Resenha: Ânsia eterna, de Verônica Berta

Júlia Lopes de Almeida, uma das idealizadoras da Academia Brasileira de Letras, foi uma escritora, cronista, teatróloga e abolicionista brasileira. Mesmo tendo ajudado a fundar a Academia, por ser mulher, nunca pôde ocupar uma cadeira entre os imortais. Neste quadrinho de Verônica Berta, alguns de seus contos foram adaptados com maestria e cor, com uma crítica pertinente no final.



Parceria Momentum Saga e
Editora SESI-SP


O quadrinho
Ânsia Eterna traz a adaptação de três contos de Júlia: Ânsia Eterna, Os Porcos e A Caolha. É uma edição curtinha, o que é uma pena, pois a arte e as cores são tão lindas que você fica querendo mais quando o quadrinho acaba. Se você quiser ler os contos na íntegra, pode encontrá-los em domínio público facilmente.

Resenha: Ânsia eterna, de Verônica Berta

Preocupada em manter as características das obras originais, Verônica não alterou a arte do quadrinho nas representações dos personagens. Tal como Júlia descreveu nos contos, a quadrinista os manteve na obra, incluindo uma justificativa para isso no final, quando comenta sobre a produção de Ânsia Eterna. Com um traço original e cores lindíssimas, o quadrinho consegue passar para quem está lendo o bizarro, o incomum, as sensações e medos dos personagens.

Mantendo a escrita e a narrativa dos personagens tal como estão nos contos, a leitura não é prejudicada pelo tom rebuscado de Júlia. As imagens completam as frases e as expressões sem lotar a leitora de informações. Especialmente em A Caolha, a expressão facial dos personagens é muito rica, o que contribui para ser o melhor conto do quadrinho.

É preciso apontar como que Júlia abordava o universo feminino em seus contos. Mesmo trabalhando com apenas três obras, nota-se que Júlia abordava questões que são tipicamente femininas ou envolvidas com o universo da mulher, ainda que tenha um tom macabro e de crítica em alguns momentos. Mas também é necessário e obrigatório apontar que, mesmo sendo abolicionista e feminista, Júlia pensava no ponto de vista de uma mulher branca e de classe média.

Detalhe do conto Ânsia Eterna

O fato de a autora manter a escrita racista de Júlia mostra o quanto uma mulher, por mais bem intencionada que fosse e que quisesse a emancipação da mulher não conseguia extrapolar seu pensamento para todas as mulheres. É como a própria Verônica diz no final, ela não quis "limpar a barra" da autora nem pasteurizar sua obra para a audiência atual.

Ainda que seja curtinho, apenas 56 páginas, as cores e o traço de Verônica são lindos. Os personagens são expressivos, você sofre com eles, acompanha suas angústias, fica com raiva. As expressões faciais são outro show à parte.

Publicado em capa comum, você lê bem rápido, mas vai sentir vontade de retornar às páginas e reler. As cores estão vibrantes, o papel é encorpado e o quadrinho tem um cheirinho de tinta muito gostoso. Senti falta de uma pequena descrição de cada conto no começo ou no final, com sua data de publicação. Isso ajudaria a nos situar no tempo e no momento da carreira de Júlia e não deixaria os contos tão soltos na edição.


Ficção e realidade
Ânsia Eterna é o primeiro trabalho publicado da quadrinista Verônica Berta. Ela descobriu a autora ao visitar o site do domínio público, onde notou como eram poucas as mulheres ali relacionadas e listadas. Sem ter experiência em roteiro, ela queria produzir um quadrinho em parceria com alguma escritora e o resultado não poderia ter saído melhor.

Verônica Berta

Verônica Berta é ilustradora e quadrinista nascida em São Paulo, capital. É graduada em design gráfico pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo e fez curso superior de ilustração na Ecole Emile Cohl (Lyon, França).


Pontos positivos
Leitura agradável
Ilustrações
Bem escrito
Pontos negativos

Introdutório
Acaba logo

Título: Ânsia eterna
Autora: Verônica Berta
Editora: SESI-SP
Páginas: 56
Ano de lançamento: 2018
Onde comprar: na Amazon ou no site da editora SESI-SP


Avaliação do MS?
Júlia Lopes de Almeira ainda não é tão conhecida no Brasil, o que é uma lástima. Qualquer pessoa pode facilmente se lembrar de Machado de Assis, Euclides da Cunha e José de Alencar, mas se perguntar sobre uma escritora clássica, é bem possível que ela desconheça. Uma adaptação para os quadrinhos de alguns de seus contos é uma excelente maneira de se trabalhar com a autora, especialmente nas escolas. Quatro aliens e uma forte indicação para você ler também!


Até mais!


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