Anna May Wong: a luta contra as personagens estereotipadas no cinema

segunda-feira, novembro 06, 2017

Uma das coisas que eu mais ouço quando falo da luta por uma melhor representatividade de grupos minoritários na televisão, no cinema, nos livros, nos quadrinhos, é que isso é "mimimi", que é "modinha", coisa que surgiu recentemente por gente "da esquerda", "comunistas", "desocupados", "antes não tinha isso" e a lista continua ad infinitum. Pois então vamos resgatar a memória de uma das grandes atrizes da era de ouro do cinema: Anna May Wong.

Anna May Wong: a luta contra as personagens estereotipadas no cinema



Anna May Wong é o nome artístico de Wong Liu Tsong, a segunda geração de norte-americanos descendente de chineses. Sofria bullying na escola quando criança por ser chinesa, junto de crianças mexicanas, irlandesas e japonesas. Foi por volta dessa época que Anna se encantou pelo cinema. A indústria começava a migrar da costa leste do país para a costa oeste e era comum a família ver cenas sendo gravadas nas ruas do bairro. Já aos 9 anos, a pequena Anna era vista nos sets implorando para os produtores lhe darem papéis. Aos 10 anos, ela cunhou seu nome artístico. Quando tinha entre 17-18 anos, largou o ensino médio para procurar papéis na indústria. Mas sua família não via com bons olhos a carreira artística, pois havia um estereótipo muito negativo a respeito, especialmente para as mulheres.

Infelizmente, Anna não conseguia grandes papéis ou indicações. Trabalhava em uma loja de departamentos quando soube que a MGM precisava de figurantes para o filme The Red Lantern (1919). E sem seu pai saber, um dos amigos de Anna conseguiu indicá-la para a produção. Depois desse filme, ela trabalharia em várias produções sempre como figurante. Aos 17 anos, teve sua primeira protagonista no filme The Toll of the Sea (1922), vagamente baseado em Madama Butterfly. Anna foi extremamente elogiada pela crítica por esse papel, mas os produtores relutavam em lhe dar outros papéis de destaque.

Anna recebia papéis extremamente estereotipados, "exóticos". Por ter ascendência chinesa, os produtores acreditavam que ela não teria apelo com o público se fosse protagonista ou par romântico. Nos anos seguintes, ela só receberia papéis secundários, que forneciam um de exotismo à trama, em geral de dançarina ou prostituta, com forte apelo sensual. Ainda assim, Anna enriqueceu, tirou a família do subúrbio e chegou a abrir sua própria produtora, pois sabia que nunca seria aceita como totalmente norte-americana, nascida e criada na Califórnia. Ela sempre seria "a estrangeira". Infelizmente o sócio infringiu leis fiscais, foi processado e a produtora acabou fechando.

Havia um segundo problema para Anna: leis anti-miscigenação proibiam beijos entre pessoas de etnias diferentes. Assim ela nunca seria escolhida para um papel de par romântico se o ator fosse branco. A menos que homens asiáticos também fossem protagonistas, Anna teria que se contentar com os mesmos papéis bobos que acabaram por estagnar sua carreira. Todos os papéis "exóticos" caíam nas suas mãos, de prostitutas chinesas a indígenas e esquimós, tanto que ela foi a Princesa Tigrinha da versão de Peter Pan de 1924.

A verdadeira gota d'água para Anna foi com a adaptação do livro The Good Earth, de Pearl S. Buck, ganhador do Prêmio Pulitzer. O livro e o filme retratam a vida de uma típica família chinesa em uma época de grandes mudanças políticas e sociais no país. A MGM decidiu adaptar o livro para o cinema em 1935 e qual não foi a surpresa quando eles escolheram a atriz Luise Rainer, branca, para o papel principal? Aliás, todo o elenco principal do longa é composto por atores brancos maquiados para parecerem chineses. Os figurantes são asiáticos.

Paul Muni e Luise Rainer - The Good Earth 1937 | MGM

Assim, Anna largou a carreira nos Estados Unidos e se mudou para a Europa. Fez aulas para treinar pronúncia e vocalização, aprendeu alemão, atuou nos palcos britânicos, fez filmes mudos, falados e foi protagonista de diversas produções de sucesso no velho continente. Sua amizade com Marlene Dietrich logo lhe rendeu todo o tipo de boatos, inclusive o de que seria lésbica e as especulações sobre sua sexualidade envergonharam a família, que já não considerava sua carreira de atriz algo respeitável.

Curiosamente, foi sua atuação na Europa que chamou a atenção dos estúdios norte-americanos e ela retornou, acreditando que agora sim conseguiria melhores personagens em uma indústria que não parava de crescer. Na Broadway ela ganhou o papel de protagonista na peça On the Spot, mas quando o diretor pediu que ela usasse os maneirismos estereotipados comuns no cinema para personagens asiáticos, Anna se recusou veementemente e disse que usaria seu conhecimento da cultura chinesa para dar mais autenticidade à personagem.

Ela também esteve na China, a fim de conhecer a vila de onde seus bisavós vieram, aprender mais sobre a herança cultural e o teatro tradicional chinês. Por volta dessa época, Anna era um ícone de moda, criticada e elogiada por todos, até pelo governo chinês. No final dos anos 1930, ela fez vários filmes para a Paramount que fizeram com o que público tivesse uma visão boa da população asiática em si, já que não eram os papéis típicos que Anna se cansou de fazer.

Estava esgotada com os papéis que eu tinha. Havia pouco para mim em Hollywood, porque ao invés de chineses, os produtores preferem húngaros, mexicanos, americanos e indianos para interpretar personagens chineses.

Anna May Wong

Anna começou a atuar quando a indústria estava começando. E de 1910 em diante o que mudou? Nada. Já em 1933, em uma entrevista, Anna reclamou sobre os papéis de chineses no cinema: eram sempre de vilões e trapaceiros, mulheres sensuais, fatais e prostitutas, ou alívio cômico. Anna foi além, atestando que uma civilização muito mais antiga que o Ocidente merecia uma melhor representação nas telas.

Se hoje as pessoas falam que é "modinha", que não passa de "mimimi do politicamente correto", isso mostra que elas nunca se importaram com a forma como grupos minoritários foram retratados. Pois a reclamação sempre existiu, os problemas estão aí desde que a indústria começou. A relutância em colocar negros, mulheres, asiáticos entre outros grupos em protagonismos corriqueiros não é de hoje. E a luta para isso acabar também não.

Agora que nós temos o alcance do mundo à distância do clique, que todos esses grupos rechaçados, que sempre lutaram para que suas vozes fossem ouvidas, conseguiram audiência e espaço na rede para discutir os problemas, eles também conseguiram chamar a atenção. Anna foi uma das primeiras, mas certamente não será a última a lutar por mais reconhecimento na carreira.


Até mais!

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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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2 comentários

  1. Muito estarrecedor saber que pouco mudou até aqui, mas é importante que tragamos a memória de pessoas como Anna para não esmorecermos è sempre cobrar dignidade. São as lembranças que nos fazer ter força para continuarmos. E parabéns Sybylla pelo trabalho de resgate.

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    1. Obrigada, Marcus! Fico muito feliz com seus comentários!

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