Humans e o estupro de robôs

segunda-feira, novembro 23, 2015

Humans é uma série britânica, em parceira com os Estados Unidos, onde os robôs são presença constante na sociedade. Trabalham em casa, como empregados, trabalham em bordéis, são cuidadores de idosos. Estão em todos os lugares. São muito semelhantes aos humanos, o que causa um certo ressentimento de algumas pessoas que se dedicam a bater em robôs até quebrá-los em arenas. A série, porém, toca em muitos pontos a respeito da raça humana e uma delas é a respeito do estupro e do sexo.




O enredo
Joe Hawkins compra Anitta, um robô doméstico, para ajudar a esposa a cuidar dos filhos e da casa. A esposa viajou a trabalho, então ele faz a compra sem consultá-la. O casal tem três filhos, Mattie, Toby e Sophie, e somente Mattie, a mais velha, não está feliz com a vinda da Synth, a maneira como chamam os robôs. Mattie é uma excelente hacker e detesta a companhia de synths, chegando a tentar hackear um na escola. Porém vemos que sua opinião muda ao longo da série. Ela começa a ter empatia pelos robôs.

Anitta inicia, imediatamente, as tarefas domésticas e Laura leva um susto ao dar de cara com a robô pela casa. Não se sente confortável na presença dela, acha que ela se comporta de maneira estranha e que tem uma fixação em sua filha mais nova Sophie. O que a família não sabe é que Anitta é um robô especial. E se chama Mia. Ela e seus amigos são conscientes, eles possuem livre arbítrio e não estão presos aos ditames de sua programação. E isso é extremamente perigoso para eles, com toda a robofobia que existe na sociedade.

Mia, Niska, Max e Fred foram construídos com consciência por um grande cientista da área da robótica e agora seu filho, Leo, tenta mantê-los unidos e a salvo. Desta forma, eles agiam como humanos, tomavam decisões, brincavam, riam e sofriam abusos também. Mia acabou sendo levada para uma loja para ser vendida, depois de inserirem uma nova programação nela. Niska precisou se esconder em um prostíbulo. Fred está se escondendo como trabalhador em um pomar e Max continua ao lado de Leo, fingindo ser um synth qualquer.

Existem dois momentos na série que me perturbaram bastante, porém que me deixaram grata por ver uma série de televisão tratando isso: o estupro.

Niska
A synth Niska trabalha num prostíbulo, mas é o único robô consciente entre todas as outras. Isso lhe dá uma camada extra, porém. Uma camada de sofrimento, pois ela é estuprada por todos os clientes que a procuram. E a maioria das fantasias ali são de dominação, opressão ou transadas rápidas de quatro. Em uma visita rápida, Leo pergunta porque ela não desativava o sensor de dor, afinal ela sentia tudo o que acontecia ali. E ela responde: "eu fui construída para sentir".

Desligar a dor não faria o estupro dela menor. E aí muita gente pode argumentar: mas ela não é um ser humano, é um robô! Não nos esqueçamos que ela é um robô com consciência. Ela tem sentimentos, tem dor, prazer e, principalmente, raiva. Ela vem sendo usada num bordel das maneiras mais ignóbeis possíveis pelos clientes e se sente mal e violada. Para ela e para a audiência é um estupro. O fato de ser uma máquina consciente muda a dor que ela sente? Questões como essa, normalmente, dividem a audiência.

A série não mostra o que acontece aqui, mas me parece bem óbvio. Niska.

Em um outro momento, um cliente quer que ela pareça assustada e que aja como se fosse adolescente. O cliente parece simpático e atencioso, mas ao revelar seu desejo Niska diz:

- Não.
- Como assim, não?
- Não, eu não vou fazer isso.
- Você fazer o que eu disser pra fazer! Paguei cem libras. Pela próxima hora, você é minha!
- Eu não pertenço a ninguém.

E Niska mata o cliente.

Mattie e a empregada
Mattie está em uma festa com alguns colegas. E na casa existe uma synth, que circula entre os jovens servindo bebida e comida. Um dos rapazes está tão bêbado que resolve brincar de "bolinar" a serviçal da casa e ela avisa que aquilo é uma infração e que deverá avisar ao usuário primário, normalmente o adulto responsável, mãe ou pai. O garoto dá risada e desativa a robô, que cai inerte no sofá. Ele pretende tirar a roupa dela e levá-la para o quarto, onde todos podem se aproveitar dela.

Mas Mattie está vendo tudo isso e para o colega antes que algo mais aconteça. O diálogo que se segue é esse:

- Você não vai fazer isso.
- Por que você se importa?
- Você acha normal carregar uma mulher inconsciente para um quarto e estuprá-la? Faz isso sempre?
- Não é uma mulher de verdade.
- Então por que quer transar com ela?
- Talvez eu queira pegar uma vagina novinha em folha.

Mattie

Quantas histórias nós já fomos obrigadas a ler de moças que foram estupradas depois de terem bebido, por que o estuprador presumia que podia fazer o que quisesse? Esta foi a discussão mais impactante sobre cultura do estupro e estupro de vulnerável que vi em muito tempo na ficção científica. E de que maneira o que ele pretendia fazer com a synth é totalmente inocente? Será que este tipo de comportamento com algo tido como não-humano não poderia refletir um comportamento social? Se esse robô fosse masculino, ele faria a mesma coisa?

Humanos?
Um dos primeiros problemas com os robôs da série é: por que fazer robôs dotados de órgãos sexuais? Anitta/Mia vem com um conjunto de códigos que habilita a versão adulta da parte de um maior de idade. Dessa forma, ela pode ser não apenas uma empregada como também uma escrava sexual. Se você quer um cuidador de idosos, um trabalhador de fábrica ou um fisioterapeuta, para que criar robôs dotados de genitália? Qual escrúpulo alguém teria de violentar um robô qualquer, como no caso da festa?

O segundo problema nem é bem um problema, mas uma dúvida que tenho há muito tempo. Como fazer para quebrar as Três Leis da Robótica, de Asimov? Vamos relembrar quais são:

  • 1ª: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal.
  • 2ª: Um robô deve obedecer as ordens que lhe sejam dadas por seres humanos exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a Primeira Lei.
  • 3ª: Um robô deve proteger sua própria existência desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou Segunda Leis.

Humans nos deu a resposta quando Niska mata o cliente pedófilo: é só dar consciência aos robôs. Dando-lhes consciência, eles adquirem o livre-arbítrio e assim estão livres de sua programação. Humans também tem outro adicional. Enquanto não conseguimos ter empatia pela Skynet e sua consciência sanguinária, ou por HAL, nós temos empatia pelos robôs de Humans. Eles são construídos à forma e semelhança de outro ser humano e passam por pessoas comuns com facilidade. É fácil ter empatia por um robô que está sorrindo do que uma superfície lisa com um olho vermelho.

Especulando ao máximo dentro do ambiente da ficção científica, será que a melhor maneira de impedir agressões aos robôs seria a de nos impedir de ter empatia por eles? Construí-los da forma menos parecida com um ser humano? E quanto às três leis? A série aborda os Protocolos Asimov, baseados nas leis, para todos os robôs existentes. Podemos programar isso em robôs?

Niska sendo 'desinfetada'

Hoje os programas de robótica são, praticamente, todos financiados por militares. Os drones são os melhores exemplos. Os robôs que eles querem são aqueles capazes de matar, que não possam receber ordens de outro ser humano, além de não se preocuparem com sua própria existência. Não é bem o que Asimov imaginou, mas devemos lembrar que ele falava muito de humanidade e não exatamente de robôs em suas obras. Assim como Bradbury não falava de marcianos em As Crônicas Marcianas.

Acho interessante usar robôs para discutir uma série de problemas humanos atuais. Mas se olharmos para a realidade veremos que o uso dos robôs é de forma a desumanizá-los. Quanto menos eles forem parecidos com um ser humano, menor a empatia que teremos por eles. Tanto que para conseguir a empatia do público, a OCP coloca um humano dentro da estrutura do Robocop.

Difícil dizer o que será do futuro sobre a nossa relação com os robôs. Até mais!

Leia mais:
Não faça sexo com robôs, pedem especialistas
Humans Synth Niska Is Revolutionary, In More Ways Than One
Persona Synthetics
Synth sex and suburban sci-fi – have you been watching Humans?

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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2 comentários

  1. Muito bom o texto, eu já tinha refletido um pouco sobre isso :D

    Quando era mais nova assisti AniMatrix, e lá tem uma cena onde uma Mulher robô é agredida e morta, enquanto ela sofre, os homens que batem nela gritam algo como "ela não é uma Mulher, ta tudo bem".

    Esses exemplos de robôs, especialmente os femininos, na minha opinião tem uma relação bem triste com o dilema que as Mulheres trans passam no mundo real.

    Muitos homens acham que podem bater em uma Mulher trans por "ela não ser mulher".
    Muitos homens olham para a Mulher trans apenas como um objeto sexual.

    Até que ponto a Niska (da série) é considerada uma Mulher?
    Ao ser estuprada e sofrer algo que uma Mulher cis sofreria, tem relevância o fato dela não ser "biologicamente" uma Mulher?

    Enfim, apessar parecer futurista, esta discussão está bem presente em nossa sociedade hoje. A diferença é que invés de robôs, temos Mulheres trans.

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  2. engraçado que eu ia lendo o texto e a cada parágrafo eu via as perguntas sendo respondidas. É assustador imaginar que é perfeitamente possível ver homens estuprando robôs, e pior, mulheres usando isso como proteção! Lembro que assistia o remake de Gabriela na Globo, houve uma greve das quengas do Bataclã. As moças que tinham namoradinhos começaram a sofrer abusos... As mulheres da cidade foram no bordel pedir que as quengas acabassem com a greve, pois punha em risco a honra das moças da cidade e a tranquilidade em casa... Lembro de sentir calafrios com essa cena. Ainda não li o livro que inspirou a série da Gabriela, mas confesso que depois desse texto seu, preciso muito fazê-lo.

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