Sabe quando você precisa de um livro que aqueça o coração? Então, é esse! Se você curte os livros da Becky Chambers, uma das minhas autoras favoritas, então é provável que vá curtir Ode to the Half-Broken, de Suzanne Palmer, um enredo com robôs, mas que toca profundamente no desejo por conexão com os outros. Torcendo para que alguma editora brasileira se interesse por ele e o traga pra cá!
O livro
Be é um robô das antigas, que viu o mundo como conhecemos ruir. Eles evitam pensar em seu papel no conflito e nas coisas que fez e por isso escolheram uma vida de isolamento nas ruínas de um velho moinho no Jardim Botânico de Nova York, onde passaram os últimos 20 anos estudando insetos. Sem qualquer interesse pelo mundo fora do seu jardim, Be não sabe o que aconteceu aos humanos ou aos robôs nesse meio tempo. Mas alguém não esqueceu deles, pois um dia, Be acorda em uma banheira, sem uma das pernas, com um cachorro ciborgue falando com ele.
Por já ter caminhado, certa vez, por quase todos os continentes da Terra, reflito sobre o quão pouco sei, hoje em dia, a respeito do mundo logo ali, do lado de fora da minha porta.
(tradução livre)
Por ter sido vandalizado, Be busca ajuda, enquanto é acompanhado por Atticus, esse cachorro ciborgue, que tanto humanos quanto mechas olham atravessado. Atticus é muito espirituoso, falante e quebra a rotina silenciosa de Be, tal qual o Burro fez com o Shrek. Isso os coloca numa jornada em busca de respostas, que os levam a vários pontos do país, onde fazem amizade com mechas dispostos a ajudar e até alguns humanos que abominam mechas. As cidades caíram, muitas delas viraram locais proibidos por conta da radiação, mas comunidades começaram a surgir aqui e ali. Algumas mistas, outras que não querem a presença de mechas e vice-versa. É em uma dessas comunidades mistas que a dupla improvável conhece Murphy, uma mecânica excepcional, que ajuda a consertar mechas que passam por sua oficina.
Interessante apontar que quando os robôs estão falando de si mesmos, eles usam o pronome Eu, mas quando falam de outro mecha, usam o pronome Eles. Isso pode confundir um pouco no começo, porque estamos acostumadas a ler com o pronome no singular. Mas o estranhamento passa rápido e Be explica ao longo da leitura o motivo para isso. Esse trio acaba acompanhando por um drone, além de todos os mechas que eles encontram pelo caminho, como 1-Betty, um trem que os avisa de que algo estava acontecendo. Elas não sabem bem o que, mas tendo participado do conflito, ela percebe uma agitação no ar que a preocupa.
Esta é uma história pós-apocalíptica belissimamente escrita e comovente, narrada sob a perspectiva de um robô. É uma narrativa um pouco mais lenta, onde muito se discute sobre amizade, sobre pertencimento, sobre erros do passado e o quanto precisamos de conexão com os outros. A mensagem é direta: não é porque o outro é diferente de você que não há possibilidade de entendimento e de convivência. E o fato de alguém estar tentando plantar a discórdia para reacender os conflitos mais uma vez é extremamente preocupante, pois a humanidade talvez não consiga sobreviver dessa vez.
Palmer alterna entre duas linhas temporais na narrativa: a principal, que acompanha a jornada de Be por esse mundo pós-guerra, tentando recuperar sua perna, abrindo-se para outros robôs e pessoas, rompendo o isolamento voluntário que escolheu após o conflito e, sinceramente, reconectando-se com o restante do mundo; e uma segunda linha, situada no passado, que mostra, por meio de flashbacks, como o mundo chegou a essa situação. Ao longo da jornada, Be e seus amigos deparam-se com as consequências de um mundo que deveria ter se recuperado da guerra ocorrida quarenta anos antes, mas que, ao mesmo tempo, mantém a mesma desconfiança, o mesmo medo, a mesma raiva contra os mechas.
Gostei demais da relação entre Be e o cachorro ciborgue Atticus, e como ela é utilizada para explorar não apenas o conceito de amizade, mas também a autonomia de seres sencientes. Atticus foi feito daquela forma sem ter qualquer liberdade para discutir se queria ou não, o que é uma ofensa imensa para qualquer ser vivo e consciente. Tecnologia e sobrevivência se entrelaçaram de maneiras que pareciam, ao mesmo tempo, criativas e verossímeis. As questões filosóficas sobre autonomia, propósito e o que significa ser uma pessoa foram incorporadas à narrativa de forma natural, sem parecerem forçadas ou excessivamente pesadas.
Imagino que esse seja o preço que pagamos por destruir este maldito planeta. E, quando digo "nós", me refiro às gerações que sabiam o que era certo e, ainda assim, nada fizeram para mudar o rumo das coisas, cientes de que a conta final não seria delas para pagar.
(tradução livre)
O livro está bem revisado, com poucos problemas de diagramação ou revisão. Fiquei assustada como valor cobrado na Amazon pelo livro, porque não lembro de ser tão caro assim. Espero que alguma editora se anime de trazê-lo para as leitoras brasileiras também poderem conhecer esses personagens incríveis.
Obra e realidade
Algumas resenhas lá fora comparam o livro de Palmer com Salmo para um robô peregrino, de Becky Chambers. Os dois lidam com os mesmos assuntos na maior parte do tempo, mas neste aqui o clima sombrio está mais presente, pois este mundo é claramente pós-guerra e ainda está colhendo os amargos frutos deixados pelos conflitos que se seguiram. Becky Chambers tenta lidar com mundos que não sejam distópicos, apenas diferentes da nossa realidade, enquanto o enredo de Palmer se passa majoritariamente em uma Nova York que quase foi destruída numa guerra.Também li algumas resenhas dizendo que este é um livro cozy reading. Ele de fato tem uma atmosfera acolhedora e esperançosa, mais puxada para o hopepunk, mas se passa em um cenário pós-apocalíptico sombrio. Ele mistura elementos aconchegantes com traumas reais e ação, não sendo um cozy reading tradicional. Então quem não curte muito os enredos distópicos talvez não goste muito desse aqui, ainda que a autora tenha dosado muito bem os cenários.

Suzanne Palmer é uma escritora norte-americana de ficção científica, ganhadora do Hugo Awards.
PONTOS POSITIVOS
Be e Atticus
Bem escrito
Hope punk
PONTOS NEGATIVOS
Preço!!
Final em aberto
Be e Atticus
Bem escrito
Hope punk
PONTOS NEGATIVOS
Preço!!
Final em aberto
Avaliação do MS?
Foi uma leitura muito gostosa! Lamentei quando cheguei ao final e precisei deixar a companhia de Be, Atticus, Murphy e seus amigos. O livro nos mostra que, mesmo que o outro seja diferente de nós, não quer dizer que não podemos encontrar uma forma de conviver. Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!
Até mais! 🤖

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