O mimimi do privilegiado oprimido

quarta-feira, agosto 21, 2013

Democracia, direitos iguais, direitos das minorias, igualdade, feminismo, homossexualidade, trans*, são palavras que assustam e apavoram este ser injustiçado, caçado, sofredor, infeliz, perseguido, alvo de ameaças, o ser privilegiado oprimido, este grande defensor de si próprio e de seus privilégios. Quando sua superioridade está sob ameaça, ele logo se põe a defender o sistema que sempre o privilegiou. Tadinho do oprimidinho!



O privilegiado oprimido não é mulher, nem negro, mulato, pardo, indígena, mendigo, umbandista, alien, ou qualquer coisa considerada para ele como minorias. Para o privilegiado oprimido, os direitos das minorias o oprimem, pois que absurdo maior pode existir neste universo conhecido que uma empregada doméstica (ou babá), que ele trata como "filha" agora tenha que ser agraciada pelos direitos trabalhistas? Vê se isso tem cabimento?

O privilegiado oprimido tem um verdadeiro asco e uma coceira vertiginosa em sua delicada epiderme de palavras que ele não sabe bem o que significam, mas as quais ele absolutamente se coloca contra porque... porque... bem, porque sim. Por exemplo:

  • pobreza;
  • feminismo;
  • homossexualidade;
  • transsexualidade;
  • aborto;
  • cotas raciais;
  • Bolsa Família;
  • opinião (dos outros).


Este privilegiado oprimido exige respeito do jogador do seu time de coração, dizendo que ali não é lugar de ~viado~, que tem que respeitar o escudo, ou se não ele vai mandar pra PQP, "tomá no cu", xinga de bicha. E isso porque ele quer respeito, você percebeu, né? Fala sério se um selinho no melhor amigo não é uma opressão violentíssima ao privilegiado oprimido? Aliás, qualquer demonstração de amor que não seja entre um homem e uma mulher, é uma coisa horrorosa, um nojo, uma coisa horrível... Bem, se forem duas mulheres naquele videozinho do Xvideos, aí tudo bem, né? Pois o prazer, a tara e o erotismo do privilegiado oprimido tem que ficar garantido. Mas o dele, ok?

Aliás, este privilegiado oprimido sofre no mundo, onde mulheres querem ser tratadas como gente, terem direito sobre seus corpos, querem andar na rua sem ouvir grosserias de ninguém. É um absurdo! Ele se sente acuado por uma sociedade (que na cabeça dele) é matriarcal, onde nós andamos por aí sem sutiã (e daí?), com tesouras na mão castrando inimigos da Grande República Matriarcal Brasileira (NOT!). Tente atacar o patriarcado para você ver o privilegiado oprimido se descontrolar, pois afinal é um sistema que o privilegia (bem, na verdade o massacra também, mas são coisas da vida, ele está acostumado). Mulher para este ser tem que ser feminina (seja lá o que isso for), de cabelos longos e escovados, se maquiar como uma dama (não pode ter maquiagem de puta), ter transado pouco, mas tem que rebolar e chupar gostoso (com ele, só!) ou ser virgem mesmo. Não pode falar alto, rir alto, nem ter emprego de homem, ou falar de coisas de homem. Aí sim, é mulher perfeita para o privilegiado oprimido.


Opinião dos outros é ofensa! É uma ditadura da opinião quando você não concorda com ele e expõe por A+B o que você acha. Fale de coisas que ele não concorda. Nossa! O privilegiado oprimido vai entender que você o está oprimindo, tentando enfiar goela abaixo dele sua opinião transgressora e liberal, que você rege uma nação ditatorial e que ele, pobrezinho do oprimidinho, não pode se expressar (especialmente se ele defender sistemas opressores e medievais como patriarcado ou racismo). Ainda mais se forem sobre aquelas, hããnnn, bem, sobre aquelas palavrinhas lá em cima, aquelas sabe?, que dão coceira na epiderme. Porque direitos são só para eles, para os outros não. Poxa, como que ninguém percebe que o privilegiado é oprimido quando outros grupos recebem os direitos que ele sempre teve? Que sacanagem, gente!

O privilegiado oprimido xinga o prefeito que está dando preferência para o transporte coletivo nas ruas e avenidas de uma grande metrópole, porque agora ele passa mais tempo no trânsito (onde ele está sozinho em um carro, com ar condicionado, enquanto as pessoas estão em pé num ônibus quente, cheio, morrendo de sono porque moram longe do emprego e precisam sair muito cedo de casa). Isso é uma opressão, uma violência contra o privilegiado que por algum diabo de motivo não sabe se colocar na pele do outro para entender o porque da restrição aos carros para privilegiar os ônibus. Privilegiado só ele, né gente? Privilégio para os outros? Pffff...


O privilegiado oprimido não tem nada contra as minorias, ele ATÉ TEM amigos das minorias, MAAAAAAAAAAAAAAAS (aí o privilegiado oprimido insere aqui o motivo para não concordar com a opinião dos outros, com o gênero, com a cor da pele, com a renda, com a orientação, com a religião, com o time, com qualquer coisa com a qual ele não concorda).

E como bem disse a Aline Valek, deixo o desfecho, um parágrafo especial que explica o porque do mimimi do privilegiado oprimido:

Privilégio é um assunto espinhoso — especialmente para quem os tem. Ter que ouvir as dificuldades dos que são diariamente oprimidos é incômodo não porque escancara os privilégios que os privilegiados sequer percebem que têm, mas porque é uma puta injustiça não reconhecerem que a vida do privilegiado não é esse mar de rosas, não! A vida do privilegiado é bastante difícil sim, de forma que precisamos falar sobre suas penúrias e sofrimentos, sobre seus dramas, sobre suas dificuldades nesse mundo tão injusto.

Até mais!

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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