Minha experiência como ghostwriter e dois dedos de prosa sobre plágio

Essa semana um caso de plágio explodiu na mídia e, principalmente, nas redes sociais. Uma autora brasileira que publica na Amazon gringa, chamada Cristiane Serruya, foi apontada como plagiadora por diversas autoras de romances como Nora Roberts, Tessa Dare e Courtney Milan. Leitores avisaram Courtney sobre blocos inteiros de seus livros em uma obra de Serruya e isso levou a mais de 35 livros de 24 autores plagiados, incluindo aí Wattpad e até um livro de receitas. Desde então Serruya desativou site e redes sociais que autoras já estão se organizando para processar a brasileira que se defendeu das acusações dizendo que ela nunca faria isso, que foram seus ghostwriters.

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Pela tag #copypastecris você pode acompanhar o desenrolar da história no Twitter e o Nebulla falou a respeito também esta semana. O Lucas Mota fez um texto bem abrangente, incluindo declarações da própria Serruya. Vejo que o termo ghostwriter caiu na boca do povo sem saber exatamente o que é. Então, vamos a uma definição básica:

Ghostwriter é um escritor freelancer, uma pessoa que escreve uma obra literária ou artística de maneira anônima, muitas vezes sob encomenda, que é assinada pela pessoa que o contratou. O ghostwriter vende os direitos de suas obras como parte de um acordo e recebe por isso.


O ghostwriter
Imagine que você é uma atriz famosa, uma celebridade e decidiu que é hora de escrever sua biografia. Só que você não tem tempo ou acha que escrever sua própria história não ficará bom, afinal você é uma atriz, não uma escritora. Você então contrata um escritor profissional (um ghostwriter) que vai escrever sua história de maneira inteligível, de maneira que agrade aos seus fãs leitores. Outro caso: o autor pode acabar morrendo enquanto está escrevendo uma obra, ou deixou vários rascunhos soltos, e os detentores dos direitos podem contratar um escritor para continuar o livro ou trabalhar nos rascunhos deixados. Stieg Larsson e JRR Tolkien tiveram obras publicadas postumamente desta maneira. Políticos também se valem desses escritores fantasmas para escrever seus projetos de lei, discursos e muitos ghostwriters são contratados para escrever textos para livros didáticos, sites e eventos.

Meu primeiro trabalho como ghostwriter foi por acaso. Tinha conhecido um escritor que eu admirava (na época) e falei que meu sonho era ser escritora (sendo que eu já escrevia há, pelo menos, dez anos). Um dia, encontrei com ele novamente por acaso enquanto estava trabalhando e ele perguntou se eu topava escrever para ele, como ghostwriter, pois ele estava expandindo o universo criado nos livros principais. Topei na hora, pois era um dinheiro extra e uma chance de escrever. O acordo foi verbal e ele me deu as ferramentas para poder trabalhar, como livros de referência, mapas e até me emprestou um computador para poder escrever. Mas não havia contrato, nada. Sei que isso foi um grande erro, mas na época eu achava que valia à pena.

O universo criado por ele era um romance histórico medieval que eu já conhecia dos dois livros anteriores. Ele me pediu que o livro fosse com determinados personagens, que tivessem determinados acontecimentos; o resto era comigo. Tive total liberdade criativa para escrever da forma que eu quisesse, desde que respeitasse essas regras. Entreguei um romance de uns 70 mil palavras cerca de 40 dias depois. Ele leu, revisou, mudou somente o final e submeteu para o editor e depois o livro foi publicado. O dinheiro que ele me pagou na época era pouco até para uma ghostwriter iniciante como eu, mas eu não podia negar a ajuda que foi nas contas de casa. Meu nome ainda saiu nos créditos do livro como "assistente editorial".

O problema foi com o segundo livro. Ele me chamou de novo para escrever uma nova obra, mas ele estava sozinho, cheio de dívidas, com vários problemas com outras editoras e não podia me pagar imediatamente, mas seria o mesmo esquema de antes. Topei mais uma vez, entreguei o livro que ele leu, curtiu e pôs o final que já estava pronto. No fim não recebi, não tive nome nos créditos e nunca mais o vi, nem tive contato. Isso foi há quase 15 anos.

Muita gente pode estranhar que um escritor contrate um ghostwriter para escrever para ele, certo? Autores que publicam com uma frequência alta, como é o caso de Serruya, se valem destes profissionais para gerar rotatividade das obras e para prender os leitores ao seu universo. O escritor que me contratou também tinha um grande universo e vários enredos paralelos conectados aos romances principais e para dar conta da agenda de publicações, ele resolveu terceirizar. E não era só eu, tinha mais gente trabalhando com ele.

Mas todo livro deve passar por revisão, por edição, por leitura. Como é que essa escritora culpa os ghostwriters por plágio? Ela não leu nenhuma página do que eles escreveram? Não revisou um conteúdo que levaria seu nome na capa? Isso não é bem esquisito para uma autora profissional? Se eu não quisesse ter o trabalho de escrever, poderia ter pegado trechos de obras de outros autores semelhantes, colocado tudo em um arquivo e entregado ao autor que me contratou. Mas ele e seus revisores leriam e perceberiam que há algo estranho. Cada escritor tem seu estilo. Uma mudança súbita entre um parágrafo e outro geraria desconfiança imediata.


Plágio
Contratar um ghostwriter não é errado, nem mesmo ilegal. Mas plágio é. Copiar e colar os textos de livros de outras pessoas e colocar em uma obra assinada por outro é crime. Com a cabeça que eu tenho hoje, sei que é bem possível que eu nunca contratasse um ghostwriter para escrever meus livros de ficção. Eu gosto de escrever, gosto de criar, me divirto e me realizo fazendo isso; não consigo imaginar outra pessoa escrevendo em meu lugar, a menos que eu esteja morrendo ou escrevendo minha biografia. Porém, não são poucos os casos na mídia de gente fazendo sucesso em cima do trabalho dos outros, tornando-se estrelas sobre o trabalho árduo de outras pessoas, escrevendo resenhas de si mesmas nas redes ou então comprando lotes de seus livros para figurar nas listas de mais vendidos.

O ghostwriter não é um plagiador profissional e vejo muita gente achando que o problema todo dessa história é esse, ter usado o trabalho de escritores freelancers. É muito conveniente cometer um crime e culpar os outros por isso. Segundo o que li pelo Twitter e em outros textos, Courtney Milan foi procurada por dois ghostwriters que trabalharam com a autora brasileira e disseram que ela trouxe vários trechos prontos e pediu que eles fizessem o restante do trabalho, conectando as passagens entre si. Além disso, o que um ghostwriter ganharia por copiar e colar trechos de livros consagrados para outra pessoa publicar? Ele afundaria sua carreira de propósito?

Também vejo alguns leitores preocupados com o que estão lendo: será que foi mesmo o escritor que eu gosto tanto o autor desta obra? Será que o que estou lendo é de fato original? Não vejo tanto problema com isso se a história se passa no mesmo universo, com personagens criados pelo autor que contrata um ghostwriter. Isso não é crime, mas entendo que isso possa incomodar os leitores, fãs do estilo de determinados autores. Nem mesmo livros com similaridades entre si pode ser considerado plágio. Como o caso de Nora Roberts e o título de seu livro Of Blood and Bone provou, ideias são imateriais. Tomi Adeyemi, autora de Filhos de Sangue e Osso, se doeu à toa, chamando Nora de plagiadora por causa de um título semelhante, levando a um tremendo mal estar e fãs de Tomi atacando Nora sem motivo. Veja que até mesmo entre nomes graúdos há esse tipo de coisa acontecendo.

Mas não é o que os prints e análises feitas nos trabalhos de Serruya estão mostrando. Não são ideias similares, são trechos copiados quase que na íntegra de trabalhos de outras autoras. Tessa Dare disse que praticamente todas as frases do último livro de Serruya são copiados de algum lugar. É gritante e vergonhoso.

Como ghostwriter contratada pelo autor eu tinha o dever de respeitar o universo criado, respeitar os personagens e o enredo original. Eu estava sendo paga, ao menos em parte já que não recebi o resto, para entregar um produto. Sentei e fiz a minha parte como profissional. Já o autor que plagia o outro, que copia trechos de livros e junta para criar uma obra que não é sua, não é um escritor. Nem nunca será. O que eu não consigo entender é por que fazer isso. É pelo status? Para poder encher a boca e dizer que é uma escritora publicada? Ela diz que não ganhou um centavo por seus livros na Amazon, o que acho bem difícil, pois eu que tenho alguns ebooks na plataforma ganho todo mês entre 10 e 20 reais de vendas e do Kindle Unlimited. Então, novamente, isso não cola.

Se você for trabalhar como ghostwriter, não faça como eu, que aceitou um simples acordo verbal e saiu no prejuízo. Tenha todas as suas obrigações e direitos por escrito e assinado. Seja profissional, cobre o valor de mercado. O ghostwriter é um profissional da escrita e você já deve ter consumido muito material escrito por ótimos freelancers sem nem se dar conta disso. O problema todo aqui é a cópia de trechos inteiros de livros, colados em uma narrativa que não é sua e depois vender como sendo seu trabalho.

Depois desse textão todo o que fica é: não é errado contratar um ghostwriter ou um escritor freelancer. Existem vários trabalhos para este profissional que é um escritor como você e eu. O errado mesmo é tentar dar uma de esperta e publicar textos que não são seus.

Até mais!

Leia também:
Ghost Writer: entenda o que é e como trabalhar como escritor-fantasma! - @ Comunidade
Plagiarism, then and now - Nora Roberts

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2 COMENTÁRIOS

  1. Ótimo texto. Apesar de que pessoalmente eu acredito que deveria ser ilegal não creditar alguém que escreveu/ajudou a escrever algo, mas discutir esse tipo de mérito não era o ponto do artigo.
    Algum motivo pra não mencionar o nome do picareta que sumiu sem pagar? Eu fico só curioso se é por educação, irrelevância, ou pra evitar dor de cabeça. Claro, se for o terceiro é realmente melhor não mencionar o nome do... "Bloom Mães Neto", vai que ele aparece e fica brabinho.

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  2. Eu não sabia desta confusão até entrar aqui e ler seu texto. Estou voluntariamente fora das redes sociais desde o início de fevereiro, debruçada sobre um história de ficção histórica que inventei de escrever. E quase caí para trás quando li o nome 'Cristiane' relacionado a algo que eu repudio. E explico, Cristiane é meu primeiro nome, mas NÃO sou a tal escritora acusada de plágio.
    E definitivamente, sempre é bom explicar a diferença entre: um escritor que cria do zero uma obra mas que não assina sua criação, passando a outra pessoa que o publica como se fosse dela; e um plagiador, um criminoso, que frauda uma criação alheia por meio da cópia descarada do produto, no caso, o livro.
    Vou continuar acompanhando o caso, e me envergonhando por uma pessoa que se diz escritora descer a este nível - caso seja comprovado o crime. Já nos basta o caso do Moacyr Scliar e o plágio que ele sofreu!
    Por que escrever não é tarefa fácil para se tratar com tanta leviandade ao ponto de copiar e publicar um livro. E eu espero que isto se solucione em respeito a cada escritora plagiada.

    Até mais, Lady Sybylla!

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