Resenha: Infiltrado na Klan, de Ron Stallworth

Você deve ter ouvido falar do novo filme de Spike Lee que estreia em novembro, sobre um policial negro que conseguiu se infiltrar em uma das mais racistas e ignóbeis associações que existem. O que pouca gente ouviu falar é que o filme é baseado em um livro escrito pelo policial que conseguiu tal proeza. Lançado no Brasil pela Editora Seoman, o autor rememora aqueles dias tensos.



Parceria Momentum Saga e
Grupo Editorial Pensamento


O livro

Se um homem negro, auxiliado por um punhado de brancos e judeus bons, decentes, dedicados, de mente aberta e liberais, pode conseguir prevalecer sobre um grupo de racistas brancos, fazendo-os parece os idiotas ignorantes que realmente são, então imagine o que uma nação de indivíduos que compartilham das mesmas ideias pode conseguir.

Ron era o primeiro detetive negro na história do Departamento de Polícia de Colorado Springs. Uma de suas atribuições na época era a de buscar nos jornais diários qualquer indício de atividade subversiva e criminosa. Eis então que ele se depara comum anúncio da Ku Klux Klan com uma caixa postal para contato. Intrigado com isso, Ron respondeu ao anúncio, escrevendo uma mensagem rápida em busca de informações sobre a filiação à KKK.

Resenha: Infiltrado na Klan, de Ron Stallworth

Ele deu um telefone de fachada usado pela polícia, um endereço também de fachada, mas acabou assinando com seu nome verdadeiro. Ao invés de usar um pseudônimo, Ron colocou seu nome de verdade e a resposta é que ele não esperava que aquilo fosse gerar uma investigação. Qual não foi sua surpresa quando em 1º de novembro de 1978 o telefone de fachada da polícia tocou?

Era o líder local da Klan, um completo imbecil fascinado por filmes de James Bond, chamado Ken O'Dell. Começava aí uma das mais curiosas investigações que o Colorado e os Estados Unidos já viram. Ron conta como entrou para a polícia e como tinha que lidar com preconceito e racismo entre os colegas, com um curioso caso com o quepe que não cabia em sua cabeça de cabelo afro. Conta um pouco sobre sua criação e como a família esteve envolvida na luta pelos direitos civis desde antes de ele nascer e como ele tinha que separar o fato de ser negro com o fato de ser um policial.

Talvez hoje, com as redes sociais e a internet, Ron tivesse dificuldade em manter sua identidade em segredo, mas nos anos 1970 ele conseguiu manter uma linha de comunicação com o líder local da KKK. O problema era com encontros presenciais. Ele não poderia ir em pessoa, então um colega branco se passou por Ron, usando um comunicador oculto, cada vez que uma reunião era marcada.

É muito curioso que um policial negro tenha conseguido entrar na KKK, conseguido certificado e até carteirinha da organização que se dizia ser superior às minorias tanto física quanto intelectualmente. Ele chegou a ter altos papos com o "grande mago" da Klan, que dizia saber identificar um negro pela forma "descuidada" com que os negros falam. E Ron tinha que segurar o riso, já que nunca, ninguém, nunca desconfiou de ter um negro infiltrado. O que eles atribuíam como falhas das minorias que tanto odiavam eram na verdade reflexos de suas próprias falhas.

O tal do "grande mago" era a nova cara da Klan. Ele quebra os etereótipos anteriores, sendo um homem educado, com mestrado, andando de terno e tendo um excelente discurso quando era chamado para entrevistas. Era a "Nova Klan":

Publicamente, ele não falava sobre ódio, mas sobre herança e história. Ele gerou um novo racismo para as massas de direita, que unia a antipatia aos negros e outras minorias à insatisfação geral com o governo e ao medo de um mundo complexo em constante mudança.

Página 64

O livro está bem diagramado, com o pôster do filme com John David Washington e Adam Driver nos papéis principais. No meio há uma seção com fotos de arquivo de Ron, com fotos suas, da investigação e de documentos da Klan. Encontrei alguns problemas de tradução e revisão.

Obra e realidade
Eu sabia que a Ku Klux Klan era uma organização nojenta e racista, mas a facilidade com que foram ludibriados mostra que a tal "superioridade da raça branca" não só não existe como deve ter sido criada por homens medíocres que se sentiram pequenos diante da grandeza de pessoas que eles desprezavam. São pessoas que nunca vão entender que ganhamos muito mais com a diversidade, com a inclusão, do que com a segregação e alimentam essas maluquices xenófobas apenas para se sentirem superiores.

Ron Stallworth
Ron Stallworth

Ron ainda faz um alerta de como o ódio nunca sumiu, de como a direita se reinventa, tentando tapar o sol com a peneira, na tentativa de ocultar o que são: racistas, misóginos, homofóbicos, desesperados por encontrar um lugar em um mundo em constante mutação.

Esse ódio nunca desaparece, foi revigorado nos cantos escuros da internet, pelos trolls do Twitter, em publicações da direita alternativa e por um presidente nativista na figura de Trump.

Página 202

Pontos positivos
Fatos reais
Ron Stallworth
Tem fotos
Pontos negativos
Pode ser lento em algumas partes
Repetitivo
Erros de revisão e tradução

Título: Infiltrado na Klan
Título original em inglês: Black Klansman
Autor: Ron Stallworth
Tradutora: Jaqueline Damásio Valpassos
Editora: Seoman
Páginas: 208
Ano de lançamento: 2018
Onde comprar: Amazon

Avaliação do MS?
Apesar de ser muito curto e de Ron repetir alguns termos de maneira cansativa, o livro é muito bom e muito pertinente nos dias atuais. Ainda que a investigação tenha sido na década de 1970, o ódio e a xenofobia ainda existem e a internet deu voz para muitos desdes odiadores. É uma leitura importante para tempos tão sombrios. Quatro aliens para o livro e uma forte sugestão para você ler também.

MUITO BOM!

Até mais!

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