A livre sexualidade das mulheres em Star Trek

segunda-feira, agosto 28, 2017

Poucas coisas são mais notáveis em Star Trek do que a liberdade das mulheres. Elas podem ser almirantes, capitãs, médicas, psicólogas, oficiais de ciências, chefes de engenharia, guerrilheiras, botânicas, podem ser o que quiserem ser. Além disso, outra área em que são livres é no quesito sexualidade. Elas podem se relacionar com quem quiserem sem serem julgadas por isso, ou ofendidas. Apesar das relações, basicamente, terem se mantido no espectro da heterossexualidade, já é um notório avanço para um mundo que julga as mulheres de acordo com o número de parceiros que ela teve.




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O corpo da mulher como uma extensão do corpo masculino foi um mito comum e que esteve presente em várias áreas do saber. Até o final do século XIX, vindo desde a Grécia Antiga, a histeria era considerada uma doença exclusiva das mulheres, tendo origem na própria palavra grega para útero, “hystéra”. Até o século XX, histeria era tratada de maneira cirúrgica, com remoção do útero, remédios e massagem clitoriana feita por médicos. Como o orgasmo feminino era desconhecido, a massagem nada mais era que uma masturbação.

Muitos mitos ainda são disseminados sobre o funcionamento do corpo da mulher e sua sexualidade. Mitos esses que tornam miseráveis as vidas de muitas mulheres, que acabam em consultórios médicos. O controle sobre o corpo feminino através de mitos, desinformação e desconhecimento do próprio corpo é uma eficaz ferramenta de controle social. É a partir do momento em que a mulher é vista como uma agente e sujeito de prazer sexual, não apenas um apêndice do prazer masculino, que a sexologia começou a avançar e, aliada ao movimento feminista, muitas mulheres passaram a conhecer seu próprio corpo e seu próprio prazer.

Os anos 1960 marcam um importante momento para movimentos de direitos civis e feministas e nesse balde de efervescência política surge o conceito de uma sociedade livre, onde as pessoas têm acesso a todas as oportunidades para que você possa ser o que quiser: Star Trek. Homens e mulheres, negros e brancos, não importa a sexualidade, o gênero, a etnia, há oportunidades para todos. E se mulheres podem ser o que quiserem, elas podem exercer sua sexualidade sem que isso seja um gradiente de valor de seu caráter.

A Conselheira Troi e a Dra. Crusher, por exemplo, mantiveram relacionamentos saudáveis, às vezes até ocasionais com tripulantes e visitantes dentro da Enterprise e nunca houve uma reprimenda a respeito. Quando B'Ellana Torres e Tom Paris, na Voyager, engataram um relacionamento, a preocupação da capitã Janeway era com suas obrigações com seus postos e com a nave. Não há uma preocupação se os romances e as relações ocasionais são "coisas de mulher direita". Ninguém questiona como elas usam seu tempo, com quem se relacionam, já que isso não é da conta de ninguém. O único momento em que há uma interferência de alguém é quando Troi está em um relacionamento que poderíamos considerar abusivo, quando um diplomata a usa como um depósito para seus sentimentos negativos. Riker interfere ao perceber seu estado, mas não por ela estar se relacionando com alguém. Aliás, o próprio relacionamento de Troi e Riker pode ser considerado um relacionamento aberto, onde não há possessividade ou ciúmes da parte dos dois.

O melhor exemplo de liberdade feminina e livre exercício de sexualidade nas séries de Star Trek é justamente a mãe de Deanna Troi, Lwaxana. Quando a Nova Geração estreou, em 1987, Majel Barrett Roddenbery, considerada a primeira-dama da franquia, tinha 55 anos. Mesmo hoje em dia é difícil ver boas representações de mulheres acima de 50 anos namorando, tendo relacionamentos amorosos, casando e sendo úteis em sua sociedade, família ou governo. Para 1987, era um ato ainda mais revolucionário. Lwaxana flerta abertamente e não tem preconceitos, quando Odo entra em seu radar romântico, resultando em um dos mais legais episódios da embaixadora Troi em Deep Space Nine.

Lwaxana também se rebela quando tentam colocá-la em moldes rígidos, no episódio "Cost of Living", da quinta temporada. Quando seu futuro marido, a quem ela nunca viu pessoalmente, apenas por perfil eletrônico, diz que ela não poderá casar-se nua, como segue a tradição de Betazed, é sua filha, Deanna, que parece não reconhecer a mãe, que parece concordar com o que ele diz. Só depois Lwaxana admite se sentir sozinha e que por isso estava quase abrindo mão de ser quem era. E aparece nua na cerimônia, como era a tradição.

Outra personagem que se relaciona livremente é Kira Nerys, em DS9. Sua competência, sua inteligência, sua capacidade de trabalhar na estação nunca foram questionadas devido aos seus relacionamentos com Vedek Bareil, Shakaar ou Odo. E quanto ao amor de Dax por Khan superar os gêneros e sexualidades de seus hospedeiros, Jadzia e Lenara, impedidas de manterem um relacionamento por tabus do mundo trill. Aqui o preconceito é com o simbionte, que não deve repetir relacionamentos passados com novos hospedeiros e não a sexualidade deles.

E se você não quiser se relacionar com ninguém, tudo bem. A capitã Janeway, até mesmo por sua posição de liderança e de oficial de maior patente da Voyager, a despeito de qualquer sentimento que tenha, não mantém nenhum relacionamento amoroso nos sete anos da viagem. Sua energia está direcionada para a volta para casa, em levar a Voyager de volta para casa. E mesmo quando ela paquera, nunca fica em questão se ela perderá o controle da nave por isso ou por conta do noivo que ficou no quadrante Alfa. Ninguém questiona se para ser capitã de uma nave estelar, ela precisou fazer teste de sofá. Ela é competente para o cargo e pronto. Percebe a diferença com a nossa realidade?

É uma pena que o século XXIV esteja tão longe da nossa realidade e do nosso tempo, que julga mulheres por seus relacionamentos, por suas roupas, por envelhecer, por tomar a iniciativa, por transar. A mudança que ocorreu na mentalidade humana para chegar ao mundo de Star Trek é mais que necessária.

Vida longa e próspera! 🖖

Leia mais:
The Surprisingly Progressive Sexuality Of STAR TREK: THE NEXT GENERATION’s Female Characters - BMD
Por que a sexualidade da mulher é tratada como questão de saúde? - Azmina

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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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1 comentários

  1. Parabens pelo post! Adorei os exemplos citados, principalmente o da Lwaxana e do debate sobre a sexualidade na maturidade, eu gosto muito desse tema que a personagem traz. E a Janeway, né? Excelente exemplo de uma mulher forte na trama que não precisa e não quer se envolver com ninguém.

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