Mulher e o apocalipse

quinta-feira, março 27, 2014

Já não é de hoje que venho pensando nisso, apesar de não chegar à uma conclusão definitiva. Depois que assisti ao episódio número 14 de The Walking Dead, pensei ainda mais no assunto. Como ficaria a situação das mulheres e das meninas em uma situação de colapso da civilização, de um apocalipse zumbi, nuclear, alienígena, whatever? Se a nossa civilização entrasse em colapso, qual seria o nosso destino em um mundo dominado pela sobrevivência?





The Walking Dead não é uma série sobre zumbis, já cansei de falar. Ela é uma série que fala de sobrevivência. E sobreviver não é uma tarefa fácil. Se hoje, ao estarmos com fome, podemos abrir a geladeira, pedir uma pizza ou sentar em um restaurante, num evento apocalíptico a coisa seria muito mais difícil. Pense em todo o caminho que aquela lasanha congelada percorreu até chegar ao seu freezer. Pense na cadeia de produção que levou ao produto final. A caixa, os ingredientes da lasanha, o equipamento industrial, o tomate do molho, o presunto do recheio, o queijo e a massa. Tente imaginar quantas pessoas estão por trás daquele simples prato congelado. E o microondas, então?

Se você conseguiu visualizar, então deve ter percebido que nossa sociedade é complexa, industrial, e está se tornando cada vez mais especializada, o que não significa que esteja incólume de eventos naturais ou externos. Ou uma epidemia zumbi. Vemos em The Walking Dead os sobreviventes precisando matar um leão por dia apenas para terem os itens mais básicos, como abrigo, comida e água limpa. E ainda ter que lutar contra os zumbis sedentos. Temos também alguns bons exemplos do efeito do apocalipse nas pessoas, em especial nas mulheres, como a cena de Maggy obrigada a tirar a roupa para o Governador. Temos mães, como Carol e Michonne, que perderam seus filhos e endureceram neste mundo rude para poderem sobreviver. Temos Andrea, passando por um inferno emocional, decidindo se valia a pena viver ou não. Temos Lori, que buscou no melhor amigo do marido uma proteção para ela e seu filho em mundo aos pedaços, sem a presença do Rick, presumivelmente morto (e foi chamada de vagabunda por isso). Um mundo em pedaços seria bastante hostil.

Michonne.

Várias franquias já abordaram o tema, em maior ou menor grau. O livro e filme A Estrada talvez tenha sido o mais cruel: mulheres e crianças praticamente estão em extinção, pois são usadas como alimento por grupos canibais que ainda possuem armas e combustível. Viramos a caça, junto das crianças. Que mundo desesperado é esse onde nem mesmo as crianças são respeitadas? Bem, não anda muito diferente do nosso atualmente...

Em Ensaio Sobre a Cegueira, vemos que mulheres precisaram ceder a favores sexuais para conseguirem comida. Muito provavelmente, num mundo em declínio, muitas mulheres teriam que passar pela mesma situação, bem como adolescentes e meninas apenas para sobreviverem. Sem a mínima ordem, como reclamar de estupros? Ainda hoje, mulheres que denunciam estupradores passam por um longo caminho e até desistem de denunciar, sabendo que serão acusadas de terem facilitado. Temos casos de meninas se prostituindo apenas para comprarem comida, às vezes, aliciadas pelos próprios pais.

Ensaio Sobre a Cegueira, o filme. 

Em geral, os filmes e séries apocalípticos retrataram mulheres como agentes secundários, protegidas pelos homens. A tomada de decisões, muitas vezes recaem neles também. Somos em geral retratadas como filhas, mães, esposas, amigas que precisam de proteção. São poucas as franquias que conseguiram extrapolar o estereótipo e colocaram mulheres em pé de igualdade com homens. The Walking Dead tem conseguido isso, porém eles já mataram Andrea e Lori (que mesmo com os defeitos, tinha forte presença na série). Meu medo é que matem Carol e Michonne, de longe as melhores personagens de toda a série que mostra mulheres em papéis dominantes, sem serem governadas por nada, pendendo entre suas escolhas.

Mas mesmo em franquias onde elas se mostram fortes e independentes, as mulheres não estão isentas de perigo. Em Extermínio, por exemplo, uma moça que sobreviveu à epidemia e uma órfã são pegas por militares e estavam lá para servirem de brinquedos sexuais. Mais uma vez, mulheres, independente da idade, são predadas, seja na ficção, seja na dura realidade. Nossos corpos são medidos por seus atributos pelo deleite masculino, para seu prazer e necessidades. As nossas, acabam secundárias, se é que existem. De novo, pouco diferente do mundo atual.

Andrea.

O que fica claro com estes exemplos é que, se no mundo atual, nós já sofremos com preconceitos, machismo e sexismo, um mundo abalado pelo apocalipse não será diferente, será ainda pior. Em pleno século XXI temos estupros coletivos, morte de mulheres por serem mulheres, prostituição. Tire os confortos da vida moderna e reduza as populações humanas, transforme o mundo em uma luta constante para sobrevivência e as diferenças ficarão ainda mais gritantes.

Até mais!

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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