Resenha: Trilogia Divergente, de Veronica Roth

sábado, setembro 06, 2014

Depois de muito adiar a leitura, acabei finalmente lendo a trilogia Divergente, de Veronica Roth. De início relutei por achar que era uma imitação de Jogos Vorazes, mas me enganei. Apesar de termos semelhanças, os dois enredos divergem em seus propósitos e consistências. Resolvi resenhar a trilogia logo em um único post. Pronto para a sua seção de escolha de facção?

Tris e Quatro, na adaptação de Divergente para os cinemas.




Eu também não pretendia fazer uma resenha da trilogia. Já existem muitas resenhas por aí sobre a série, sobre o filme, achei que seria mais uma entre tantas. Mas eu leio muitas distopias juvenis (muitas!) então era injusto não resenhar Divergente também.


Divergente
O livro de abertura começa com Beatrice, uma moça tímida e calada, que nos conta como é a vida numa Chicago do futuro que foi destruída por guerras. Para que a sociedade sobrevivesse, ela foi dividida em facções. A Abnegação (facção de Beatrice) é aquela altruísta, que tenta se distanciar do egoísmo. É tirar a roupa que veste para ajudar ao outro. Aqui, as necessidades dos outros está acima da necessidade pessoal. Como eles não são egoístas, o governo foi entregue à Abnegação.

A Erudição valoriza o conhecimento. São eles os professores, os médicos, os cientistas, aqueles que contribuem para aumentar o conhecimento da sociedade. A Audácia são os valentes. Eles defendem as cercas da cidade. Não conhecem o medo nem qualquer amarra. São imprudentes também, já que o medo não pode existir entre eles. A Franqueza defende a verdade acima de todas as coisas. Não existem segredos entre os membros da franqueza, já que eles acreditam as mentiras foram as responsáveis pela quase destruição da sociedade. Já a Amizade acredita e valoriza a paz e a harmonia acima de tudo. São amáveis e pacíficos, geralmente ficando de fora das esferas de decisões na cidade, por não quererem conflitos. São os responsáveis pelas lavouras e pomares que alimentam a cidade.


O problema é que Beatrice se sente aprisionada na Abnegação. As regras sociais impostas pela facção, a regra de se vestir de cinza e abrir mão de qualquer vontade pessoal parecem demais para ela. E para ter certeza de qual é o seu lugar, existe um teste que todo mundo faz na adolescência para possa mudar de facção ou para permanecer onde está. E ao fazer o teste, seus resultados são inconsistentes. Ela é uma Divergente, ou seja, ela apresentou aptidão para três facções e ser divergente neste mundo é perigoso. Divergentes são mortos.

No dia seguinte, na sua escolha, Beatrice não sabe o que fazer. Ela não sabe mais qual é seu lugar no mundo. E para a surpresa de todos, ela escolhe a Audácia. Ela corta sua mão e deixa o sangue cair na tigela da Audácia. A partir daí, sua vida dá um salto. Ela pula de trens em movimento, aprende a lutar, a mexer com armas, com facas, mesmo enfrentando o bullying dos colegas, sendo chamada de careta, por vir da Abnegação. Seu nome também muda: Tris. Ela pode pensar em si sem culpa. Não precisa de atos altruístas que antes lhe pareciam tão difíceis de seguir. E sobe na classificação entre os colegas, tornando-se uma das melhores iniciadas da Audácia. Mas no meio disso tudo, a Erudição está conspirando para tomar o poder da Abnegação, escrevendo artigos que denigrem a facção altruísta e jogando uns contra os outros. No meio disso tudo, está Jeanine Matthews, da Erudição.

Kate Winslet é Jeanine Matthews na adaptação para o cinema.

Gostei muito deste livro. Ele mostra Tris em uma ascensão. Ela sai do lugar comum e busca seu lugar no mundo. O processo não é fácil. Tris apanha nas aulas de defesa pessoal, é humilhada por colegas, é invejada por muitos deles e sente muita falta da família. Ela se sente dividida, tentando enxergar suas qualidades e defeitos e tentando se enquadrar em algum lugar. Sua divergência é uma sentença de morte e ela sabe que é só uma questão de tempo até que a peguem. Mesmo tendo uma paquera com Quatro, seu instrutor na Audácia, esse não é o tom do livro. Aqui a busca é por um lugar no mundo.


Pontos positivos
Protagonista feminina
Distopia
Críticas à sociedade

Pontos negativos

Paquerinha
Algumas cenas longas demais


Título: Divergente
Título original: Divergent
Série: Divergente
1- Divergente (2012)
2- Insurgente (2013)
3- Convergente (2014)
Autor: Veronica Roth
Editora: Rocco Jovens Leitores
Páginas: 504
Onde comprar: Grandes livrarias


Insurgente
Jeanine Matthews praticamente conseguiu o que queria: a Erudição derrubou a Abnegação do poder e agora caça divergentes por toda a cidade. Um divergente é alguém que não sabe seu lugar no mundo e é visto como uma ameaça ao "perfeito" sistema de facções. A única saída de Tris e Quatro (um divergente) é sair da cidade. Eles buscam ajuda nos campos além da cerca, na Amizade, onde conseguem se esconder por um tempo.


As facções estão divididas. A Audácia é a principal delas. Alguns se aliaram à Erudição, enquanto os restantes, contra a traição da facção, se refugiaram na Franqueza. Os personagens estão mais maduros, mais vividos, tendo que carregar em si os terríveis eventos do final do primeiro livro. Tris, principalmente, não se permite chorar diante da desgraça que se abateu sobre a Abnegação e sua família. Ela sente pela quebra das facções, pensando em como viver sem saber qual será o seu lugar no mundo. Quatro também é mais revelado. Sabemos que ele é filho de um dos antigos líderes da Abnegação e que era brutalmente espancado por ele quando criança, que foi o motivo que o fez ir para a Audácia. Seu pai não é nem um pouco confiável e vemos Tris na cola dele, pois há um grande segredo guardado pela Abnegação que revela o porque do sistema de facções ter sido instalado.

Conhecemos mais personagens importantes, como a líder da Amizade e a líder dos Sem-Facção, pessoas que não se enquadravam em nenhuma delas e/ou que foram banidos para viver no submundo da cidade. Com a quebra das facções, eles se tornam cada vez mais presentes e poderosos, querendo o fim do sistema vigente e uma sociedade que fosse como as antigas democracias, onde todos podiam participar do governo e tinham a liberdade de usar a cor de roupa que quisesse, sem mais seguir os rígidos protocolos de vestuário das facções. Mas como convencer a população disso depois de tantas gerações vivendo desta forma? Como se enquadrar em um novo sistema político e social? Como fazer as pessoas se sentirem seguras sem as regras de suas facções?

Aqui temos uma evolução de Tris e Quatro. Eles estão mais maduros, mas ainda assim com muitas dúvidas sobre quem são, qual seu lugar no mundo e como sobreviver aos eventos que estão se sucedendo na cidade. Tris se sente culpada e perdida desde o final do primeiro livro, em especial por ter atirado em um amigo querido para se defender. Mas agora ela tem que se levantar contra a Erudição e contra parte da Audácia para parar com o regime de terror de Jeanine. Insurgente é um bom livro, traz vários dilemas sociais e nos questões sobre família, sociedade e pertencimento. Trata das dúvidas que todos nós temos sobre como nos comportar diante de um mundo e diante das outras pessoas.


Título: Insurgente
Título original: Insurgent
Série: Divergente
1- Divergente (2012)
2- Insurgente (2013)
3- Convergente (2014)
Autor: Veronica Roth
Editora: Rocco Jovens Leitores
Páginas: 511
Onde comprar: Grandes livrarias


Pontos positivos
Protagonista feminina
Distopia
Críticas à sociedade

Pontos negativos
Tris pode ser irritante demais
Algumas cenas longas ou mal descritas


Convergente

E chegamos ao fim da saga de Tris e Quatro. E se a trilogia parasse em Insurgente e fosse só uma duologia eu me daria por satisfeita. A autora nem precisava ter escrito este último livro, dava muito bem para resolver tudo em Insurgente com mais umas trinta páginas. Mas ela preferiu continuar e estragar algo que estava muito bom. Se eu estivesse lendo o livro físico, Convergente voava pela janela.


Tris está ainda mais cansada e irritada com as traições e com toda a violência que se abateu sobre seu mundo. Quatro, ela e mais alguns fugitivos precisam escapar do furor que tomou a cidade quando os Sem-Facção tomaram o controle. A única saída é seguir para longe da cerca, depois dos campos da amizade, para longe de tudo que eles conheciam, pois parece não haver mais lugar seguro para ninguém em Chicago. Mas o que existe depois? Ninguém sabe. Se alguém chegou a tentar, nunca voltou.

O que eles descobrem do outro lado da cerca é inimaginável. É algo que muda de vez suas percepções sobre si próprios e que pode acabar com o mundo que ficou para trás na cidade. A verdade é intolerável para alguns. Quatro sofre muito em descobrir sobre sua vida e sobre si mesmo e comete erro atrás de erro. Tris também parece não se encaixar neste lugar, mesmo tendo descoberto coisas sobre sua mãe que nunca imaginou. Mas os problemas do livro começam logo em seguida. A decisão da autora em colocar a visão do Quatro não foi tão ruim. Estranhei um pouco, mas ok, foi interessante ver um pouco mais sobre seus pensamentos e sentimentos. Aquela era uma situação difícil para todo mundo. O fim é que é verdadeiramente revoltante.

A autora pega uma protagonista com várias características e sentimentos, uma pessoa tão próxima dos leitores e faz com ela o impensável. Além disso, ela eleva o personagem de Quatro, numa perfeita situação de Síndrome de Trinity: uma personagem feminina forte que acabou virando um apêndice do personagem masculino. Foi uma atitude corajosa de Roth, porém totalmente desnecessária, pois ela tirou da obra tudo o que a fazia ser boa: Tris e seus dilemas. Sem contar o enredo confuso e com fatos que parecem ter sido jogados sem o menor cuidado. Quem revisou essa obra poderia ter dado o toque na autora, mas acho que a pressa para publicar imperou, pois temos informações demais, nada resolvido, explicações que fazem pouco sentido e nesse imbróglio todo temos Tris e Quatro discutindo a relação o tempo inteiro. Pronto, taí Convergente e a merda que ficou o final da trilogia.


Título: Convergente
Título original: Allegiant
Série: Divergente
1- Divergente (2012)
2- Insurgente (2013)
3- Convergente (2014)
Autor: Veronica Roth
Editora: Rocco Jovens Leitores
Páginas: 526
Onde comprar: Grandes livrarias


Pontos positivos
Protagonista feminina
Distopia
Críticas à sociedade

Pontos negativos
O fim de Tris
O fim de Quatro
Todo o resto

Ficção e realidade

Quem aí já sentiu que não tinha lugar no mundo, levanta a mão. (o/) Isso é o que faz de Divergente ser completamente diferente de Jogos Vorazes, com quem foi prontamente comparado. Enquanto em JV nós temos uma luta dos distritos contra um governo opressor e tirano, uma crítica à indústria do espetáculo, em Divergente nós temos uma busca para compreender nosso lugar no mundo. Mesmo que a jornada de Katniss seja muito pessoal e ela busque entender o mundo onde vive, ela sempre soube qual era seu lugar: seu distrito e sua família. O glamour e o luxo da capital não a seduzem.


Enquanto Katniss se sacrifica pela irmã e pela mãe, Tris não vê a hora de deixar a família e ter novas experiências, de ver novas pessoas, de explorar e de se deixar levar, sem as rígidas regras de sua facção. Tris se envolve com os combates e com as lutas contra a Erudição e Jeanine, mas ela ainda não sabe a que lugar pertence. O conceito de facção antes do sangue (família) é algo que incomoda Tris, pois ela ama os pais e pensa neles constantemente. Ela não entende o conceito de não poder pensar em si própria, de não ter que pensar tanto nos outros.


Avaliação do MS?

O que puxou a classificação da trilogia para baixo foi Convergente. Sem ele, seriam quatro, até cinco aliens para a obra. Especialmente o primeiro livro é muito bom, redondinho, com começo, meio e fim. Insurgente extrapola um pouco os acontecimentos do primeiro livro, mas também tem propósito. Mas Convergente não tem propósito nenhum! Para mim, esse livro não serviu para nada! Ao contrário, ele serviu para estragar o que está ótimo. Achei extremamente questionável o que a autora fez de Tris para elevar o personagem de Quatro. Foi uma pena mesmo o que Roth fez. Minha sugestão: leia, mas Convergente fica por sua conta e risco.


Até mais!

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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8 comentários

  1. Eu li Jogos Vorazes por causa de suas resenhas! Tinha assistido os filmes e achava que os livros não teriam nada além pra acrescentar, mas decidi ler e me apaixonei pelos livros. Por isso vim ler essa resenha pensando: será que vou dar chance pra Divergente?
    Acontece que não deu vontade de ler não. Você falou bem dos 2 primeiros livros, me animei, mas sobre o último livro... Acaba comigo o livro final de trilogia ser ruim!

    Obrigada pela resenha! Continue com as resenhas de distopias adolescentes, porque sempre confio em você! :D

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    1. Muito obrigada pela confiança!

      Olha, Divergente vale à pena. Insurgente só se vc ficar muito curiosa e Convergente eu senti que foi escrito às pressas pra lançar logo, sabe? Então ele ficou incompleto e com um final péssimo. Tris era uma grande personagem e a autora destruiu tudo.

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  2. o que você achou do filme insurgente, e mudança do final de tris?

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    1. Não vi o filme. Mudou alguma coisa?

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    2. Filme insurgente muda muita coisa. Tem um plot diferente

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  3. O melhor livro é Divergente. realmente me cativou. E concordo quando doz que Convergente estragou a trilogia. Não só a morte de Tris, mas a historia em si. Não faz sentido todo massacre que ocorre em Divergente e insurgente, se tudo era um experimento para resgatar divergentes. Afina faria mais sentido eles terem eliminados Janine e os membros de audácia, do que deixar o massacre ocorrer. Acho que a autora não soube como finalizar a história e deu um final polêmico para chamar atenção.

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  4. Eu adorei a trilogia inteira, li tudo em uma semana. Convergente foi muito bom pra mim, exceto pela morte da tris, que é algo que eu ainda não consigo aceitar.. e gostei também de colocar o lado do quatro, afinal ele sempre foi muito fechado, era uma coisa que eu tinha curiosidade em saber, o lado dele.. Mas essa trilogia me fez realmente pensar em qual é o meu lugar no mundo, e que eu não quero viver a vida em vão.. Beijos.

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  5. Confesso que tive preconceito com essa série por causa da premissa (mais especificamente a construção do universo). Achei meio simplista e também não tão crível. Mas esse post despertou a minha curiosidade. Vou dar uma chance. =]

    Adorei Jogos Vorazes, e no mais, acho bem interessante como essas distopias teen de hoje tentam à sua maneira emular certos conceitos já vistos em livros como 1984. É como vi em outro post sobre esse assunto: Só pelo fato delas instigarem leitores a conhecer Orwell e outras distopias clássicas, elas já ganham méritos.

    Parabéns pelo Blog.

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