O Efeito Scully

quinta-feira, novembro 05, 2015

Dana Katherine Scully, médica e agente especial do FBI. Colocada como parceira de Fox Mulder para invalidar os Arquivos X, Dana acabou se tornando o braço direito de Mulder em centenas de casos bizarros, envolvendo monstros, vampiros e, principalmente, alienígenas. Sem os pesados estereótipos de gênero, racional, lógica, até antipática, Scully logo se tornou um fenômeno. Especialmente entre as mulheres que se sentiram motivadas a seguir carreira na ciência, na polícia e FBI, medicina e tecnologia em geral. Surgia assim o Efeito Scully.




Gillian Anderson disse que tinha 27 anos aos produtores de Arquivo X quando se candidatou ao papel. Na verdade tinha 24 anos, mas a personagem já era alguém um pouco mais velha, alguém que teria uma idade compatível para ser agente do FBI. Em 1993, muitas séries tinham protagonistas ultra sexualizadas, como Baywatch e era nisso que os produtores pensavam para uma parceira de Mulder. Loira, com seios fartos, algo totalmente oposto ao personagem de David Duchovny. Eles não tinham certeza se conseguiriam manter a audiência sem ter um "bibelô" para atrair o público.

Mas Gillian era o oposto do que eles pensavam para o papel. Baixinha, corpo fora do padrão sexualizado, cabelos castanhos, que depois se tornaram ruivos e, consequentemente, também se tornaram sua característica mais marcante. O blazer que usava era emprestado de um amigo, o que a tornava ainda mais deslocada do conceito de personagem sexy que os produtores procuravam. Porém, a mágica começou quando ela começou a ler o roteiro junto de David Duchovny. Ali estava a química que os produtores queriam, a Scully estava escolhida e pronta para o papel.

Scully, para mim, sempre foi uma bela contradição, especialmente quando estava ao lado de Mulder. Enquanto ele era ateu, porém acreditava em qualquer coisa sobrenatural que aparecesse na sua frente, sempre adotando o lado menos lógico da equação, Scully era uma pessoa cética, fria em suas análises, médica e com especialização em física, uma cientista na sua forma mais lógica, mas com uma profunda fé em Deus e de família tradicional. Extremamente corajosa, inteligente e racional, é uma pessoa preocupada com a carreira e em fazer a coisa certa sempre que possível.

O que Scully fez na TV foi representar uma mulher que era ao mesmo tempo cientista, policial e um ser humano. Scully não precisava dos pesados estereótipos femininos para representar bem uma mulher. Sua competência e sua capacidade de agir a tornaram uma pessoa confiável, alguém com quem se poderia contar, alguém que sabia o que estava fazendo. Mas também víamos o lado trágico de sua vida devido às escolhas que fez para si: o pai não aceitava que ela tivesse largado a Medicina para se tornar agente do FBI e Scully se dedicava ao trabalho com uma intensidade que não víamos em sua vida pessoal.

O que víamos em cada episódio era uma mulher que tinha plena consciência de suas escolhas. E que não titubeou ao fazê-las, aceitou as consequências de seus atos, lutando pela verdade. Algo assim inspira as pessoas, como Uhura inspirou uma geração de mulheres negras a serem o que quisessem. Scully provava que nem sempre era fácil ser uma mulher na área de ciência e tecnologia, mas que era possível seguir essa carreira. E elas seguiram.


Gillian Anderson ficou feliz e muito surpresa ao saber do Efeito Scully. A produção de Arquivo X começou a receber toneladas de cartas de moças que diziam ter escolhido carreira na medicina, na polícia ou FBI, na ciência, por influência da agente Scully. Fã de Arquivo X como sou, tendo visto todos os episódios, de todas as temporadas, todos os filmes, compreendo profundamente o quanto essa personagem inspira as mulheres.

Isso é mais uma prova do quanto a representatividade importa e o quanto a ficção científica pode inspirar. O pioneirismo de Uhura em Star Trek, Princesa Leia, Ellen Ripley, Dana Scully, todas elas são grandes mulheres da ficção que inspiraram e inspiram gerações de moças e mulheres a seguir seus sonhos. As dificuldades estão lá, mas devem ser enfrentadas como desafios, não como obstáculos.

Quando alguém chia, homens em geral, que não entende porque a gente reclama tanto da falta de representatividade, esse alguém muito provavelmente já está bem representado em tudo. Nos filmes, na TV, nos quadrinhos, nos livros, nos games. Ele tem centenas de caras com quem podem se identificar.

Mulheres, por sua vez, sofrem com personagens sexualizadas, infantilizadas e que, normalmente, estão lá apenas para ser o bibelô da vez ou para justificar alguma ação do protagonista masculino, até mesmo para correr atrás dele como uma desvairada. Portanto, quando vemos uma Dana Scully representar toda uma geração de mulheres que buscam carreira nas ciências, na tecnologia, medicina e polícia, é algo a comemorar. São personagens assim que nos inspiram, nos guiam e nos representam. E precisamos mais delas.

Até mais!

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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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1 comentários

  1. Apesar de hoje eu ser professora e não cientista, Scully foi muito importante na minha adolescência...
    Ela me mostrou como mulheres podem ser ao mesmo tempo fortes e sensíveis...Serem objetivas, inteligentes e terem sua fé.
    E acima de tudo, seres humanos, que apenas circulam pela narrativa em igualdade com todos os outros personagens!!

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