Resenha: Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie

sábado, outubro 25, 2014

Há muito tempo que eu ansiava por ler Americanah. Um livro grande, denso, mas cheio de significado, emocionante, um soco no estôamgo. Chimamanda é, sem dúvida, uma das escritoras de maior influência atualmente, atraindo leitores para a literatura africana e nigeriana, mostrando o continente e seu país por outro viés.




O livro
Lagos, Nigéria, anos 90. Ifemelu e Obinze são jovens, cheios de sonhos, querendo uma vida futura juntos, imersos no amor da juventude. Eles vivem em uma Nigéria sob regime militar, que paralisou as universidades do país, paralisadas por greves, com professores e alunos insatisfeitos. Como a tia de Ifemelu tinha se mudado para os Estados Unidos para tentar a vida lá com o filho, Ifemelu consegue uma bolsa parcial numa universidade e se muda. Obinze fica na Nigéria, tentando ir logo depois para se encontrar com a namorada e lá tentar uma vida, mas as coisas não são assim.


A vida de Ifemelu, no começo, é bastante difícil. Sem conseguir emprego, usando o seguro social de outra nigeriana, ela se depara, pela primeira vez, com a questão racial. Ela se vê como imigrante, mulher e negra pelos olhos dos americanos e se surpreende com as coisas que eles dizem e fazem. Enquanto isso, a depressão abate Ifemelu, ela deixa de falar com Obinze, na Nigéria e sua vida desaba.

"Entendo que a questão racial é importante aqui, mas precisamos ter certeza de que o livro vai transcender a raça, para não ser só sobre isso."
E eu pensando: mas por que tenho que transcender a raça? Sabe, como se a questão racial fosse uma bebida que é melhor se for servida diluída, temperada com outros líquidos, ou os brancos não vão conseguir engolir.

Para sobreviver e poder pagar a faculdade, ela começa a trabalhar como babá. Podemos acompanhar suas observações a respeito dos comportamentos racistas das pessoas, como por exemplo quando elas falam mais alto e mais pausado com ela, temendo que, por ser imigrante, Ifemelu fosse incapaz de compreender as pessoas. Quando dão palpite em seu cabelo e quando ela foi obrigada a tirar suas tranças e alisar para conseguir um emprego em uma revista. Ou então quando um salão se recusou a fazer suas sobrancelhas porque "não tinham experiência com cabelo afro".

Os anos passam e Ifemelu se torna uma blogueira famosa, onde escreve sobre as visões de uma negra não-americana a respeito dos negros que são americanos e todo o tipo de situações que os negros precisam enfrentar com os brancos.

América Latina como um todo tem um relacionamento muito complicado com a negritude, que é ofuscada por toda aquela história de 'somos todos mestiços' que eles contam para si mesmos.

Chega um momento de sua vida que Ifemelu resolve voltar para a Nigéria. O tempo, o sucesso, o dinheiro não a fizeram esquecer Obinze, mas por um momento ela se sente uma estranha em seu próprio país e parece não mais reconhecer os grandes amigos que teve na juventude. E uma observação que Ifemelu faz de si mesma: foi preciso sair do país para que ela se sentisse uma negra.

O único motivo pelo qual você diz que a raça nunca foi um problema é porque queria que não fosse. Nós todos queríamos que não fosse. Mas isso é uma mentira. Eu sou de um país onde a raça não é um problema; eu não pensava em mim mesma como uma negra e só me tornei negra quando vim para os Estados Unidos. Quando você é negro nos Estados Unidos e se apaixona por uma pessoa branca, a raça não importa quando vocês estão juntos sem mais ninguém por perto, porque então é só você e seu amor. Mas no minuto em que põe o pé na rua, a raça importa. Mas nós não falamos sobre isso. Nem falamos com nosso namorado branco sobre as pequenas coisas que nos irritam e as coisas que queríamos que ele entendesse melhor, pois temos medo de que ele diga que estamos exagerando ou que nos ofendemos com facilidade demais. E não queremos que diga: 'Olhe como evoluímos, há apenas quarenta anos seria ilegal sermos um casal', porque sabe o que a gente está pensando quando ele diz isso? Por que foi ilegal um dia, porra? Mas não dizemos nada disso. Deixamos que se acumule dentro da nossa cabeça, e quando vamos a jantares de gente liberal e legal como este, dizemos que a raça não importa porque é isso que se espera que digamos, para manter nossos amigos liberais e legais confortáveis.

Americanah foi um soco no estômago. Chimamanda escreve sobre o que muita gente mantém para si mesma, em silêncio, sofrendo e sangrando em uma sociedade racista. Sim, nossa sociedade é racista, não dá para tapar o sol com a peneira. A mensagem do livro é tão importante, tão forte que deveria ser leitura obrigatória, como aquelas de vestibular, e quem sabe assim os reacinhas de Facebook aprendessem algo. A escrita de Chimamanda é poderosa, mas sua narrativa corre rápido, não é aos tropeços.


Ficção e realidade
Tive a clara impressão de não ler um obra de ficção. Tudo o que está ali é real e aconteceu. Seja com a autora, com amigos dela, com pessoas que ela conhece, com qualquer negro que esteja hoje nas Américas ou na Europa (há um momento do livro em que Obinze está na Inglaterra e sente o racismo na pele, até mesmo de amigos de infância que emigraram). O início do livro já é algo que nunca saberei como é: entrar em um salão querendo fazer tranças africanas e ouvir as situações que as imigrantes que mal falam direito o inglês precisam enfrentar.

Chimamanda Ngozi Adichie.

Chimamanda trabalhou, magistralmente, com temas como racismo, desigualdade de gênero, imigração, preconceito contra imigrantes. Seus personagens - principalmente Ifemelu - são profundos, múltiplos, com seu lado bom e ruim. Eles podem ser simpáticos em um momento, arrogantes em outro. Eles são HUMANOS. Seus dilemas são entre si e entre as outras pessoas. A autora também coloca na narrativa as maneiras de falar da Nigéria, como o 'ô' no final de cada frase. É um livro rico e muito denso. Não digo que é um livro fácil, pois as situações de racismo e preconceito são um soco no estômago e ajudará a desconstruir muitos mitos e visões equivocadas sobre África, Nigéria e racismo.


Pontos positivos
Análise sobre racismo
Autora nigeriana
Personagens bem trabalhados

Pontos negativos

Não sabemos o destino de alguns personagens


Título: Americanah
Título original: Americanah
Autor: Chimamanda Ngozi Adichie
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 516
Onde comprar: Amazon


Avaliação do MS?
Não há mais nada a se dizer de um livro tão maravilhoso quanto este além de LEIA. Por favor, leia este livro. São 516 páginas que passam rápido, pois ficamos submersos no mundo de Ifemelu. Não pense que o romance com Obinze rouba a cena, na verdade ele chega a ser totalmente secundário enquanto acompanhamos os personagens. Um livro essencial em qualquer estante.

Até mais!

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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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