Por que tem gente que odeia ficção científica?

terça-feira, abril 01, 2014

Esta é uma pergunta que me incomoda porque ela não tem bem uma resposta. Não é só detestar um gênero literário, eu percebo que algumas pessoas têm um verdadeiro asco à expressão, um nojo generalizado como se FC fosse uma doença infecto-contagiosa e você, por ser fã do gênero, é o vetor de contaminação... Gente, por que odiar ficção científica?





Como disse, eu não tenho exatamente uma resposta. E sei também que as pessoas têm seus gostos. Claro, ninguém gosta das mesmas coisas que os outros, sempre temos divergências. No entanto, é frequente eu ver gente reclamando da FC, como se fosse escrita em javanês, total e completamente incompreensível. Mas podemos sempre especular sobre FC ser tão marginal com algumas pessoas.

O motivo do post foi um bate-boca com um criaciochato, aqueles malas defensores de pseudociência, que disse que não ia mais "debater" comigo, porque eu sou fã de ficção científica. Automaticamente, meus argumentos para ele eram inválidos por causa disso. Para alguém que curte criacionismo e para quem a ciência é uma coisa inútil, imaginei que o fato de haver a palavra "científica" no termo pudesse afastar esta pobre alma infeliz de um gênero tão incrível. Então, o primeiro motivo seria... bem, burrice mesmo.

Não é apenas uma opinião isolada. Vi algumas resenhas de blogueiros literários, falando que eles não costumam ler ficção científica, que não curtem nomes complicados, ou aliens, ou aventuras espaciais, coisa e tal, mas adoraram Jogos Vorazes, A Hospedeira e Divergente. Ou seja, eles nem sabiam que estavam lendo uma distopia, que por sua vez é um sub-gênero dentro da ficção científica. Isso pode ser culpa das próprias editoras e livrarias, que estão apostando pesado no YA (young adult), vendendo-o como uma coisa, quando ele é outra. E muitas vezes ambas. Preconceito do público ou das editoras? Difícil saber quem vem primeiro. Mas aposto que muitos torceriam o nariz para Fahrenheit 451, sendo que é uma distopia tão poderosa quanto Jogos Vorazes. Um é vendido como um clássico absoluto de FC, o outro não.


Um outro motivo que poderíamos pensar para o asco seria o fato de a ciência, no Brasil, ser pouco ou mal divulgada. Isso não formaria leitores que sentissem gosto pela coisa, mesmo que não fosse cientista. Tem algum programa na televisão aberta que se dedique a divulgar ciência? Na minha época, tinha o Beakman, mas atualmente, o que temos? E quando a ciência aparece, vem de maneiras distorcidas, como ossos de dinossauros sendo achados na terra e não em rochas. Se formos pensar nas escolas, nossas crianças e jovens fazem pouca experimentação, coisa que no ensino médio é obrigatório. Mas são poucas as escolas que possuem laboratórios e/ou professores que saibam mexer com um. Colocamos na cabeça de nossos alunos que não só a escola é chata, como também que adquirir conhecimento e produzir o mesmo é igualmente chato. Não estamos formando pessoas, estamos formatando-as.

Para um país que não lê o tanto que outros países leem, onde o mercado nacional é pequeno e um leitor é disputado a tapa, podemos ver que ficção científica é pouco divulgado, ou no caso dos best-sellers, vendida como qualquer outra coisa, menos FC. Então, quando você entra numa livraria, vemos sempre os mesmos livros em destaque na porta e John Green. Fui numa livraria com a Aline Valek outro dia e assim que entramos, uma moça ofereceu um marcador de páginas. Que livro que era? Mais porn-pop, estilo Cinquenta Tons de Cinza. Uma vez que um livro faz sucesso num nicho, surge uma caralhada de outros títulos a reboque.


Não dá para mudar esse cenário de uma vez. Teríamos que formar leitores, fazer da ciência algo que não pareça um bicho de sete-cabeças odioso, teríamos que fomentar pesquisa e mostrar seus benefícios. Neste sentido, acho louvável a atitude da Editora Aleph que se empenha em trazer novas edições de grandes clássicos da FC para formar um público leitor. Mas sabemos que isso é algo que leva tempo, preconceitos são coisas que não caem com facilidade. E impor uma mudança é algo que sabemos ser ineficaz, já que é algo que tem que ser espontâneo.

Eu entendo que existam livros de ficção científica que sejam ruins. Não questiono isso, pois volta e meia eu leio alguma coisa desagradável e abandono no meio do caminho. Porém, enquanto leitor, a gente meio que se dispõe a ler de tudo um pouco. Isso faz com que possamos lapidar nosso gosto literário. Mas vejo que muita gente xinga e critica FC sem, realmente, ter lido algo. Ou então, pega um autor bem clássico, como Asimov, não gosta do estilo e decreta "Affff, odeio FC!". Eu não gosto de tudo o que leio também, mas não vou decretar que odeio algo depois de uma experiência.


O problema é que muita gente vai na onda de ler os livros da moda. Vi uma blogueira que leu Eu Sou o Número Quatro só porque virou filme pop, com romance adolescente e alienígenas, e fez uma resenha que deixaria qualquer um confuso. Ela disse que não gosta de ficção científica, que não gosta de alienígenas, mas que tinha gostado do livro e que o protagonista do filme era um gato. Peraí, amiga, gostou ou não?

FC não é um gênero fácil. É 8 ou 80, ame ou odeie, quando na verdade ele deve ser encarado sem tantas reservas, afinal existe muita coisa boa por aí. Lendo os livros certos, é possível encarar qualquer gênero literário.

Até mais!

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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"A ficção científica é um substituto para todos os lugares que eu nunca vou alcançar nessa vida."

James W. Harris