Resenha: Geek Love, o fabuloso Circo Binewski, de Katherine Dunn

Geek Love é um daqueles livros que são um ponto de virada na vida e carreira de muita gente, tipo Neil Gaiman. Foi uma obra que questionou o que é normal, o limite do sagrado, o bizarro e o profano. O livro de Katherine foi citado por grandes artistas tanto da música quanto da literatura, atores e atrizes. Como um livro tão bizarro conseguiu esse feito? Respeitável público, este é o inigualável, o invencível, o importantíssimo e fabuloso Circo Binewski!



Parceria Momentum Saga e
editora DarkSide


O livro
Geek Love nos conta a história da família Binewski, praticamente um clã onde os pais usam tecnologia rudimentar e até perigosa para produzir filhos com excentricidades, anormalidades anatômicas e genéticas. O geek aqui não se refere à forma moderna que usamos a palavra. Isso é explicado pela própria autora no começo do livro. O sentido que ela deu é o que se usava na década de 80 para pessoas com um defeito de personalidade ou uma deficiência social. Podia se referir também aos artistas de circo, aqueles dos mais bizarros, que arrancavam a dentadas as cabeças de galinhas para o deleite do público. Agora dá para entender o título e associá-lo com a vida da família Binewski.

Resenha: Geek Love, de Katherine Dunn

A família administra um circo itinerante e o livro narra a ascensão e queda dos filhos do casal, enquanto crescem, se desentendem, se voltam uns contra os outros ou se tornam vítimas das consequências. Muita gente pode não gostar das bizarrices da família. Vou admitir que em alguns momentos o excesso de descrições bizarras me incomodou, mas acho que é fácil falar quando você não é julgada como bizarra pela sociedade. É uma história sobre capacitismo também e a forma como julgamos pessoas por aparência, deficiências e diferenças corporais.

Além de tudo isso é uma história sobre família. E sabemos que família nem sempre quer dizer união, amor e companheirismo. Nem mesmo consanguinidade, pois você pode ter membros da família com quem não divide a ancestralidade. Família é muito mais alguém que a gente escolhe e nos escolhe, do que um parente.

Aqueles pobre sapos atrás de mim estão em silêncio. Eu os superei. Eles pretendiam me usar e envergonhar, mas eu venci pela natureza, porque uma verdadeira bizarrice não pode ser inventada. Um bizarro de verdade deve trazer isso desde o nascimento.

Página 42

Quem narra a saga da família é Olly, uma anã corcunda, albina e careca (como ela se descreve), mas que não tem um espetáculo para si e no fim se sai melhor servindo aos irmãos. Ela nos conta sobre a história de amor dos pais, de como eles misturavam radioisótopos e inseticidas entre tantos outros elementos químicos para gerar crianças bizarras. Nos conta como o caçula, Chick, aparenta uma "normalidade" que quase o fez ser abandonado pela família, mas por ter uma habilidade psíquica, bom coração e índole íntegra, alguns dos parentes acabam enciumados.

A leitura foi lenta e tive que parar em alguns momentos e acho que a forma como Katherine contou a história é que me fez demorar tanto para terminar. Olly nos conta sobre sua vida na atualidade e volta no passado para desenrolar a história da família. O recurso quando é bem usado é maravilhoso. Aqui sinto que ela perde o ritmo um pouco, especialmente nos atos do presente. E a forma como imos e voltamos também poderia estar melhor destacada para não confundir quem lê.

Este deve ser um dos livros mais lindos que a DarkSide produziu. Não apenas tem uma capa bonita e condizente com o enredo como o trabalho gráfico do miolo ficou incrível. Com brochura colorida, ilustrações na contra-capa e muitos detalhes no miolo, a tradução ficou na mão de Débora Isidoro e não encontrei grandes problemas de tradução ou revisão.

Ficção e realidade
O que é mais interessante do livro é seu questionamento sobre a normalidade. Por muito tempo e ainda hoje, a tal normalidade é usada como uma carta mágica que visa encaixar as pessoas num modelo padronizado. A sociedade se construiu sobre essa carta mágica e tudo o que difere dela tem problemas de adaptação. Canhotos, pessoas com nanismo, cadeirantes, pessoas que usam próteses, deficientes visuais, surdos, são obrigados a se adaptar à sociedade quando muitas vezes a sociedade poderia se adaptar à elas.

Katherine Dunn
Katherine Dunn

Katherine Dunn foi best seller com Geek Love. Influenciou uma geração de artistas e de pessoas que se sentiram representadas por sua obra. Ganhadora de vários prêmios, ela faleceu em 2016 devido a um câncer de pulmão.

Pontos positivos
Arte do miolo
Bizarrices e excentricidades
Escrito por mulher
Pontos negativos

Muitas descrições
Pode ser lento

Título: Geek Love, o fabuloso Circo Binewski
Título original em inglês: Geek Love
Autora: Katherine Dunn
Tradutora: Débora Isidoro
Editora: DarkSide
Páginas: 416
Ano de lançamento: 2018
Onde comprar: Amazon


Avaliação do MS?
Uma história de família, que poderia ser qualquer uma; a minha, a sua, a de qualquer pessoa, mas que é uma família circense, onde o bizarro é a normalidade. Depois de ler este livro a gente começa a se questionar sobre o normal. O que é ser normal? De perto, ninguém é. Muito menos vocês, menos ainda a família Binewski. Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também.

MUITO BOM!

Até mais! 🎪

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