Ponto Ômega

quinta-feira, maio 08, 2014

Será que, algum dia, poderemos ter a união de consciência e universo, uma evolução rumo a um caminho, aparentemente, sem volta, onde haverá uma perfeita conjunção de mente e espírito? Afinal, o que é o espírito? Poderia ser uma rede de pensamentos que sustenta o universo, evoluindo, constantemente, até um ponto de infinita complexidade? Bem, não sabemos, mas já tentaram responder à essas perguntas.



O termo Ponto Ômega foi criado por Pierre Teilhard de Chardin (1881–1955), padre jesuíta, teólogo, filósofo e paleontólogo francês, para descrever o último e máximo nível da consciência humana, um momento de máxima complexidade, que alguns acreditam que será o último estágio do universo e da raça humana. A teoria surgiu no livro de Teilhard chamado The Future Man (1950) e fala que o universo está em constante desenvolvimento através de níveis maiores de complexidade material e de consciência. É o que ele chamava de Lei da Complexidade/Consciência.


Teilhard acreditava que o universo se movia apenas em uma direção, para maior complexidade, aumentando sempre sua consciência, chegando a um nível supremo. Este nível supremo seria o Ponto Ômega, onde ele seria extremamente complexo, consciente, transcendente e independente do universo em evolução. Em sua obra seguinte, The Phenomenon of Man, ele explica que o Ponto Ômega precisa preencher cinco requisitos:

  • Já existir - só assim o surgimento de um universo através de estágios de consciência pode ser explicado;
  • Ser individualizado - um ser intelectual e não uma ideia abstrata;
  • Transcendência - o Ponto Ômega não pode ser o resultado do estágio final e complexo da própria consciência do universo, ele deve existir antes mesmo da evolução dele, porque o Ponto Ômega é o responsável pelo surgimento do universo através de mais complexidade, consciência e personalidade;
  • Autonomia - livre das limitações de tempo e espaço;
  • Irreversível - alcançável e imperativo; ele deve acontecer, e não pode ser desfeito.

É preciso compreender a ideia de Teilhard através de seu pensamento religioso como padre católico. Ele tentava achar um caminho para reconciliar ciência com religião, uma tentativa de recolocar Deus de volta à razão científica. Acabou sendo mal visto por ambos, mas criou uma interessante teoria, que atribuiria à Terra uma nova camada, além daquelas que já conhecemos. Unindo seu conhecimento sobre geologia e paleontologia, ele acabou acrescentando novas camadas, além daquelas que o planeta já tinha:

  • Barisfera ou núcleo metálico terrestre;
  • Litosfera ou camada de rochas;
  • Hidrosfera ou camada de água;
  • Atmosfera ou camada de ar;
  • Biosfera ou esfera da vida;
  • Noosfera ou esfera do pensamento ou espírito humano:
  • Cristosfera ou âmbito de Cristo.

A Noosfera é talvez a mais interessante, pois seria uma camada criada a partir da integração de todo o pensamento humano em uma única rede inteligente sobre a Terra. Para orientar este processo, existiria uma força agindo dentro da matéria, orientando a evolução em direção a um ponto de convergência com o universo: o Ponto Ômega. Teilhard sustentava a ideia de um Panenteísmo cósmico: a crença de que Deus e o Universo mantém uma criativa e dinâmica relação de progressiva evolução.


Um livro e um conto me vieram, imediatamente, à mente quando li sobre o Ponto Ômega. Um é O Inquisidor, um livro de ficção científica escrito por Valério Evangelisti. Nele temos passado e presente juntos, um influenciando o outro, em três distintas narrativas. O cientista Marcus Frullifer, visto como um louco em sua época, propôs uma nave capaz de viajar quase que, instantaneamente, pelo espaço usando apenas a força do pensamento de alguns tripulantes, centrado em um médium. Frullifer se apoia nos psicotrons, partículas subatômicas emitidas pelo cérebro humano, e que levariam a nave e seus tripulantes a pontos escolhidos no tempo e no espaço, passando por sua própria versão do hiperespaço: o imaginário. É como se o suporte do espaço-tempo fosse o pensamento de seres conscientes e a nave pudesse se movimentar utilizando-se deste suporte.

O outro é o conto A Última Pergunta, de Isaac Asimov, de 1956. Nele temos uma pergunta sendo repetida ao longo da história humana, começando com um engenheiro bêbado que pergunta ao super computador Multivac como salvar a humanidade, ou seja, a quantidade total de entropia no universo pode ser revertida? (ver 2ª Lei da Termodinâmica). Multivac não consegue achar a resposta para tal dúvida e responde: "DADOS INSUFICIENTES PARA RESPOSTA SIGNIFICATIVA". O conto prossegue nesta mesma estrutura, com novas perguntas e novos super computadores, até que chega ao fim, um misto de religião, filosofia e ciência. Exatamente o que foi proposto por Teilhard, mas que Asimov, sabiamente, não atribuiu nomes ou desígnios. O mais legal é que você pode ler este conto aqui!


Poderíamos, um dia, unir consciência, universo e quem sabe também a tecnologia, como fez V'Ger, em Star Trek, o Filme, de 1979? Poder entender e enxergar a estrutura que suporta o universo para entender como ele funciona? Quantos estágios evolutivos teremos que encarar antes que isso aconteça? Vamos sobreviver enquanto raça e civilização por milhões de anos?

Em Stargate Universe, a nave Destiny tinha, como missão original, coletar informações e montar um complexo quebra-cabeças que a raça dos Antigos (que criou o Stargate) descobriu entrelaçada no tecido do próprio universo. Reconhecendo que o padrão não podia indicar uma origem natural, eles concluíram que haveria alguma ordem pretérita no universo inteiro e a nave fora enviada para descobrir o que é. Como os Antigos aprenderam o caminho da ascensão - momento em que matéria se torna desnecessária e a mente passa a habitar uma nova dimensão de energia consciente - eles nunca voltaram à nave Destiny.

Seja como for, se tudo acabar na fria escuridão de um universo moribundo, ou se chegaremos ao ponto de poder tocar a malha que sustenta o universo, o que importa é saber viver e aproveitar ao máximo essa existência. Somos poeira de estrelas e voltaremos a ser um dia.

Até mais!

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





Leia esses também...

0 comentários

ANTES DE COMENTAR:

Comentários anônimos, incompreensíveis ou com ofensas serão excluídos.
O mesmo vale para comentários:
- ofensivos e com ameaças;
- preconceituosos;
- misóginos;
- homo/lesbo/bi/transfóbicos;
- com palavrões e palavras de baixo calão;
- reaças.
A área de comentários não é a casa da mãe Joana, então tenha respeito, especialmente se for discordar do coleguinha. A autora não se responsabiliza por opiniões emitidas nos comentários. Essas opiniões não refletem necessariamente as da autoria do blog.

Viajantes

Curta no Facebook

❤️


"A ficção científica é um substituto para todos os lugares que eu nunca vou alcançar nessa vida."

James W. Harris