Resenha: Castanha do Pará, de Gidalti Jr.

Que quadrinho incrível! Primeira HQ a ganhar o Prêmio Jabuti, ela foi inicialmente publicada por financiamento coletivo, tendo depois entrado para a casa da editora do SESI-SP. Em 80 páginas aquareladas, acompanhamos a vida de Castanha, um menino de rua, com cabeça de urubu, que perambula pelo Mercado do Ver o Peso, em Belém, tentando sobreviver, sonhando e se esquivando da marcação da polícia.



Parceria Momentum Saga e
Editora SESI-SP



O livro
O fato de a história contada por Gidalti Jr. se passar no famoso Mercado do Ver o Peso, em Belém, já enriquece demais a obra. Seus tons, suas cores, seu personagens e a dinâmica do mercado também servem de personagens de fundo para a história do Castanha, o garoto com cabeça de urubu que se esquiva da polícia por entre as bancas de temperos e frutas, que luta para sobreviver.

Resenha: Castanha do Pará, de Gidalti Jr.

Se valendo de aspectos fantásticos e da inocente fantasia infanto-juvenil, Gidalti nos entrega um quadrinho triste, mas recheado de tons de esperança que são vívidos nos sonhos do garoto Castanha. O garoto vem de um lar violento, tendo visto violência da parte do padrasto com sua mãe e sua avó. Essa não é a realidade de muitas crianças na rua? Sem lares ou que deixaram lares com histórias semelhantes?

Geraldo era quem botava moral no Castanha. Dava-lhe umas mijadas violentas! Não era o pai, mas era como se fosse.

Página 13

O autor usou brilhantemente a oralidade do Norte do Brasil para as frases ditas pelos personagens, o que confere um ar de originalidade ao quadrinho. Muita gente do sul-sudeste vai estranhar o jeito de falar, mas é uma experiência muito rica e necessária para deixarmos nosso próprio regionalismo. A arquitetura da cidade também tem forte influência na narrativa, com suas fachadas, o trânsito, o ambiente urbano. Tudo contribui para quadrinhos dinâmicos, com onomatopeias bem colocadas. A fonte utilizada em muitos quadros e também no título na capa é aquela famosa usada em placas pelos rincões do país, o que trouxe ainda mais autenticidade para o quadrinho.

A HQ foi produzida ao longo de 3 anos e adapta o conto Adolescente Solar do escritor e poeta Luizan Pinheiro, sobre a rotina de um menino de rua no mercado Ver-o-Peso de Belém. Com muitas similaridades com o real, com os guetos das grandes cidades, onde sonhos são esquecidos, Castanha busca a liberdade, busca a vida que deveria ter tido. Acompanhamos sua jornada com uma dor no coração, pois sua reputação cai cada vez mais com as fofocas dos vizinhos, com a ameaça da perseguição policial e da violência urbana diária.

Enquanto os adultos são mostrados como humanos, as crianças aparecem com cabeças de vários animais. O autor prefere deixar na nossa mão a interpretação que teremos para cada criança, incluindo o Castanha, tendo faces de animais variados. E o final em aberto e introspectivo nos deixa com aquela sensação de que Castanha encontrou seu rumo, encontrou um céu para voar, a despeito de toda a fofoca que fizeram a seu respeito, de toda a vida dura que levou pelas ruas.

A edição da editora do SESI está perfeita, com papel encorpado, lombada quadrada, tipografia excelente e cores idem. No miolo há ainda rascunhos de Gidalti para várias cenas. Ainda que o autor não goste de futebol, há várias referências, afinal Castanha é um garoto que, como tantos, curtem e jogam bola e a história de passa em 1994, ano em que ganhamos o tetra.

Imagem completa da capa de Castanha do Pará de Gidalti Jr.


Ficção e realidade
A ilustração da capa sofreu censura em uma exposição em um shopping de Belém. A imagem inteira é essa que você vê acima. Perceba que é um policial militar com o braço erguido como se fosse bater no Castanha no último minuto, enquanto o garoto-urubu corre por cima da banca do mercado. Pois bem. Policiais militares que, provavelmente, vestiram a carapuça e gostaram de como caiu bem, se incomodaram com a imagem e reclamaram junto à direção do shopping que, bem... retirou o painel de Gidalti da exposição.

Arregaram em prol de argumentos acefálicos de pessoas com níveis intelectuais baixíssimos, cederam à opressão.

Gidalti Jr.

Se os policiais militares que se incomodaram com a imagem da capa alegam que não cometem excessos contra população vulnerável e de rua, por que então pediram que o painel fosse removido? Por que isso sujaria a imagem da corporação? Se doeram à toa e nem ao menos leram a obra.

Gidalti Jr.

Gidalti Oliveira Moura Júnior, mais conhecido como Gidalti Jr., é publicitário, professor de artes, pintor e desenhista brasileiro. Castanha do Pará é sua primeira HQ.

Pontos positivos
Mercado Ver o Peso
Lindamente ilustrado
Castanha
Pontos negativos

Preço
Acaba logo!


Título: Castanha do Pará
Autor: Gidalti Jr.
Editora: SESI-SP
Páginas: 80
Ano de lançamento: 2018
Onde comprar: na Amazon


Avaliação do MS?
Um livro, um quadrinho e uma obra de arte. É uma jornada difícil, porém apaixonante por um mundo complexo através dos olhos de Karen e Emil. Ansiosa pelo segundo volume! Cinco aliens para o quadrinho e uma forte recomendação para você ler também!

MARAVILHOSO!

Até mais!🍈

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