The Doctor e os modelos para todas nós

quinta-feira, julho 27, 2017

Assim que a BBC anunciou que o doutor, em Dr. Who, seria interpretado por uma mulher, a internet explodiu. Uma parte de extrema alegria com a novidade, após 12 atores interpretando o alienígena, mas de muita gente reclamando do "politicamente correto", e até se preocupando com o modelo que uma mulher como Doutor passaria aos meninos. Se o fato de um menino não conseguir se inspirar numa protagonista feminina não mostrar a misoginia que existe nesse mundo, não sei o que mais pode mostrar.




Sempre que entra uma mulher para protagonizar alguma personagem que fora interpretada anteriormente por homens que brotam da terra os caras para reclamar do "politicamente correto". Para eles, o gênero, a cor, a orientação sexual de um personagem não importam, ATÉ QUE ela seja mudada. Aí começa o choro. Quando anunciaram o time feminino de Caça-Fantasmas, o choro foi idêntico. "Vocês já têm a Mulher Maravilha, vocês já têm as princesas da Disney, pra que vocês querem ser Caça-Fantasmas?" Mesma coisa com o anúncio de Jodie Whittaker no papel do lendário Doctor. Teve cara reclamando que os meninos agora não teriam mais modelos para se espelhar.

Quando eu era criança, sempre que me davam presentes "de menina", como ursinhos de pelúcia ou bonecas em forma de bebês eu abria o berreiro. Eu já tinha minhas bonecas e tal, mas os brinquedos "dos meninos" sempre eram mais legais e faziam mais coisas que os meus. Fiz um escândalo uma vez porque o garoto ganhou um cavalo futurista movido à pilha e eu ganhei um ursinho azul. Eu queria brincar de LEGO e Playmobil, queria blocos de montar, kits de química e quebra-cabeças e ouvi que isso "era coisa de menino". Quando eu quis ser uma Caça-Fantasma, o vizinho mimado me deu um esporro, dizendo que eu tinha que ser só a fantasma para ele caçar.

As meninas cresceram vendo grandes heróis e princesas e personagens secundárias muitas vezes delicadas e servis. Elas conseguem fazer um risco na testa e se vestir de Harry Potter, mas os meninos dificilmente vão se vestir de Luna Lovegood, ou de Hermione Granger. Até para a indústria as personagens femininas têm menos importância, basta ver a ausência de brinquedos da Rey, de Star Wars, no lançamento do filme (e ela é a protagonista). Garotos são educados para ver os comportamentos tidos femininos como vergonhosos, coisas que eles não devem fazer. Todo homem adulto hoje deve ter tomado esporro por chorar, "pois isso é coisa de mulherzinha". Liev Schreiber levou o filho à San Diego Comic Con vestido de Arlequina e teve gente dizendo nas redes que o mundo estava acabando.

Os garotos se identificam com robôs, cães, fantasmas, vilões, mas têm dificuldade de encarar uma personagem feminina como alguém em se espelhar. Por que? Desde pequenos, eles são bombardeados com visões de mulheres que sirvam como decoração, muitas vezes apenas como par romântico, sexualizadas e de poder menor na trama. Eles aprendem que meninas são mais fracas, vulneráveis, que sempre precisam ser defendidas e que são melhores do que elas. Hoje estamos nos apropriando da frase "Você luta como uma garota!", especialmente com o lindo trabalho da Kaol Porfírio, mas ainda tem cara que encara essa frase como pejorativa e ofensiva.

Se um garoto cresce vendo mulheres dessa forma, como vai se identificar com uma grande protagonista? Há quem zombe da Mulher Maravilha, por ela acreditar no amor e que é assim que o mundo deve ser salvo. É justamente por razões como essa descritas acima que meninos precisam de protagonistas, mulheres em papéis de liderança, mulheres que mostrem que força não está restrita à força física, que sensibilidade não é algo errado e indesejado. Pois para você ser um herói, seu gênero não importa.

As qualidades que costumam ser associadas aos heróis são:

  • desprendimento - por se sacrificar por uma causa.
  • coragem - de enfrentar desafios, de superar opressão, de persistir quando todos desistem
  • força - e não precisa ser necessariamente física

A escritora Joanne Harris falou sobre a incapacidade de meninos de se identificarem com heroínas e o chorume correu solto no Twitter. Homens dizendo que eles já têm as mães para se identificar e se depois eles são machistas, bem... a culpa recai na mãe novamente. Eles falham em conseguir ver a importância de uma Doutora. Não conseguem enxergar qualidades em uma protagonista, pois entendem que as qualidades associadas às mulheres são menores, mais fracas, que mulheres são passivas e não agentes de ação.

Joanne então lembrou bem das mulheres curdas que enfrentam o Daesh. Das meninas paquistanesas e nigerianas que enfrentam terroristas para estudar. Isso não é coragem? Não é um ato de bravura você ser mulher em um mundo misógino, ser negro num mundo racista, ser trans* e travesti no mundo hetero-cisnormativo? Os Médicos Sem Fronteiras não estão repletos de médicos corajosos em áreas de conflito, áreas endêmicas, para tentar trazer conforto e saúde a milhares de pessoas carentes?

Heroísmo não está associado somente à figura do homem branco bombado de roupa colada que enfrenta nazistas. Se depois de 12 doutores as qualidades do personagem não são suficientemente conhecidas e admiradas, independente do gênero, então a pessoa provavelmente não entendeu a proposta. Coragem não é só partir para a porrada. Coragem é o que o anônimo fez na Praça da Paz Celestial em frente aos tanques de guerra. Coragem foi a Malala sair de casa todos os dias para estudar - um ato tão subversivo que atiraram em sua cabeça. Esses atos de coragem precisam ser celebrados e ensinados como modelos a serem seguidos.

É preciso desafiar o status quo da cultura pop justamente para abrir o leque de oportunidades. A escolha de Jodie foi conservadora no sentido de ser uma mulher branca e loira, mas já foi o suficiente para causar indignação. Imagine se fosse uma atriz negra ou paquistanesa? Não deveria haver escândalo, não deveria haver reclamação, apenas celebração da diversidade humana, de como o heroísmo pode vir em diversas maneiras. E esses modelos de bravura e desprendimento precisam ser reconhecidos e valorizados. Começando principalmente pelos elementos da cultura pop que possuem tanto poder entre nós.

Até mais!

Já que você chegou aqui...

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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2 comentários

  1. Quem reclama de uma mulher fazendo o papel de Doctor ainda não entendeu a essência de Doctor Who #sóacho.

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  2. A uns 6 anos atrás, eu estava jogando meu Xbox....enquanto minhas filhas estavam brincando com as amiguinhas em casa, correndo e gritando, para cima e para baixo.
    Nesse dia eu estava jogando Assassins Creed ( acho que era o Brothehood ), eu tinha acabou de zerar o jogo. O problema é que no final, tem uma Cutscene no qual o Desmond assassina a Lucy sem motivo nenhum..
    Eu lembro que ao ver essa cena, fiquei chocado, por não entender o motivo daquele assassinato. Mas o pior foi que, quando me dei por conta tinha umas 6 meninas atrás de mim vendo aquela cena. Pensei:
    - Pqp, fiz merda, não deveria ficar jogando isso enquanto elas estão acordadas.
    Desliguei a TV, e fui brincar com as meninas.
    Elas não falaram nada sobre o que tinham visto....
    Pensei:
    - Uffa, elas não entenderam nada.
    E vida que segue.
    Algumas semanas depois....
    Era uma noite de semana qualquer, eu já havia colocado minhas filhas para dormir. Na época, a esposa também já estava dormindo, e resolvi jogar um pouco.
    Estava jogando o modo história de Halo Reach, quando ao final de terminada fase, a personagem Kat-B320 é morta por um Snipper.. Lembro de ter ficado chocado com a morte dela.
    Mas o pior foi quando o eu ouvi a voz da minha filha, que havia acordado e estava atras de mim vendo aquela cena, me perguntou com voz triste e chorosa:
    - Pai, por que eles matam todas as mulheres nos jogos? ( ela havia lembrando daquela cena de Assassin Creed )
    Eu fiquei sem palavras e emocionado. Eu não sabia o que responder.
    Então eu peguei minha filha no colo e a levei para sua cama. Fui conversando com ela, dizendo que não sabia do por que as mulheres sempre morriam no games, mas que na vida real não era assim, e que eu iria protege-la e iria ensina-la a ser forte.
    Deite com ela na cama, e fiquei ao lado até que ela dormisse.
    Ainda hoje, não sei o que responder para minha filha, mas estou tentando cumprir com minha promessa.

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