Resenha: Despertar, de Octavia Butler

É maravilhoso poder ter livros da Octavia na mão, sendo que poucos anos atrás, boa parte do público leitor brasileiro nem ao menos sabia seu nome. Despertar é o primeiro livro da trilogia Xenogênese e nos traz uma história de superação, de humanidade, de dor e de sobrevivência, bem característica das protagonistas de Octavia.



Parceria Momentum Saga e
Editora Morro Branco


O livro
Lilith Iyapo, nossa protagonista, desperta após 250 anos de animação suspensa. Mas ela é uma prisioneira. A comida aparece misteriosamente, a água escorre das torneiras, mas não havia portas ou janelas. Uma plataforma que servia de mesa e de cama era firmemente fixa no chão. Manchas sumiam rapidamente e ela estava completamente só. Por mais que socasse as paredes e arrancasse sangue das unhas, por mais que berrasse até perder a voz, nada acontecia. Ela lembrava de sua vida passada, de seu filho e do marido e de como morreram.

Resenha: Despertar, de Octavia Butler

Será que alguém que sobreviveu à guerra poderia tê-la esquecido? Um punhado de gente tentou provocar o extermínio de toda a humanidade. Essas pessoas quase tiveram sucesso. Ela, por mera sorte, conseguiu sobreviver apenas por ser capturada, por só Deus sabe quem, e presa.

Página 15

Para não enlouquecer, Lilith se exercitava. Tentava falar com seus captores, mas eles permaneciam em silêncio. Depois de muito esperar, alguém entra em sua cela, mas se mantém na penumbra, misterioso, voz andrógina, dizendo que ele estava lá para levá-la para fora. O que ela pensou ser um homem alto era um ser humanoide, mas sem nenhuma protuberância no rosto, apenas pele lisa, cinza. O que ela achava ser cabelos eram na verdade tentáculos. Era um alienígena. Um ser extraterrestre que ela relutou muito em tocar e interagir. O que você faria? O que qualquer um faria em seu lugar?

Octavia trabalhou muito bem as questões de isolamento e alienação causada pelo confinamento a que Lilith e muitos outros seres humanos acabaram passando na nave dos Oankali, a raça alienígena que está lá para salvar a raça humana. Mas os Oankali querem algo mais. Lilith sabe que tem algo ali que seus captores não respondem prontamente. A nave é um imenso feito de engenharia, orgânica, viva, capaz de digerir restos orgânicos e de interagir com as pessoas.

Fica a dúvida do porquê Lilith foi acordada e para que os Oankali a queriam. A Terra pode, finalmente, ser povoada mais uma vez e ela será uma líder de um grupamento humano no momento certo. Mas para tudo há um preço. Os Oankali, que estão muito distantes de seu planeta original e muito diferentes de sua forma original, estão em busca de algo que os humanos possuem. Eles são fascinados por nossa forma e Lilith sabe que não somos um povo que gosta de ter sua essência alterada.

Por este ser um primeiro volume de uma trilogia, achei um tanto cansativo em alguns momentos, com muitas explicações. Isso é bem comum em outros volumes de trilogias, não foi diferente aqui. Mas é inegável que é uma obra de Octavia, pois as discussões sociais, as discussões sobre nossa humanidade, sobre nossa agressividade estão todas lá. Sua protagonista aceita de maneira resignada seu destino, tentando não pensar na vida que deixou para trás, tentando não pensar na vida que poderia ter tido.

Conviver com os Oankali não é o único desafio dela; ter que acordar outros seres humanos, para que convivam juntos, para que treinem juntos, para aprendam a viver em comunidade e explicar que estão todos em uma nave espacial, que estão sob a tutela de seres alienígenas, é ainda mais difícil. E eles se comportaram do jeitinho que achei que se comportariam: com suspeita, com agressividade, com resignação, com violência, com rispidez. Tentativas de estupros acontecem sob a desculpa de que a raça humana tem que continuar, as pessoas acham que Lilith não é humana, ou que não estão em uma nave, que podem tentar fugir.

Tive um pouco de dificuldade de imaginar os Oankali pela descrição que Octavia nos deu. Mas achei essa arte na internet que me pareceu muito fiel ao que os aliens seriam.

Oankali
Arte de Amy Dang

A Morro Branco caprichou na edição de Despertar. A capa azul segue o padrão da capa gringa, mas ela é emborrachada, super macia e eu, volta e meia, ficava passando a mão nela. Não encontrei problemas de revisão ou de tradução, que foi de Heci Regina Candiani. O trabalho gráfico do miolo está bem bonito e no final temos questões para discussão.

Ficção e realidade
O contato com uma raça alienígena seria um dos grandes eventos da história da humanidade, comparável com a descoberta do fogo. Neste caso, os Oankali seguem uma linha nova era de pensamento que pensa que os aliens estariam aqui para nos salvar de nós mesmos (assim como Arquivo X acabou fazendo e cagou tudo na 10ª temporada). O grande problema desse pensamento é, mais uma vez, desconsiderar nossa capacidade de resolver problemas. Infelizmente, quando os Oankali chegam, a gente já tinha se detonado mesmo assim. Porém, a benevolência tem preço.

Octavia Butler
Octavia Butler

Octavia Butler é a grande dama da ficção científica e uma pioneira do afrofuturismo. Nos deixou cedo demais e foi publicada no Brasil apenas recentemente pela editora Morro Branco, um atraso absolutamente injustificável.

Pontos positivos
Protagonista feminina
Oankali
Relações sociais entre aliens e humanos
Pontos negativos
Pode ser meio lento em algumas partes
Final em aberto

Título: Despertar
Título original em inglês: Dawn
Trilogia Xenogênese
1. Despertar
2. Adulthood Rites
3. Imago
Autora: Octavia Butler
Tradutora: Heci Regina Candiani
Editora: Morro Branco
Páginas: 352
Ano de lançamento: 2018
Onde comprar: Amazon

Somos uma espécie adaptável, mas é errado infligir sofrimento apenas porque sua vítima consegue suportá-lo.

Página 97

Avaliação do MS?
Foi uma leitura muito intrigante, muito introspectiva, até mesmo pela situação em que Lilith estava. Você questiona como seria seu próprio posicionamento nessa situação, como se comportaria, se concordaria com as regras dos Oankali e com o preço a se pagar pela ajuda em recuperar a Terra e a raça humana. Os Oankali são incríveis, bem construídos e aliens que saem do lugar comum do que costumamos ver na ficção científica. Ele pode ser devagar em alguns momentos, mas vale à pena continuar. Quatro aliens e uma forte recomendação para você ler também.


Até mais!

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1 Comentário

  1. O alienígena da ilustração me lembrou muito os "Aliens numa versão Guilhermo Del Toro"...rsrsrs
    Fiquei com ainda mais vontade de ler!

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