Resenha: Vozes de Tchernóbil, de Svetlana Alexiévitch

Assim como outras obras da Svetlana, ler este livro foi muito difícil e demorado. É sempre uma imersão completa nas histórias de vida destas testemunhas do tempo. Somos todos testemunhas dos tempos em que vivemos, mas os livros de história costumam registrar apenas as grandes datas, as grandes batalhas, os eventos e pessoas extraordinárias, mas o dia a dia, a visão das pessoas simples que viveram estes momentos se perdem. Este é o quarto livro da Svetlana resenhado aqui. Os outros são A guerra não tem rosto de mulher, O fim do homem soviético e As últimas testemunhas.



O livro

A história sempre foi a história das guerras e dos caudilhos, e a guerra se tornou, como costumamos dizer, a medida do horror. Por isso as pessoas confundem os conceitos de guerra e catástrofe. Em Tchernóbil, pode-se dizer que estão presentes todos os sinais da guerra: muitos soldados, evacuação, locais abandonados. A destruição do curso da vida.

Página 43

Eu tinha 6 anos quando aconteceu o desastre em Chernobil. Não entendia na época o que aquilo queria dizer. A explicação que me deram foi tão apavorante que tive pesadelos na época e nos anos seguintes de que eu estava radioativa, que ninguém podia chegar perto de mim, que eu ia morrer de uma forma horrível e lenta. O processo clínico de uma doença aguda do tipo radioativo dura 14 dias; no último o paciente morre. Na época eu não tinha noção dessas informações. Foi só bem mais tarde, anos depois, que eu comecei a ter ideia do que realmente significou aquele desastre.

Resenha: Vozes de Tchernóbil, de Svetlana Alexiévitch

Temos detalhes suficientes na mídia sobre o incêndio do reator, sobre o sarcófago e a área de exclusão e várias obras de terror e suspense foram escritas e filmadas tendo a região como cenário. O que nos faltava eram os relatos das pessoas. Os bombeiros enviados sem nenhuma proteção para uma central nuclear emitindo doses letais de radiação, parentes tendo que cuidar dos familiares que definhavam depois de doses quatro, cinco vezes maior do que a dose letal. Famílias desfeitas e crianças mortas. A terra calcinada e mutante. É isso o que Svetlana queria ouvir e foi atrás dos sobreviventes.

Como sempre acontece nos livros da Svetlana, muita gente chora e se desespera ao ter que relembrar a época de sofrimento. E por transcrever as falas das pessoas da maneira que elas contam, temos o drama, os medos e a saudade de cada testemunha, de cara pessoa ali presente no momento do desastre. Apesar de muita gente saber que Chernobil fica na Ucrânia, a maioria ignora o fato de que a cidade fica bem próxima à fronteira com a Bielorrússia, e que para este país tão pequeno, o desastre foi, como a própria Svetlana coloca no livro, "uma desgraça nacional".

Por ser um país agrário, já destruído pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial, o desastre na usina foi devastador. Segundo dados coletados por Svetlana, em 1996, se na guerra a mortalidade foi de um para cada quatro bielorrussos, Chernobil teve um bielorrusso a cada cinco vivendo em território contaminado, um total de 2,1 milhões de pessoas, 700 mil delas crianças. Cerca de 70% dos radionuclídeos de césio-137 emitidos pela usina caíram sobre a Bielorrússia. A Rússia teve 0,5% de seu território contaminado, a Ucrânia teve 4,8% e a Bielorrússia teve cerca de 23%.

O primeiro relato é de Liudmila Ignátienko, esposa do bombeiro Vassíli, que correu para a central nuclear assim que o incêndio começou. Mas as autoridades soviéticas não informaram o real quadro da situação e os bombeiros usaram suas roupas comuns de combate a incêndio. Vassíli recebeu 1600 roentgen, quando a dose mortal é de 400 roentgen. Sua morte seria lenta, dolorosa e muito feia de se acompanhar. Liudimila estava grávida e cuidou do marido até seu derradeiro fim.

São relatos dos moradores da cidade, homens, mulheres, crianças, sobreviventes. Muitos ainda não compreendem o que se passou. Que perigo era aquele que não se via, não se tocava, o qual era impossível sentir o cheiro ou captar com os sentidos? E como as autoridades demoraram tanto para tomarem uma providência e pedirem ajuda quando tanta gente estava em risco?

Tchernóbil explodiu contra o fundo de um total despreparo da consciência e absoluta fé na ciência. Não tínhamos nenhuma informação. Havia montanhas de papéis com o carimbo ❛ultra-secreto❜: ❛Declara-se que são secretos os dados do acidente❜; ❛Declara-se que são secretos os resultados de tratamentos médicos❜; ❛Declara-se que são secretos os índices de afecção radiativa do pessoal que interveio na liquidação❜.

Página 257

A edição da Companhia das Letras segue o padrão de todas as outras, com uma tradução muito bem feita de Sonia Branco. Não encontrei problemas de revisão ou diagramação no livro.


Obra e realidade
Este é um momento histórico bem estranho. As redes sociais estão repletas de especialistas em história que pelo visto nunca abriram um livro didático, nunca estiveram em uma biblioteca ou zeraram as disciplinas de geografia e história, pois professam que a Terra é plana e que Hitler era de esquerda. Essas pessoas precisavam ler livros com os de Svetlana e quem sabe aprender algo no processo. Aprender a ter respeito pelo outro, aprender a história e a geografia, aprender a política e as tragédias humanas que ocorreram ao invés de tentar reescrever os eventos do jeito que melhor lhe agrade.

Svetlana Aleksiévitch

É um livro que conseguiu juntar memória, emoção e história. Fica difícil não se emocionar com as passagens narradas por pessoas que perderam a vida, perderam parentes, perderam a esperança, que viram seu tempo ruir e seu dinheiro desvalorizar a ponto de ter que vender relíquias de guerra. Há muito que se aprender nestas palavras. Svetlana Alexiévitch é uma escritora e jornalista bielorrussa, laureada com o Nobel de Literatura de 2015.

Frequentemente me perguntam por que sempre escrevo sobre temas trágicos. Porque é assim que vivemos.

Página 379

Pontos positivos
Relatos vívidos e pessoais
Bem pesquisado e escrito
Análises sobre história recente
Pontos negativos

Descrições chocantes

Título: Vozes de Tchernóbil
Título original em russo: Чернобыльская молитва
Autora: Svetlana Aleksiévitch
Tradutora: Sonia Branco
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 384
Ano de lançamento: 2016
Onde comprar: Amazon

Avaliação do MS?
Svetlana não perguntava sobre política, ela queria memórias. Sentimentos, emoções. Mas essas memórias estão entrelaçadas à política da época em que as pessoas viveram. É um livro sobre o desencanto, sobre o medo do futuro e da terra que sempre tanto rendeu e deu vida às pessoas. Svetlana conseguiu também compreender um pouco sobre si e sobre o mundo novo que ela viu nascer, ainda que falho. Um livro obrigatório para você ler. Prepare-se para respirar fundo e chorar várias vezes.

Até mais!

A coisa mais justa no mundo é a morte. Ninguém ainda pôde evitá-la. A terra dá abrigo a todos: aos bons, aos maus e aos pecadores. Não há maior justiça neste mundo.

Página 58

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3 COMENTÁRIOS

  1. Esse livro foi o primeiro que li dela e me apaixonei logo de cara. Agora, compro os livros dela já na pré-venda, de tanto que gosto. E ela também me aproximou do jornalismo literário, hoje um dos meus gêneros favoritos, junto com o sci-fi.

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  2. Eu tinha 10 anos à época e lembro de algumas matérias nos telejornais e um mapa da radioatividade avançando pela Europa Oriental e a então União Soviética. Fiquei muito impactado porque eu tinha assistido um filme chamado "The Day After"e foi o período de muitas passeatas e protestos contra as bombas nucleares e os riscos de uma guerra com tais munições. Eu tinha pesadelos com isso. E no ano seguinte a Tchernóbil aconteceu em Goiânia o caso do Césio-137. Este livro da Svetlana é meu desejo de leitura há algum tempo - provavelmente aquela criança assustada com os pesadelos sobre um desastre ou bomba nuclear retorne com os relatos chocantes, mas é preciso, pois são vozes que durante anos foram silenciadas e desprezadas.

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  3. Nasci quatro anos depois desta tragédia e ela serviu para alertar ao mundo que o poder seja ele radioativo ou bélico, ainda vai causar consequências ainda piores das que já existem. No documentário da Discovery sobre esse acidente, deixa claro que o que causou esse imenso estrago foi o fato da URSS ter o ego inflado e não ter pedido ajuda. A Suécia que detectou os níveis alarmantes e mandaram o recado para as autoridades soviéticas. O povo sofreu demais com a omissão do governo e hoje Pripyat é abandonada por causa disso, um erro fatal humano.

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