Resenha: Filhos de Sangue e Osso, de Tomi Adeyemi

Um dos grandes lançamentos de 2018, Filhos de Sangue e Osso é o primeiro livro da poderosa trilogia Legado de Orïsha. Em um continente africano fantástico está o reino de Orïsha, um reino que temeu tanto o poder da magia que resolveu extirpá-la da terra de maneira brutal e violenta. Mas a magia é como a água: você não consegue exterminá-la; uma hora tudo explode.



Parceria Momentum Saga e
editora Rocco


O livro
Temos vários pontos de vista narrando a história, mas começamos com Zélie, uma maji que treina luta secretamente na tenda de Mama Agba. Este é o mundo de Orïsha, onde a chamada Ofensiva destruiu a magia 11 anos antes. Neste rastro de destruição, a mãe de Zélie, uma maji poderosa, uma ceifadora, foi morta de maneira brutal na frente da família pelos guardas do reino. Essa matança aconteceu em vários lares, a magia foi embora e os deuses também. Zélie e seu irmão Tzain tiveram a vida marcada pela brutalidade das autoridades, um paralelo direto com a vida de tantos jovens negros que perderam familiares ou foram agredidos e mortos pela polícia em diversos lugares do mundo, não só nos Estados Unidos.

Resenha: Filhos de Sangue e Osso, de Tomi Adeyemi

A primeira coisa a se destacar no livro é a incrível construção de mundo de Tomi. Baseado num continente africano fantástico, onde reconhecemos seus contornos, Orïsha é um reino assombrado pelo poder dos maji. O rei Saran alega que os maji tentaram tomar o trono e sua forma de responder à investida foi com o massacre. Saran tem dois filhos, o primogênito e prometido ao trono, Inan, e a mais nova, constantemente criticada pela rainha mãe, a solitária Amari, de longe a personagem que mais gostei do livro. Cada um deles, Zélie, Tzain, Inan e Amari, tem uma jornada de crescimento e descoberta, de amadurecimento e de descobrir sua verdadeira força, mas a forma como foram construídos nos faz ter todo tipo de sentimentos por eles. Essa humanidade foi incrível de acompanhar.

A vida de Zélie se cruza com Amari quando a princesa deixa o palácio após ver o que não deveria: uma pessoa querida sendo morta por apenas existir. Não é assim com as minorias? Não é assim com a população negra, onde não se pode entrar em uma loja tranquilamente, pois um segurança começa a ficar de olho? A opressão e o preconceito do mundo real foi transmutado para um preconceito com os maji, que são alvo constante dos guardas e da opressão real. É quando esses personagens se lançam em uma jornada que pode trazer a magia de volta.

O deserto não fornece carne de raposana para comer, nem leite de coco para beber. Tudo que ele nos dá é areia.

Página 195

Essa construção de mundo também menciona animais, países estrangeiros, todos eles brilhantemente modificados para parecem mais encaixados na mitologia da autora, em um excelente trabalho de tradução. Britauneses, porltoganeses, império espânico, leonários, pantenários, são nomes familiares e ainda assim diferentes. Tudo é bem descrito, das roupas às casas, às paisagens e você se sente inserida na história e na vida das personagens.

Inan é um personagem fácil de odiar, mas é preciso compreender que ele viveu uma vida com uma premissa e de repente ele conhece outra, jogado num mundo que ele não entende. Ele é confuso e brutal em alguns momentos, dividido entre várias lealdades. O que me irritou neste caso é o instalove, que é o que acontece quando dois personagens mal se conhecem por alguns minutos e já tão querendo se pegar no dia seguinte. Sei que não sou o público alvo de um livro de jovens adultos, mas minha eu adolescente já se irritava com romances a jato. Achei bem desnecessário colocar isso no livro.

Os personagens passam por diversos momentos de dúvida e superação e acho que isso me fez simpatizar muito mais com Amari. Ela é quem tem uma curva de crescimento, de acreditar em si mesma e na sua força, algo que Zélie, em maior ou menor grau, já possuía por sua criação ser uma luta constante pela sobrevivência. Amari é vista como uma princesa fútil, alguém que viveu no conforto do palácio, mas Amari tem também suas cicatrizes, seus traumas, seus medos e quando ela começa a superar isso, se torna uma personagem praticamente completa.

O livro dá uma arrastada quando passa do meio e se encaminha para o final. Dava para tirar tranquilamente umas 60 a 100 páginas de blábláblá que tornaram a leitura lenta. O enredo dá uma guinada quando se aproxima de sua finalização, mas fiquei um tanto decepcionada com o final, porque ele fica em aberto. Sabe quando parece que faltou frase para concluir? Foi essa a impressão que eu tive e acho que algumas palavras a mais no final seria o suficiente.

A edição da Rocco está linda, linda de viver mesmo. Capa macia com detalhes dourados e brilhantes em vermelho e arte de Rich Deas, papel pólen amarelo e há um mapa maravilhoso no começo, com uma lista dos clãs majis. O mapa é uma versão do continente africano, então dá para reconhecer seus contornos e estimar a localização dos reinos. A tradução de Petê Rissatti está muito boa e para pronunciarmos corretamente os nomes em iorubá há um apêndice no final para que a gente saiba corretamente a entonação e a forma de falar. A autora também colocou uma nota muito importante no final, sobre as mortes e execuções de jovens negros pelas mãos das autoridades, o que condiz com a vida da família de Zélie.

— Seu povo, seus guardas... eles não passam de assassinos , estupradores e ladrões. A única diferença entre eles e os criminosos são os uniformes que usam.

Página 318


Ficção e realidade
Uma discussão muito boa que o livro levanta é sobre a responsabilidade. Aqueles que possuem a magia poderiam ter mesmo feito o que o rei Saran alega que fizeram? De que perpetraram um massacre e por isso ele precisou interferir? Zélie também se pergunta se é correto que a magia volte, se é possível impedir o abuso de poder, impedir que façam como Saran fez na tentativa de parar os maji. É uma discussão semelhante àquela que vemos em X-Men, onde Xavier defende a educação dos mutantes, enquanto Magneto quer uma guerra contra as pessoas não-mutantes para assegurar que um holocausto não aconteça.

Tomi Adeyemi

Tomi Adeyemi é uma escritora norte-americana de origem nigeriana, professora de escrita criativa, formada pela Universidade Harvard em Literatura Inglesa. Foi bolsista do programa de estudos do Oeste Africano, tendo vindo para Salvador estudar para estudar cultura e mitologia. Um filme baseado no livro Filhos de Sangue e Osso está atualmente em produção pela FOX!

Tomi também disse que a ideia para o romance veio depois de seu período no Brasil, onde ela viu imagens de deuses e deusas africanas.


Pontos positivos
Amari
Cultura iorubá
Construção de mundo
Pontos negativos
Instalove
Final em aberto
Se alonga demais em algumas partes


Título: Filhos de Sangue e Osso
Título original em inglês: Children of Blood and Bone
Série Legado de Orïsha
1. Filhos de Sangue e Osso
2. Children of Virtue and Vengeance (3 dez 2019)
3. sem título ainda
Autora: Tomi Adeyemi
Tradutor: Petê Rissatti
Editora: Rocco (selo Fantástica)
Páginas: 560
Ano de lançamento: 2018
Onde comprar: na Amazon


Avaliação do MS?
Foi uma jornada incrível de se acompanhar. Não só pelo enredo e seus personagens, mas pela mitologia iorubá inserida na história, com nomes que muitos de nós já conhecemos. O livro tem um lindo projeto gráfico, uma excelente tradução e personagens esperando você para acompanhar a saga dos maji e do reino de Orïsha. Quatro aliens para o livro e uma recomendação para você ler também!


Até mais! ♡

Já que você chegou aqui...

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2 COMENTÁRIOS

  1. Eu tinha visto no seu Skoob e já tinha ficado ansioso, agora estou morrendo de vontade de ler. Preciso terminar logo o Scalzi que estou lendo! rsrsrs

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  2. A humanidade dos personagens foi o que mais me encantou. São complexos, cheios de dúvidas, nem totalmente bons, nem totalmente maus, cheios de angustias.
    Quero muito ler os próximos livros. Espero que lancem logo!

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