A misoginia de Ex Machina

segunda-feira, dezembro 04, 2017

Ex Machina (2014) é um filme que desperta sentimentos conflituosos. E quando falei neste post sobre dez curiosidades a respeito do filme, muita gente se espantou pelo fato de eu dizer que o filme é misógino. Ou se espantaram por eu falar do filme ou se espantaram por eu achar o filme misógino. Bem, gente, não querendo cortar o barato de ninguém, mas já cortando, o filme é sim misógino, mesmo tendo feito uma boa discussão sobre inteligência artificial e com um plot twist no final. Passar um verniz de "libertação feminina" em cima dele não consegue esconder o aroma de machismo que há por baixo.




Para adiantar o expediente, entenda: você não está proibido de assistir e gostar do filme, apenas reflita sobre ele com o que será criticado aqui. Todos nós gostamos de coisas que são problemáticas, que fazem piadas grotescas, que ilustram situações preconceituosas, mas você deve ter ciência delas e não fechar os olhos e dizer que é tudo mimimi.

Então, do que se trata Ex Machina? Um programador ganha um concurso na empresa que trabalha para viajar até o longínquo centro de pesquisa do presidente da companhia. Ele deve submeter uma inteligência artificial - Ava, um robô - pelo Teste Turing e ver se ela passa como ser humano. Mas há uma pegadinha com o programador, que acha Ava atraente e quer ajudá-la a escapar.

Hollywood e as robôs
Existe uma longa tradição de Hollywood mostrando robôs e androides na forma feminina. De Maria, em Metropolis, a T-X em Exterminador do Futuro III, Pris em Blade Runner, Samantha em Her, às robôs assassinas de Austin Powers, Vicky em Eu, Robô. Mas há uma maneira de retratar essas mulheres que não mudou: são sexualizadas, par romântico, prostitutas, mulheres dos sonhos e incorpóreas. Compare todas essas robôs e androides com Ash, Bishop e David na franquia Alien. Nenhum deles é sexualizado, todos eles, inclusive, passam por uma pessoa comum. Possuem sua missão básica e a despeito de sua vilania, de sua curiosidade intelectual e capacidades, nada em sua constituição indica que eles serão maus.

Agora veja o caso de Prometheus, onde a personagem de Charlize Theron, Meredith Vickers, é interpelada pelo personagem de Idris Elba, Janek, sobre ela ser ou não um robô. Ela lhe diz: "meu quarto, em dez minutos". Sexo é a única maneira que se tem de provar que ela é uma mulher de verdade? Ash precisou transar com o capitão Dallas em O Oitavo Passageiro? Sabemos a resposta. Pris é uma androide, um modelo de prazer básico, cansada da opressão, enquanto Roy Batty e Leon lutam para poderem sobreviver além de sua programação. Por que é justo ela a projetada para sexo?

Samantha, em Her, talvez seja um exemplo ainda mais bizarro. Se a voz da inteligência artificial fosse a do Idris Elba, haveria um envolvimento romântico? Ou a IA e Joaquin Phoenix entrariam em grandes discussões filosóficas, assistiriam ao futebol juntos, um amigo apoiando o outro num momento de fossa? Mas nós sabemos que a voz quente e rouca da IA é de Scarlett Johansson e sabemos que logo ele se apaixona por aquela mulher perfeita, com resposta para tudo, incorpórea e inalcançável.

Ou seja: robôs masculinos sempre possuem um objetivo, uma meta a se alcançar, um momento de percepção intelectual e, embora as robôs femininas possam ter as mesmas aspirações, elas sempre são retratadas de maneira sensual, como máquinas de sexo incapazes de enganar um ser humano a não ser pela sensualidade e pelo apelo sexual que carregam. Duvida? Como que a T-X engana o policial que a parou no acostamento? Ela aumenta o tamanho dos seios. Ava faz Caleb se apaixonar por ela e até a propaganda do filme Ex Machina criou um perfil no Tinder para Ava.


A forma como esses robôs femininos são retratados na ficção é uma maneira de Hollywood demonstrar o que alguns homens acreditam que uma mulher seja: que não somos seres humanos, ou totalmente seres humanos. Que mulher deve sempre refletir os gostos do homem que está ao seu lado. A prova disso é como uma parte da audiência masculina reagiu quando Ava deixa Caleb para trás e parte para conquistar o mundo - "não se pode confiar nessas vadias" - por que como que ela ousou abandonar o rapaz loirinho e bonzinho que a ajudou a escapar? Robôs mais sofisticados, que levantem questões filosóficas profundas e perturbadoras são sempre masculinos. E enquanto Nathan faz uma grande discussão sobre inteligência artificial, robótica e até gênero e sexualidade, essas mesmas questões não são levantadas por Ava, que apenas conquista Caleb e o usa para fugir.

Segundo Kathleen Richardson, pesquisadora sênior de ética e robótica da Universidade De Montfort, no Reino Unido:

Mulheres, quaisquer que sejam suas qualidades - inteligência, vulnerabilidade, força - são sempre apresentadas de maneira atraente, como se o pacote só pudesse ser entregue ao expectador desta forma. A inteligência masculina, força, vulnerabilidades, etc., podem ser entregues em múltiplas e variadas formas, independente de sua aparência.

Tanto sabemos que Ava foi criada de maneira a conquistar Caleb que Nathan a programou com "partes íntimas" e avisa que ela poderia ter relações sexuais com qualquer sujeito. De alguma maneira, Nathan programou gênero em Ava, dizendo que seres humanos não podem escapar de ter um ou de se identificar com os dois, mas ignorou o fato de ter pessoas que podem não querer se identificar com nenhum deles. Pessoalmente acho bizarro robôs masculinos e femininos. O ser humano tenta criar vida artificial da mesma maneira que a Bíblia conta que Deus criou os seres humanos "à sua forma e semelhança". Um complexo divino que vai servir apenas para reforçar preconceito e exclusão, sem contar a desumanização, como no caso da bonecas que simulam estupro.

Caleb: o herói?
O filme foi feito para acompanharmos a visão de Caleb. Ele tem aquele ar de garotinho vulnerável e desamparado, como corroborado por sua história, loirinho e de olhos azuis, branco. Ele quer de todas as maneiras impressionar seu herói, Nathan, mas percebe algum tempo depois as manipulações do chefe, sem perceber que está sendo manipulado por Ava, por quem começa a nutrir um sentimento protetor, apaixonado. Enquanto luta para entender a robô, ele acaba descobrindo que Nathan foi para o meio do nada criar inteligências artificiais - que ele julga que seja algo "inevitável" - e as transforma em escravas sexuais, visível na figura de Kyoko e no armário repleto de partes femininas.

Caleb fica chocado, certo? Ele observa as partes de diversas robôs num armário, testemunha a forma como Nathan trata Kyoko e até nega uma investida sexual dela, pois essa é sua programação, ela era submetida a isso o tempo todo por Nathan. Ainda assim, Caleb fica ainda mais desesperado para salvar todas as robôs da casa? Não, ele se preocupa apenas com Ava, uma composição baseada no histórico de navegação em sites pornográficos do próprio Caleb. No fim, ele está disposto a salvar seu interesse romântico e não a escrava sexual japonesa de Nathan. Entra aqui também o já batido estereótipo de hipersexualizar mulheres asiáticas.

Quando ela foge sem ele e ele se desespera, trancado na casa, muitos caras ficaram indignados com a cena. Ele foi um sujeito tããão legal com Ava, fez o que fez, esteve ao lado dela e descobriu as perversidades de Nathan, como ela pode fugir e deixá-lo lá? Aquele moço tão inocente e indefeso? Entramos aqui também em um componente racista, pois a beleza angelical de Caleb é contrastada por um Jason Isaacs de barba, careca, marombado, alguém com quem temos dificuldade de simpatizar, em um efeito semelhante ao que aconteceu com Rue, em Jogos Vorazes, onde muita gente não teve pena da personagem só por ela ser negra. Ava estava liberta, mas e Kyoko?


Se olharmos com cuidado, veremos que Caleb e Nathan estão praticamente no mesmo nível. Nathan criou todas aquelas escravas sexuais que não conseguem amá-lo. Ele as programa para serem suas escravas, mas não pode receber amor delas, não pode controlar como elas se sentem. Ele quer o que muitos caras querem, a sexualidade feminina numa caixa que caiba nos desejos dele. Isso é uma parte do alcoolismo de Nathan, que tenta compensar com o exercício no dia seguinte, para curar a ressaca. Do outro lado do espectro, temos Caleb, que parece ser aquele sujeito bacana, que quer o fim da opressão dos robôs, mas ele na verdade quer Ava, quer sua sexualidade em sua caixa pessoal - já que ela foi criada a partir das expectativas eróticas dele. Os dois estão desumanizando Ava, não apenas Nathan.

Se o filme fosse pela perspectiva de Ava e não dos dois sujeitos, a forma como a desumanização daquelas robôs foi apresentada seria diferente. Ela nem tem um corpo completo, ele é parte transparente, uma ninfa robótica, sem roupa, de maneira a iludir nudez completa enquanto interage com os homens do filme. Assim que ela tomou consciência, tudo o que ela conhece do mundo lhe é inacessível, tendo Nathan e outra robô escrava como companhia. Ela teria qualquer razão para se apaixonar por Caleb? Sabendo que aquele deveria ser mais um dos joguinhos de Nathan? Como é que alguém espera que ela fique com Caleb no final? Porque é assim que muitos caras agem: achando que se for legal com uma mulher, ela lhe abrirá as pernas automaticamente. Ela fez a única coisa que lhe era lógica naquele momento, Ava tranca Caleb e vai embora.

Percepção
É preciso dizer que o filme é muito neutro na forma como construiu os personagens. Nenhum deles ali é tão vilão, tão bom ou mau caráter a ponto de você não gostar dele. Mas é notório ver como muitos caras se condoeram de Caleb. Alguns defendem até a mente brilhante de Nathan. E Ava e Kyoko? Por que tão poucas pessoas acabaram não tendo por elas a mesma empatia que o pobre rapaz loirinho abandonado teve?

Ava queria ser vista como uma mulher e não como um robô. É por isso que ela veste a pele, a peruca, o vestido, os sapatos. Caleb jamais a veria como algo além de seus próprios sonhos eróticos e Ava sabia disso, pois era mais uma maquinação de Nathan. Ela quer que o mundo a enxergue pelo o que ela é, que veja seus sentimentos e sua forma de ver o mundo, que é a única coisa que lhe importa. É um requisito básico para você ser uma pessoa, que lhe foi negado por muito tempo.


Quando nós pedimos por uma maior representatividade no cinema, nos livros, nos quadrinhos, nas séries, é porque queremos ser representadas como seres humanos. Os caras estão bem habituados a terem seus heróis, em quem podem se inspirar e até fazer cosplay, mas eles dificilmente farão um cosplay de Hermione. O imenso preconceito dos caras com as Caça-Fantasmas ilustra bem isso e o próprio Paul Fieg comentou na época do lançamento que os caras tiveram poucos exemplos femininos, por isso se sentiam incapazes de se identificar com personagens femininas.

É por isso também que os sujeitos incomodados com o abandono de Caleb não conseguiram entender o sofrimento de Ava. Como vemos o filme pela lente de Caleb, nós nos colocamos automaticamente em seu lugar. Até mesmo nós mulheres somos condicionadas a ver o mundo pelo olhar do protagonista, quando na verdade estamos sempre no lugar de Ava, condicionada e encaixotada em um mundo de regras e percepções masculinas. A melhor parte do filme é mostrar como muitos homens não enxergam mulheres como gente, como seres humanos, acreditando que Ava deveria ter ficado com Caleb só porque ele fez o que qualquer ser humano decente deveria ter feito, que era libertar um ser consciente da opressão e escravidão. Nem isso ele conseguiu, pois nem por um momento ele pensou em Kyoko.

Já a pior parte do filme é justamente ter mulher robô sexualizada que se vale da enganação e da sedução para conseguir escapar, e nesse sentido ele não é diferente de nenhum outro filme que mostrou mulheres sexualizadas e robóticas. Se fosse o contrário, uma poderosa cientista, uma moça angelical e um robô encaixotado lutando para ser visto e compreendido, todo mundo ficaria condoído por ele e ele dificilmente seria sexualizado.

Outro ponto negativo: nem a própria Ava se preocupa com Kyoko. Ou com todas aquelas partes de robôs no armário. Tal como uma necromante, ela pega as partes que lhe interessam. Ela queria ser vista como uma mulher e então se vale do cabelo comprido, salto alto com plataforma, vestido justo, usando os sinais de feminilidade que nossa sociedade tanto explora. Sororidade entre robôs pelo visto não funciona, pois ela vai embora sem olhar para trás. Seu corpo é uma personificação egoísta de um carro novo que um cara acabou de adquirir e não o corpo de uma mulher real com a qual ele poderia se relacionar, com cheiros, pelos, texturas, fluídos com os quais ele dificilmente se identifica.

Além disso, é também um filme heteossexista até o talo. Nathan diz que programou gênero em Ava. É algo que os seres humanos em geral têm, então por que tirar isso de um robô? O diretor, o roteirista, os personagens esqueceram de um detalhe: eles não estão TIRANDO do robô o que quer que seja, eles estão ATRIBUINDO uma sexualidade pré-programada. A polêmica afirmação de Simone de Beauvoir que tanta gente deu piti em uma prova do ENEM fala exatamente disso: você não nasce mulher, você se torna, porque seguimos um código de conduta estabelecido pelas relações sociais. Por que o robô não pode construir seu gênero e sua sexualidade com o relacionamento com seres humanos, como nós fazemos?

Literalmente sendo mulheres objetificadas, as robôs femininas são, tradicionalmente, veículos para as piores tendências masculinas.

Steve Rose

E finalizando, a análise do filme feita pelo Huffington Post é bem pertinente: se Ava tinha acesso ao conhecimento humano na internet e pelas buscas dos usuários, ela escolheu interpretar uma mulher por quê? Coloque no Google "mulher morta..." e espere os resultados. E se tiver coragem, veja as imagens também. Ou seja, a construção dela é falha e previsível. E mesmo com as discussões inteligentes sobre inteligência artificial, gênero, tecnologia, o filme peca por trazer até nós o mais do mesmo na discussão, com robôs nuas e sexualizadas que também são mais do mesmo.

Até mais.

Leia mais:
‘Ex Machina’: Scavenging for Parts in a Patriarchal World - Bitch Flicks
‘Ex Machina’s Failure to Be Radical: Or How Ava Is the Anti-thesis of a Feminist Cyborg - Bitch Flicks
10 Reasons Why “Ex Machina” Could Have Been a Masterpiece But It Is Not - Taste of Cinema
Ex Machina: a (white) feminist parable for our time - Women Write About Comics
EX MACHINA And The Art Of Character Identification - Birth Movies Death
‘Ex Machina’ Review: Gorgeous Futurism, But Flawed Gender Depictions - Huffington Post
Ex Machina Has a Serious Fembot Problem - Wired
Ex Machina and sci-fi's obsession with sexy female robots - The Guardian
A Cyborg Manifesto: Science, Technology, and Socialist-Feminism in the Late Twentieth Century - Donna Haraway

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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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6 comentários

  1. Fora que a Ava encarava o Caleb como uma ameaça direta a ela, porque ele era um excelente programador na empresa do Nathan.

    Excelente texto, como sempre :D

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  2. Aliás, gostaria de saber sua opinião sobre o livro Os Despossuídos.
    Apesar de ser escrito por uma mulher, e retratando uma sociedade anarquista, há uma passagem sobre o conhecimento da sexualidade que mantém essa mesma coisa "a mulher é sempre proprietária, porque ela quer tomar o homem pelo sexo", algo assim.

    Uma resenha sua sobre o livro seria muito boa!!!

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  3. Na TV tinha a Number 6 (e todas as outras robôs, na verdade), de Battlestar Galactica (2000). Todas reunindo os piores estereótipos que, coincidentemente, não se aplicavam aos robôs cylons masculinos...

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  4. Não havia me tocado sobre a visão o olhar machista a que estava relacionado ao filme e que eu concordava. Obrigado por se ter dado o trabalho de esclarecer.
    Agora tenho pensado essa falsa naturalidade de gêneros em robôs.

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  5. O grito que eu dei no fim do filme quando a Ava larga o Caleb para trás HAHAHAHAHAH Desde o começo desconfiei daquela cara de cachorro abandonado dele. Adorei o seu texto, me senti representada

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