral, só ele. Mais recentemente, O Conto da Aia, da Margaret Atwood também começou a aparecer, provavelmente pela visibilidade dada pela série The Handmaid's Tale. E aqui que entra o Bingo da Invisibilidade Feminina na Literatura, com frases feitas por Joanna Russ, crítica literária, feminista e escritora de ficção científica. Em seu livro How to Suppress Women's Writing, a própria capa traz algumas destas frases:

"Não foi ela que escreveu."
"Ela até escreveu, mas só escreveu esse."
"Ela escreveu, mas ela não é uma escritora de verdade e esse livro nem é uma obra séria."
"Ela escreveu, mas ela é uma anomalia."


Pegando a própria Ursula como exemplo, é como se ela tivesse escrito um livro que "foge" da "típica" literatura escrita por mulheres e assim "mereça" ser inserida na lista das "verdadeiras" obras de ficção científica. Se você escreveu algo que os pares masculinos entendem que é bom, é porque você "rompeu" com a convenção e pode ser colocada ao lado deles. Pois é.

Significa que há uma conspiração por trás da supressão dos nomes de outras autoras em listas de FC? Não, não é intencional, mas preconceito é inconsciente. Se você fizer um recorte ainda maior, como cor e sexualidade, a cartela do bingo aumenta consideravelmente. E há momentos em que o leitor fica sem opção de escolha se não houver livros escritos por mulheres para vender. Se não há livros nas prateleiras, é porque não há livros sendo impressos. Se os livros não são impressos, é porque uma editora não os têm, não os recebeu ou não tem interesse. E se você não quiser chover no molhado na hora de listar livros, é preciso sair da zona de conforto.

É preciso mudar o comportamento de toda uma cadeia literária, que começa na editora e vai até o leitor. É preciso ir além do preconceito com a literatura escrita por mulheres para reconhecer a imensa diversidade e criatividade dos mundos por nós criados. É preciso se interessar por essa literatura. Tenho visto nos últimos anos um interesse grande pelas obras de escritoras e acredito que projetos como o Leia Mulheres sejam responsáveis, além dos blogs literários, a grande maioria capitaneados por mulheres.

Editoras que chegaram nos últimos dez anos estão investindo em nomes como os de Connie Willis, Octavia Butler, Becky Chambers, Ann Leckie, NK Jemisin, Roberta Spindler, Barbara Morais, trazendo fôlego novo ao mercado. Vejo cada vez mais mulheres editoras e em posição de escolher obras para publicação, agências literárias abertas às autoras nacionais. Eventos como a Casa Fantástica na FLIP pretende reunir mulheres, entre outros autores, do país todo para discutir o momento atual da literatura fantástica brasileira.

Você já pode fazer muito ao buscar livros escritos por mulheres dentro da ficção científica e da fantasia para ler. A busca pelos livros indica para as editoras que há interesse neles e assim elas poderão trazer mais. Existem grandes escritoras clássicas que nunca ganharam tradução, por exemplo.

Algumas listas para você se inspirar:


Até mais!

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