Resenha: O Fim do Homem Soviético, de Svetlana Aleksiévitch

quarta-feira, setembro 06, 2017

Ler este livro foi muito difícil e demorado. E não é por ser ruim, ao contrário, o livro é incrível. Mas é a profundidade dos relatos recolhidos por Svetlana que são difíceis de ler. Doloridos, cheios de sentimento e memória, é ter em primeira mão as vidas de dezenas de pessoas que tiveram suas vidas transformadas com o fim do regime soviético, com a abertura econômica e a chegada da tão propagada liberdade à Rússia que atordoou muita gente naqueles confusos anos.



Este livro foi uma cortesia da Cia das Letras


O livro

Você acha que o país desmoronou porque todos descobriram a verdade sobre o gulag? Quem pensa assim são os que escrevem livros. Mas as pessoas... as pessoas normais não vivem da história, elas vivem de um jeito simples: apaixonar-se, casar-se, ter filhos. Construir uma casa.

Página 74

O regime soviético de 70 anos criou um tipo muito específico de cidadão: o Homo sovieticus. A narrativa de todas essas décadas costuma estar registrada nos livros de história sem a pessoalidade, sem o sentimento humano, fatos frios narrados de forma a mostrar as decisões políticas e os eventos. Não devemos esquecer, por sua vez, que existem pessoas em cada grande evento da humanidade e que, normalmente, têm suas histórias individuais desconhecidas. Imagine você poder pegar um livro que trouxesse os sentimentos, memórias e o dia a dia do reinado de Ramsés II? Ou de Elizabeth I? É isso o que Svetlana faz, resgata essas vozes, em geral silenciadas, para compor uma narrativa histórica.

O Fim do Homem Soviético, de Svetlana Aleksiévitch

Svetlana concentra-se nas gerações que acompanharam Stalin, Khruschóv, Brejnev e Gorbachev, narrando a ascensão e queda da União Soviética através dos relatos pessoais. As pessoas contam como foram criadas, como eram ensinadas a adorar o comunismo e como eram orgulhosos de seu grandioso passado. Porém, o encantamento subitamente se parte com a abertura política - Perestroika e Glasnost - mal conduzida, que levou sofrimento à Rússia e aos países do antigo bloco soviético.

Muitas passagens são dolorosas, como a lembrança de uniformes, quepes e medalhas de guerra e de honra, sendo vendidas a preço de banana nas banquinhas para os turistas, que chegaram aos milhares com a abertura econômica. Svetlana também é uma dessas crias do sistema soviético, que ao crescer começou a questionar o que via, mas que também não estava preparada para o que viria. Esse livro guarda um tom bem mais pessoal que o A Guerra Não Tem Rosto de Mulher, por exemplo. É como se autora buscasse entender a si própria através da narrativa dos outros sobre o bloco onde cresceu.

Eu nasci soviética... Nossa avó não acreditava em Deus, mas acreditava no comunismo. Nosso pai esperou até o fim da vida a volta do socialismo. Já tinha caído o muro de Berlim, a União Soviética tinha desmoronado, e ele mesmo assim continuou esperando. Brigava constantemente com o melhor amigo, quando ele chamava a bandeira de trapo vermelho. Nossa bandeira vermelha! Escarlate!

Página 63

Este é um livro para os desiludidos com o sistema, para os humilhados e ofendidos botarem em palavras como foram aqueles dias em que sua identidade se perdeu. E é um livro de extrema importância para o momento atual em que pessoas confundem uma homenagem à imigração japonesa para o Brasil com um monumento comunista. É uma aula de história contada por dezenas de vozes que estavam inseridas na União Soviética e de repente acordam na Rússia, sem saber mais como viver. Pense nisso. Pense como ficaria sua vida depois de 70 anos de um duro regime. E pense como seria acordar sob um novo sistema sem nunca ter vivido isso. As narrativas vívidas lhe darão essa sensação de atordoamento.

O livro é dividido em duas partes: a primeira abrange os anos de 1991 a 2001 e a segunda vai de 2001 a 2012. Acho que as palavras que definem melhor essas duas partes são desencanto e resignação. Os relatos relembram os tempos de glória, contrastados com o fim do Partido Comunista, com o começo de um regime desconhecido, a revolta com as medidas políticas que levaram o regime ao fim. Os livros de história contam uma chegada muito ansiada pelo sistema capitalista, mas pelas ruas de Moscou as coisas foram bem diferentes.

Faço uma crítica ao título. Homem como sinônimo de humanidade vem caindo em desuso. O livro fala do fim do povo soviético e esse poderia ser o título do livro, sem alterar em nada seu conteúdo. É uma palavra que acaba sendo excludente ao invés de incluir todas as pessoas.

Obra e realidade
Este é um momento histórico bem estranho. As redes sociais estão repletas de especialistas em história que pelo visto nunca abriram um livro didático, nunca estiveram em uma biblioteca ou zeraram as disciplinas de geografia e história, pois professam que a Terra é plana e que Hitler era de esquerda. Essas pessoas precisavam ler livros com os de Svetlana e quem sabe aprender algo no processo. É um livro que conseguiu juntar memória, emoção e história. Fica difícil não se emocionar com as passagens narradas por pessoas que perderam a vida, perderam parentes, perderam a esperança, que viram seu tempo ruir e seu dinheiro desvalorizar a ponto de ter que vender relíquias de guerra. Há muito que se aprender nestas palavras.

Svetlana Aleksiévitch
Svetlana Aleksiévitch

Não canso de me surpreender com o quão interessante é a vida humana comum.

Svetlana Aleksiévitch

Pontos positivos
Relatos vívidos e pessoais
Bem pesquisado e escrito
Análises sobre história recente
Pontos negativos

Violência
Título

Título: O Fim do Homem Soviético
Título original em russo: Время секонд хэнд
Autora: Svetlana Aleksiévitch
Tradutor: Lucas Simone
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 594
Ano de lançamento: 2016
Onde comprar: Amazon

Avaliação do MS?
Svetlana não perguntava sobre política, ela queria memórias. Sentimentos, emoções. Mas essas memórias estão entrelaçadas à política da época em que as pessoas viveram. Então, mesmo sem abordar a política, este é um livro político por excelência, mas contado do ponto de vista das pessoas. O desencanto, as pessoas sem saber o que fazer no novo sistema, a resignação e a descoberta dos crimes, a falta da comida, de remédios, de empregos e de perspectiva. Svetlana conseguiu também compreender um pouco sobre si e sobre o mundo novo que ela viu nascer, ainda que falho. Um livro obrigatório para você ler.

Até mais!

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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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1 comentários

  1. Svetlana, junto com a Patti Smith, são duas escritoras que descobrir recentemente e já são minhas favoritas. As duas me marcam demais e me fazem "viver" os livros de uma forma diferente, muito mais intensa. Inclusive, quando as leio, é só elas, e depois ainga fico um tempo sem ler nada, só revivendo o livre na cabeça. :-)

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