Mas com tanta gente passando fome...

segunda-feira, janeiro 15, 2018

Quem acompanha o blog ou me conhece sabe: sou entusiasta da exploração espacial e da ciência. Eu acompanho de perto as missões das sondas espaciais e quando uma missão dessas acaba eu sinto pela perda do equipamento. O ganho em conhecimento que esses equipamentos geram é incalculável. Por sua vez, existem pessoas que não entendem o impacto que uma nova sonda ou um novo telescópio pode ter para sua vida cotidiana. E recentemente um comentário assim caiu no meu post sobre o fim da missão da sonda Cassini: com tanta gente passando fome, os cientistas, que pelo visto não têm o que fazer, ficam gastando bilhões pra mandar sondas pro espaço.

Ok, vamos falar sobre isso.




Vou jogar alguns números aqui. O primeiro é 1,1 trilhão de dólares. Essa é a conta da Guerra do Iraque até agora. Se contarmos todo os danos estruturais e perdas em vidas causados pela guerra, a conta sobe para 7,6 trilhões. Em valores corrigidos, a Segunda Guerra Mundial custou aos Estados Unidos 4,1 trilhões e a Guerra do Vietnã custou 738 bilhões de dólares.

A invasão dos Estados Unidos no Iraque destruiu parte da infraestrutura do país, entregou na mão de companhias estrangeiras boa parte de seus recursos, acirrou diferenças regionais e religiosas entre os povos que vivem no Iraque e serviu de combustível para o surgimento do daesh. Com o surgimento do daesh, um conflito sangrento e a destruição de patrimônios culturais e estruturais começaram, sem falar de um movimento migratório em massa sem precedentes. Famílias inteiras se arriscam no mar ou caminham a pé em busca de uma vida melhor e segura.

Um estudo da Agência Reuters coloca os custos diretos da Guerra do Iraque em mais de 2 trilhões de dólares. Com os valores calculados de pensões de veteranos, a conta pode subir mais 490 bilhões. A guerra matou 134 mil iraquianos e pode ter contribuído para a morte de muitos outros, cerca de quatro vezes mais. Se contarmos as mortes de jornalistas, voluntários, insurgentes e inocentes mortos em ataques por engano, as estimativas variam entre 176 mil e 189 mil. O deslocamento das pessoas devido aos conflitos com o daesh, a falta de envio de remédios, suprimentos e água potável eleva ainda mais as mortes. Só para comparar, o valor de todas as riquezas produzidas no continente africano inteiro está avaliada em 3 trilhões de dólares, contra 101 trilhões da América do Norte, a maior parte produzida pelos Estados Unidos.

Agora, um segundo número: 2,87 bilhões. Esse é o valor atual e corrigido da missão do Telescópio Hubble, incluindo os reparos em órbita. Lançado em 1990, ele passou por reparos no espaço em 1993, em uma delicada e bem sucedida missão que entrou para a história. As imagens e informações mandadas pelo Hubble em todos esses anos são de valor incalculável. Ainda serão necessário muitos anos para poder publicar todo o conhecimento gerado pelas informações mandadas por ele.

O Hubble nos colocou no imenso tabuleiro do universo ao trazer para a Terra imagens espetaculares de nebulosas e galáxias. Pesquisadores do mundo todo possuem acesso aos dados do Hubble e podem publicar artigos ou reforçar hipóteses e teorias. O Hubble aumentou o interesse em ciência e inspirou crianças a seguirem carreira científica. O Hubble não é o mais avançado telescópio da atualidade, mas ele ainda está gerando dados que levarão muito tempo para serem analisados e publicados.

Os Pilares da Criação, Nebulosa da Água, imagem captada pelo Hubble em 1993. Está a cerca de 6.500-7.000 anos-luz da Terra.

Conhecimento é algo difícil de quantificar, quanto mais precificar. A gente não sabe qual informação uma sonda ou telescópio pode mandar para a Terra que vai revolucionar a ciência e nossas vidas. Quando Hedy Lamarr, sentada ao piano, inventou um sofisticado aparelho de interferência em rádio para despistar radares nazistas, patenteado em 1940, para ajudar os Estados Unidos nos esforços de guerra, ela jamais poderia imaginar o que sua invenção geraria. Sua invenção serviria de base para a moderna telefonia celular e wi-fi, uma indústria de bilhões de dólares, que revolucionou a forma como nos comunicamos.

Depois de jogar aqueles números lá em cima, eu te pergunto: o que é que causa fome, pobreza e miséria no nosso mundo? São as guerras, os conflitos, o subdesenvolvimento ou são as missões espaciais? Antes de responder, vamos relembrar a história de uma freira da Zâmbia chamada Irmã Maria Jucunda. Nos anos 1970 ela enviou uma carta para o diretor associado de ciência do Centro de Voos Espaciais Marshall, da NASA, Ernst Stuhlinger, questionando como que a agência se dispunha a gastar bilhões de dólares num projeto espacial sendo que crianças morriam de fome na Terra.

Para ler a resposta completa de Ernst para ela, clique aqui. Mas pesquei algumas informações da carta para o texto. Ele disse à Irmã Maria que o orçamento anual dos Estados Unidos para a exploração do espaço era cerca de 1,6%. Se um contribuinte americano ganha 10 mil dólares por ano, a renda paga em impostos que será revertida para a ciência espacial é de apenas 30 dólares. Satélites em órbita auxiliam os cientistas a avisar com antecedência sobre furacões, evitando perdas de vidas e preparando cidades para o pior. Satélites auxiliam na previsão de secas e chuvas em demasia, enviando dados para os países poderem se planejar.

Estudar a origem e formação da Terra nos ajuda a compreender seu futuro, como as placas tectônicas se formam e se movem, o que podem ajudar a prever terremotos que podem salvar milhões de vidas. Estudar fósseis nos ajuda a compreender extinções e a evolução da vida em si, para nos fazer compreender como a vida se comporta na atualidade, o que pode nos ajudar a preservar espécies em risco de extinção, a proteger habitats, a auxiliar na procriação de espécies em perigo.

Na maioria dos países, o departamento de ciência é o que recebe os menores recursos do orçamento anual. Boa parte da ciência é feita nas universidades e enquanto a graduação é um de seus maiores setores, a pós-graduação, onde boa parte da pesquisa acontece (inclusive no Brasil), é pequena, falta gente, falta equipamentos e, no caso de nosso país, falta dinheiro, o que tem causado a fuga de cérebros, como a da neurocientista Suzana Herculano-Houzel.

Você sabia que 30% do que você compra no supermercado vai para o lixo por que estraga e você não consumiu? O grande problema da fome do mundo não é produzir comida suficiente, é fazer chegar nas pessoas que têm fome. E um dos grandes impeditivos para a comida chegar é justamente as guerras, como a que temos acompanhado no Iêmen. Cerca de 17 milhões de pessoas já estão passando fome, cerca de 3.300.000 delas são crianças morrendo por desnutrição devido à guerra civil que assola o país. As fotos de crianças morrendo de fome na Somália, nos anos 1990, não falavam que a comida era confiscada por Mohammed Farah Aidid, que não distribuía para os cidadãos famintos.

O Brasil é um dos países que MAIS DESPERDIÇA alimentos no mundo. O produto já se perde logo depois da colheita. É a embalagem inadequada que danifica ou estraga o alimento, é exposição errada em mercados, é o consumidor comprando demais e jogando fora sem consumir. Infelizmente, nossa legislação penaliza o doador de alimentos, pois se alguém passar mal por causa da doação, ele é indiciado criminalmente. Mudar a lei já ajudaria e muito na hora de doar alimentos a quem precisa.


Se você quer, de fato, contribuir para um mundo melhor, com menos fome e miséria, consuma menos. Não troque seu celular todo ano. Recursos minerais importantes para os componentes eletrônicos podem estar vindo de áreas de conflito e você pode ser um fomentador desse mercado por trocar de celular, um aparelho que está perfeito por outro que pode nem ter tantas melhorias. Compre frutos e verduras regionais e da estação e não se importe com a aparência dele, pois ele pode estar bom por dentro. Cobre dos legisladores mudanças nas leis para reduzir os desperdícios, desde o campo até a sua mesa e reaproveite os alimentos. Aquela ave que você assou no almoço dá um ótimo escondidinho de frango no jantar se você tirar toda a carne da carcaça.

Reduza seu consumo de carne, pois boa parte da produção de grãos vai para a ração animal. Legumes, frutas e verduras são virtualmente mais baratas e consomem menos água do que um rebanho. Invista em hortas caseiras de ervas como coentro, cebolinha, manjericão e alecrim. Não compre água engarrafada, compre filtros de torneira ou bom e velho filtro de barro. Não compre tanta roupa, reforme as que você já tem, troque, doe.

Você consegue imaginar o que poderia ser feito com mais de 2 trilhões de dólares se ele fosse investido em ciência e tecnologia? Podemos estar perdendo a cura do câncer ou do HIV. Podemos estar perdendo para bombas e artilharia a próxima revolução verde ou de antibióticos que vai salvar milhões de vidas. Mas não, continuamos gastando trilhões de dólares em maneira de exterminar vidas humanas. Países que não investem em educação, ciência e tecnologia, tipo o Brasil, costumam ter uma população cientificamente analfabeta, que não compreende o trabalho científico nem sua contribuição para a sociedade. Além disso, é uma nação de pouco desenvolvimento, o que reflete diretamente no meio de vida de sua população.

No fim, para responder à pergunta feita lá em cima, sobre o que gera mais fome, pobreza e miséria, acho que está bem óbvio o que causa.

Vida longa e próspera!

Leia também:
11 dicas para minimizar o desperdício de alimentos dentro de casa - Instituto Akatu
Como evitar o desperdício de alimentos em casa - Instituto Akatu
11 dicas para evitar o desperdício de alimentos - Armário Orgânico
Ebooks gratuitos no site do telescópio Hubble - NASA
Como vive a família que há dez anos não gera lixo - BBC Brasil

Já que você chegou aqui...

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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3 comentários

  1. Que coisa maravilhosa abrir o e-mail pela manhã e já poder ler um texto lindo e necessário desses ♥
    É impressionante que sempre que um assunto de interesse coletivo (seja na ciência, nas artes ou em qualquer campo do conhecimento) vem a tona, aparece alguém para falar que tem gente passando fome em alguma parte do mundo. Como se a fome surgisse por geração espontânea a cada satélite lançado, ou a cada exposição de museu.
    Só pra dar um exemplo de que isso é algo que permeia todas as discussões, no último sábado, aqui na minha cidade, foram retiradas 2 toneladas de lixo da beira da praia. E ontem já tinham focos de lixo espalhados pelos mesmos lugares. Ao todo, são 80 lixões irregulares espalhados pelo perímetro urbano, sendo que 8 deles em situação crítica. Aí quando a administração municipal tenta tomar uma atitude, vem aquela manada de comentaristas de portal opinar que a prioridade tem que ser outra coisa. É uma incapacidade de pensar coletivamente, de ir além do próprio umbigo.
    --
    Mudando de assunto, preciso te parabenizar pelo melhor SEO da blogosfera, o conteúdo sempre chega pra mim em todas as plataformas o/
    Beijão :*

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  2. Perfeito! Os links do Instituto Akatu eu já usei na faculdade (faço nutrição). A falta de conhecimento e o excesso de preguiça, infelizmente, nos faz escutar esse tipo de pensamento, que é muito comum. Estudando para ser nutricionista, me surpreendeu que a maior parte do trabalho se fundamenta em educar as pessoas pras coisas básicas que o nosso governo deixa passar...

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  3. Que texto maravilhoso! Acompanho seu blog "na moita", mas agora fiz questão de comentar e compartilhar! Parabéns pelo seu trabalho!!!

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