Resenha: Uma desolação chamada paz, de Arkady Martine

E chegamos ao fim de uma das space operas mais intensas dos últimos anos! Começamos nossa jornada por Teixacalaan em Uma lembrança chamada império, onde conhecemos a embaixadora da estação Lsel, Mahit Dzmare, que se aventura na capital ao ser designada para seu novo posto. Mas as coisas não aconteceram como ela esperava e uma guerra está se aproximando de todos!

Pode ter spoilers do primeiro livro nesta resenha!

O livro
Retornamos ao universo de Martine apenas alguns meses depois dos eventos do primeiro livro. Mahit está de volta à estação Lsel, enquanto Alga Três encontra-se no Palácio-Terra, a sede do império, e uma nova imperador ocupa o trono. Mahit tenta processar tudo o que aconteceu no volume anterior: sua identidade, seu senso de dever, suas emoções. Tudo isso está uma bagunça depois dos problemas que teve com o dispositivo imago, que trazia as memórias e a experiência de seu antecessor. Ela é uma estranha amálgama de sensações e lembranças de três pessoas diferentes, e tudo isso não está ajudando a embaixadora como esperava.

Resenha: Uma desolação chamada paz, de Arkady Martine

Uma alienígena que era boa em falar com humanos lhe seria útil. Selvagens eram o mais próximo de alienígenas. Mahit era a melhor selvagem que Alga Três já conhecera; além disso, sentia falta dela.

A chegada de Alga Três à estação Lsel não a ajuda em nada quando estão discutindo uma remoção do seu imago. Ela então decide embarcar na missão de Alga Três já que uma guerra com uma espécie inteligente e avançada está eclodindo e ninguém parece entender o que eles querem dizer. As cenas de Alga Três tentando entender a cultura dos habitantes da estação estão entre as mais divertidas do livro! Enquanto lemos tudo isso, lá no coração do império, as maquinações políticas e os jogos de guerra estão acontecendo em volta do Trono de Lanças Solares, com o herdeiro do trono, ainda muito jovem mas muito inteligente, bem no meio de tudo isso.

Enquanto o primeiro volume era narrado sob a perspectiva única da embaixadora da estação Lsel junto ao vasto e voraz Império Teixcalaan, Uma desolação chamada paz amplia a narrativa para quatro personagens principais, com outras perspectivas secundárias dispersas pelos interlúdios. Juntam-se à embaixadora Dzmare: sua antiga interlocutora cultural teixcalaanli, Alga Três; o herdeiro do trono, Antídoto Oito; e a general teixcalaanli, Hibisco Nove, uma das melhores personagens do livro. Ela liderou seis legiões das forças de Teixcalaan até as linhas de frente de uma guerra contra uma potência alienígena misteriosa, agressiva e, ao que parece, incompreensível. Sua missão é obter informações suficientes para derrotar o inimigo antes que ele sugue ainda mais os recursos do Império.

Paralelamente a isso, a estação Lsel busca uma maneira que a mantenha fora das garras de ambos os lados; enquanto isso, no coração do Império, Antídoto Oito tenta compreender as táticas empregadas e as facções dentro de seu próprio governo, cada uma com suas próprias ideias sobre como conduzir a guerra. As cenas desse guri, com apenas 11 anos, mas esperto o bastante para navegar pela intrincada política de seu império, foram ótimas. Qualquer criança em seu lugar choraria em posição fetal na cama, mas mesmo quando ele quer chorar, Antídoto Oito se mantém firme. Foi muito interessante vê-lo interagir com a imperador e com os altos oficiais militares.

O primeiro livrvo causou bastante estranhamento pela quantidade de termos novos e por toda a complicada hierarquia social do império. Se isso te confundiu, pode ficar tranquila, porque nada mais disso aparece neste volume. O foco da autora foi na política, na diplomacia e mesmo quando era necessário aprender um idioma, ele não causou aquele impacto que o primeiro volume causou. Senti que isso deixou a leitura um pouco mais pobre depois de tanto bater na tecla dos glifos, pronúncias, poesias e literatura teixcalaanli.

Este livro, muito mais do que o primeiro, dá a sensação de fazer parte de uma série, apresentando (para mim) mais perguntas sem resposta do que tínhamos ao final do primeiro volume. Ele claramente traz ganchos que podem ser explorados em obras futuras, mas, felizmente, não termina com aquele tipo de suspense extremo que nos deixa desesperadas por uma continuação. As coisas se resolvem... mais ou menos, deixando aí um leque de possibilidades que a autora pode explorar no futuro, mesmo que não queria usar as protagonistas novamente. Mas admito que algumas resoluções que a autora usou não me pareceram suficientes e senti que algumas linhas de explicação teriam feito bastante diferença.

Lealdade não era transitiva. Não corria tranquilamente a cadeia de comando. Podia ser rompida, redirecionada Ainda mais se outra pessoa poderosa estivesse se intrometendo no fluxo de informações (...).

Falando em protagonistas, acabei desenvolvendo uma certa antipatia por Alga Três. Não me entenda mal, ela é uma ótima personagem, mas me pareceu bastante intagrável em vários momentos, e isso desde o primeiro livro. Só que aqui ela me parece insensível para os problemas de Mahit. Toda vez que chamava a embaixadora de "selvagem", eu me contorcia um pouco. Tudo bem, Alga Três não consegue evitar sem quem é. É uma funcionária de um império conhecido por sua hegemonia, nem um pouco sutil sobre seus conquistados, que se vangloria o tempo todo de ser o centro do universo. Difícil não ver a crítica aberta ao imperialismo norte-americano e Alga Três é uma Karen espacial e parece ver em Mahit uma sobremesa exótica que ela pode aproveitar para fugir da rotina burocrática do trabalho.

A tradução está ótima e ficou nas mãos de Beatriz D'Oliveira. Não deve ter sido um trabalho fácil, pois os nomes e termos em teixacalaan causam um estranhamento na hora. A revisão está ótima, encontrei poucos problemas e eles não atrapalham a leitura.

Obra e realidade
O título do livro chama a atenção logo de cara. É uma tradução/adaptação de uma célebre máxima do historiador romano Tácito em sua obra Agrícola (Capítulo 30), atribuída ao líder caledônio Cálgaco ao criticar a expansão militar de Roma: "Ubi solitudinem faciunt, pacem appellant" ou "Trazem desolação e chamam isso de paz". Tácito usa um inimigo de Roma para tecer uma crítica contundente à hipocrisia do poder imperial romano. Onde Roma chegava, ela não levava civilização, avanços, leis, mas sim destruição, escravização e pilhagem, chamando de "paz" (Pax Romana) o silêncio imposto pela aniquilação de quem ousava resistir. Veja o que Israel está fazendo em Gaza.

A palavra original em latim (solitudo) carrega o sentido de desolação, terra arrasada e solitude (o vazio deixado onde antes havia vida, cultura e gente). Isso não é muito diferente de tudo o que grandes impérios já fez alguma vez e há muitas semelhanças ao poderio romano na obra de Martine, já que Teixcalaan também se considera o centro do mundo (e do universo). Discursos de "pacificação" e de levar a civilização aos confins do mundo apenas encobrem massacres e a imposição de ordens pela força.

Arkady Martine

AnnaLinden Weller, pseudônimo de Arkady Martine, é uma escritora norte-americana de ficção especulativa. É historiadora especializada em Império Bizantino, analista de política climática e energética e planejadora urbana.

PONTOS POSITIVOS
Mahit e Yskandr (e Yskandr)
Bem escrito
Construção de mundo e de personagens
PONTOS NEGATIVOS
Pode ser lento
Alguns temas parcialmente explorados

Título: Uma desolação chamada paz
Título original: A Desolation Called Peace
Duologia Teixcalaan:
1. Uma lembrança chamada império
2. Uma desolação chamada paz
Autora: Arkady Martine
Tradutora: Beatriz D'Oliveira
Editora: Aleph
Páginas: 440
Ano de lançamento: 2026
Onde comprar: na Amazon!

Avaliação do MS?
Foi uma leitura densa e, por vezes, cansativa. Mas ao mesmo tempo, não conseguia parar de ler. Senti falta de algumas resoluções para o tamanho dos arcos criados pela autora, mas acredito que isso foi proposital, deixando aberto para interpretação da parte de quem lê. Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!


Até mais!

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