Legalmente Nós Mesmas

segunda-feira, abril 17, 2017

Quando eu assisti a Legalmente Loira, lá pelos idos de 2003 ou 2004, fiquei com muita raiva do filme. Pra mim, era um filme de menininha, de mina Barbie, patricinha, correndo atrás de homem. Aquelas roupas rosa, cheias de brilhinho, a fala afetada e a farra, ao invés de estudar, me irritaram muito, tanto que assisti e nunca mais vi por anos. Era também uma época em que eu estava com vários problemas e um filme de "patricinha" era a última coisa que eu ia querer na vida. Simplesmente não me contemplava.

Foi só depois de muitos anos, lá por volta de 2011, depois de ler um texto, acredito eu, das Blogueiras Feministas, que resolvi assistir de novo, mas com menos preconceito. Ainda não é o tipo de filme que me faz ir ao cinema, porém posso dizer que Elle Woods é a garota que me representa e nos representa em muitos aspectos. Tem vários aspectos ali que são bem conhecidos de qualquer mulher.

Legalmente Nós Mesmas



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Pra começar, ela é vista como fútil, alguém que não é séria, uma mina que "não é pra casar", como disse seu próprio namorado, aquele babaca. Elle prova no filme que é extremamente inteligente, tanto que entra na faculdade de direito de Harvard, mas suas roupas rosas espalhafatosas, o cabelo loiro sempre bem cuidado, a maquiagem impecável, chamavam mais a atenção. Quantas vezes nossa inteligência e nossa capacidade foram diminuídas por que nos julgaram pela aparência?

Considerada uma menina bonitinha, ela é tida como dispensável. O namorado precisa de alguém séria pra casar para ser levado a sério, o professor a chamou para o estágio apenas por ser uma moça bonita. Que merda, né? Ser considerada apenas um 'piece of ass' não é algo exclusivo do filme, isso acontece até com quem não é "padrão" de revista como Elle Woods. Eu era sempre vista como o guilty pleasure dos meus amigos, a amiga bacana e inteligente, que nunca pegava ninguém, então tava sempre disponível, certo? Errado, mas meu 'não' nunca quis dizer não pra eles, era sempre um "talvez" ou "me convença".


Elle teve uma motivação banal para ir a Harvard, mesmo já sendo formada pela UCLA. Sua ideia era se tornar 'séria' pra poder ter o Warner de volta. Ou seja, ela tinha que mudar quem ela era pra que o ex-namorado a quisesse de volta. O quão ridículo é isso, não é mesmo? E o quão disseminada é essa mensagem com as dietas malucas seca-barriga, com as dicas de Nova e com as listas com roupas que os homens não gostam? Me faz lembrar meu ex-, que me chamou de vulgar porque eu falava muito palavrão, especialmente quando estava com raiva. Quando eu percebi o que ele estava tentando fazer, comecei a usar palavrão como vírgula, pra ver se ele percebia a merda que tava me falando.

Se olharmos com cuidado, Legalmente Loira é um filme moderno de aventura, só que sem dragões, cavalos ou batalhas épicas. Elle derruba vários dos estereótipos que começam com ela mesma no filme. É uma jornada do herói em nova roupagem. Por exemplo, é o fora que Warner dá nela no restaurante que a joga na estrada. É a situação mundana que a impulsiona.

A "ajuda supernatural" é bem terrena. São os decanos de Harvard, avaliando sua matrícula e seu vídeo de apresentação, que permitem que sua jornada continue e lhe dá a força necessária para prosseguir. Ela se muda para o alojamento dos estudantes do campus, sendo avaliada por sua aparência, por sua extravagância e aí temos um momento de ruptura com a ensolarada Califórnia para a fria e austera Harvard. Ela sente falta das amigas, sente falta de casa e é hostilizada pelos colegas.

Em seguida, Elle é posta à prova. Além de toda a hostilidade dos colegas, o ex-namorado otário acredita que Harvard é demais para Elle, alegando que ela não é inteligente o bastante. Não só é inteligente como ela se engaja em estudar e provar que é tão boa quanto qualquer um ali. Estes são os testes que o herói precisa superar para provar seu valor.

A heroína é tentada pelo professor canalha, que lhe oferece uma ótima oportunidade no escritório caso ela ceda ao assédio dele. Em declínio, a heroína quase deixa a jornada. É uma figura de importância quase mítica para o enredo, a professora Stromwell, quem lhe dá a coragem necessária para continuar.

Se você vai deixar que um cretino idiota acabe com a sua vida, você não é a garota que eu achava que era.

Nossa heroína encontra finalmente seu propósito, ao vencer o caso da irmã de fraternidade e descobre o sentido verdadeiro de sua jornada: a de ser ela mesma, não importando as consequências ou quantas vezes o mundo a pedisse para mudar. De acreditar em si própria, de que é capaz de vencer as dificuldades e de realizar sonhos. É um momento de aprendizado, de valorizar nossas capacidades e de se sentir bem consigo mesma.

Além de ter uma ascensão meteórica no filme, parando de se preocupar com um ex- que era um grande imbecil, ela não compete com a futura ex-noiva séria dele. Ao contrário, elas se tornam amigas. Então, temos tantas mensagens positivas nesse filme que eu não tinha prestado atenção da primeira vez, que me encolhi de vergonha ao ver que meu ódio era sem nenhum motivo. Eu já assisti ao filme com preconceito e não pensei em mais nada até o fim. De um filme bobo, ele passou a ser um dos meus favoritos.

Acredito que quanto menos preconceito as pessoas tiverem na hora de ver filmes e séries, mais elas aprenderão. Porém é muito difícil para algumas pessoas deixarem de lado práticas de anos. Difícil, mas não impossível, certo? Se Elle conseguiu superar as dificuldades e se realizar, por que nós não conseguiríamos?


Até mais!

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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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4 comentários

  1. sem contar que ela ajuda a manicure dela a se livrar de um relacionamento abusivo!

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  2. Acho curioso pensar que em alguns momentos em que tive problemas com filmes assim foi justamente porque estava fazendo o papel de um dos julgadores da personagem. Que bom saber que superamos nós mesmas também!

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  3. Amei este filme logo na primeira vez que o vi. Pois a Ellie me mostrou que eu não precisava ficar sem pintar as unhas ou usar maquiagem para ser considerada inteligente ou ser respeitada!
    Uma coisa muito comum para mulheres da minha geração: quem se enfeitava demais não era inteligente, profissional ou respeitável.
    Não virei especialista em maquiagem e ainda não consigo pintar as unhas sozinha, mas parei de julgar quem se preocupa com a beleza e agora sempre tenho pelo menos um batom na bolsa.

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  4. A primeira vez que eu assisti esse filme, foi na empresa em que eu trabalhei com teleatendimento. O pessoal andava muito infeliz e estressado, então a empresa chamou duas psicólogas para tentar dar uma ajudada, e elas sugeriram filmes com temáticas otimistas e motivadoras, justamente como Legalmente Loira. Acho que assistir ao filme sabendo que ele daria um up no ânimo da galera ajudou a tirar qualquer preconceito que a gente tinha em mente e no fim todo mundo se divertiu. Eu adoro esse filme de coração <3

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