Resenha: Mestre das Chamas, de Joe Hill

sexta-feira, julho 21, 2017

Um dos grandes mestres atuais do horror literário está de volta com um livro quente, se me permite a piada. Joe Hill nos trouxe um livro grande e repleto de personagens intrigantes, no melhor estilo Nosferatu, seu livro anterior, onde uma infecção está, literalmente, tornando o mundo uma pilha de cinzas.



Parceria Momentum Saga e
editora Arqueiro


O livro

Harper é uma enfermeira infantil, apaixonada por Mary Poppins e que vê o mundo se transformar por completo com uma terrível infecção causada por um fungo. Draco incendeia trycophyton infecta as pessoas, causando manchas tribais na pele e depois de alguns dias o doente entra em combustão, restando mais nada além de cinzas e muitas pessoas desesperadas. Harper decide ser voluntária no hospital local durante o pico da infecção, mas precisa ir para casa assim que ele pega fogo até os alicerces. Enquanto está de boa em casa com o marido, Jakob, ela descobre as primeiras manchas na pele.

Mestre das Chamas de Joe Hill

Tem muito personagem babaca para você odiar neste livro, mas nenhum deles será tão detestável, misógino, preconceituoso, canalha, egoísta, arrogante, metido e ridículo quanto Jakob. Sabe um cara que se gaba por ser mais inteligente que a esposa, por ser melhor que a maioria? Pois assim que Harper mostra os sinais da chamada Escama de Dragão, o nome que a infecção recebeu, ele faz o que muitos homens por aí fazem com suas esposas doentes: ele a abandona. Jakob logo mostra sua face ao abandonar uma mulher grávida e doente, xingando-a de todos os nomes que conhece, porque agora ele vai morrer por causa dela.

O livro tinha que se chamar Enfermeira Harper e não Mestre das Chamas, porque a história é sobre essa mulher grávida que precisa fazer escolhas muito difíceis enquanto o mundo pega fogo para poder sobreviver. Há momentos em que você vibra com a coragem de Harper, em outros você quer sacudi-la para fazê-la acordar para o óbvio. Ela foi muito bem construída, a ponto de querer amar e odiar a personagem ao mesmo tempo. E o fato de ser uma heroína grávida é fantástico, pois é uma mulher que por acaso está grávida, ela não é definida apenas pela futura maternidade. Percebe a diferença?

Tem duas infecções fora de controle. Uma delas é a Escama de Dragão. A outra é o pânico.

Página 197

Harper acaba sendo acolhida em uma colônia de doentes perto de sua casa, onde eles parecem ter a habilidade de controlar a infecção. Quem a busca é o Bombeiro, o tal Mestre das Chamas do título, que tem um relacionamento muito curioso com a Escama de Dragão. Uma vez inseridos na colônia adotamos o seu dia a dia, conhecemos seus componentes e todos os podres humanos que fedem com força em um apocalipse. Você terá personagens adoráveis, personagens que você quer encher de tapa, personagens odiosos, como o Homem de Marlboro, que tem um programa no rádio e adora se gabar de ter matado "guimbas", pessoas doentes.

Aqui aliás foi um ponto muito bem trabalhado por Joe Hill: o preconceito com os doentes. Qualquer grande epidemia acaba gerando medo, desconfiança, pânico, preconceito. Na epidemia de Ebola, alguns sobreviventes sofrem ainda com o preconceito, mesmo sem transmitir mais a doença. Pessoas com HIV, mesmo que estejam com níveis indetectáveis do vírus, são excluídas. Aqui não foi diferente. Existem bondes da cremação caçando doentes e quando o pânico se espalha tudo vira motivo. Todos os preconceitos acabam se elevando, misoginia, racismo.

Agora os problemas. Estou até agora tentando entender porque o livro é descomunalmente grande. Com quase 600 páginas e muito blábláblá, houve partes em que fiz leitura dinâmica e passei de olhos em partes que não eram essenciais. Quando um personagem começava a contar sua vida, eu já sabia que viriam dez páginas de contação de histórias. E isso é legal em um primeiro momento, mas Joe repete o padrão toda vez que alguém senta para falar de si mesmo. Chegou uma hora que eu passei de olhos, peguei a ideia principal e não fez diferença nenhuma na leitura saber todos aqueles detalhes.

A tradução ficou boa, mas peguei duas situações em que me pareceu que faltou revisão ou foi falha do autor. Uma personagem de cabelo raspado que nas páginas seguintes aparece acariciando as mechas do cabelo, e uma personagem que não partiria em uma missão, subitamente, aparecendo na cena seguinte. Encontrei alguns problemas pontuais de palavras repetidas e pontuação perto do final do livro.

Ficção e realidade

Um ponto muito importante levantado no livro é justamente o do preconceito. Assim como enredos com zumbis usam a figura do morto-vivo para criticar a sociedade atual e suas exclusões diárias, Joel Hill usou a Escama de Dragão para fazer o mesmo. Pessoas absolutamente comuns, pacatas, transformam-se em assassinos desprovidos de qualquer empatia quando o mundo se transforma. Pessoas que acreditavam não ter forças para lutar, que acreditavam depender apenas dos outros, conseguem sobreviver ao pior tirando forças de um lugar que desconhecia.

Existem muitas referências no livro, o próprio autor agradece a algumas pessoas no começo, como JK Rowling, Ray Bradbury e à sua mãe. Há referências à vontade sobre rock, musicais, Mary Poppins e literatura infantil. É bem legal tentar caçar algumas das referências pela leitura. O título em inglês, The Fireman, faz referência ao clássico Fahrenheit 451, de Bradbury.

Pontos positivos
Personagens odiosamente bem trabalhados
Rico e detalhado
Harper
Pontos negativos
Desnecessariamente grande
Problemas de revisão


Título: Mestre das Chamas
Título original em inglês: The Fireman
Autora: Joe Hill
Tradutor: Fernanda Abreu
Editora: Arqueiro
Ano: 2017
Páginas: 592
Onde comprar: Amazon

Avaliação do MS?

Não me incomodo com livrões, mas é preciso conteúdo para encher toda as páginas. Mestre das Chamas poderia ser mais enxuto. Há problemas pontuais de revisão, porém o que importa é a jornada desses personagens. Harper, especialmente, é alguém com a qual você se identifica, alguém por quem você torce e às vezes quer dar uma bronca. Não só ela, mas praticamente todos os personagens foram bem descritos e trabalhados. E o mais legal de tudo é a Escama de Dragão; você vai descobrir que ela não é apenas um fungo. Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também.


Até mais!

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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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