Person of Interest e violência contra a mulher

segunda-feira, março 27, 2017

Não é nenhum segredo que Person of Interest é um dos meus seriados favoritos de ficção científica. Com cinco temporadas, infelizmente, já completas, a série é protagonizada por uma inteligência artificial criada para prevenir terrorismo, mas que tem um efeito colateral: ela não identifica apenas riscos à segurança nacional, os chamados "crimes relevantes" como também identifica os crimes irrelevantes. Pessoas comuns ameaçadas ou que estão planejando um crime.




É na primeira temporada que um episódio, "Many Happy Returns", lidou especificamente com violência contra a mulher e que trouxe uma análise séria e sem estereótipos a respeito. Finch é o cérebro por trás da Máquina, a IA. Reese é a força bruta, ex-militar e ex-agente da CIA. Os dois trabalham bem juntos, mesmo tendo divergências. Porém, em "Many Happy Returns", Finch faz algo inusitado: dá o dia de folga a Reese, alegando que era seu aniversário e por isso merecia um tempo só para ele. Era uma desculpa esfarrapada, logicamente, pois a ideia era afastá-lo no novo caso. Reese perdeu o amor de sua vida para um marido violento.

Sarah Jennings vive fugindo, tendo empregos aleatórios e de curta duração. É uma mulher visivelmente assustada por alguma razão. A razão é seu ex-marido, Brad Jennings, delegado do serviço dos US Marshal, Serviço de Delegados dos Estados Unidos, não aceitar o término do relacionamento e partir em sua perseguição. Ele cria falsas acusações sobre ela para colocar a agência em seu encalço, dizendo que é uma criminosa perigosa que precisa estar sob custódia.

Quando Reese fica sabendo do caso, Finch solta esse diálogo simples, porém cheio de significado:

Quando construí a Máquina, notei esses mesmos CPFs vindo com uma semana, um mês, seis meses de diferença. Normalmente mulheres. A princípio pensei que fosse um erro. Como a vida de alguém poderia ser repetitivamente ameaçada? Então percebi que elas viviam com a pessoa que viria um dia matá-las.

Para que a Máquina identifique um crime, ela analisa mutias variáveis. Câmeras de segurança, formulários, recibos, cadastros, redes sociais, celulares, tablets, notebooks, carros, aviões, tudo que deixe uma marca eletrônica ou tenha um acesso remoto é passível de vigilância. Para a vida de uma mulher ser constantemente ameaçada, seu companheiro deve ter deixado alguma marca digital falando do quanto gostaria de se livrar da mulher ou de como não a deixaria partir e que a machucaria se fizesse isso.

Violência contra a mulher não acontece apenas uma vez. Um cara controlador, que quer que a mulher aja do jeito que ele quer, que oprime e agride, muitas vezes apenas com palavras para depois partir para a agressão, não está vendo essa mulher como um ser humano. Ela é apenas uma coisa na mão dele, um objeto, sem direito à própria vida, sem direito ao poder de decisão. O que o delegado Jennings faz é se valer do trabalho, de seu poder enquanto agente da lei e da rede de amizades dentro da agência para infernizar a ex-mulher. Quantos homens já passaram pano para amigos abusadores em nome da "amizade"?

Enquanto Finch e Reese investigam, descobrem que o delegado Jennings já tinha sido acusado duas vezes por uso excessivo de força no trabalho, além de falsificar os mandados de busca e apreensão por Sarah, aumentando as acusações contra ela para poder pegá-la mais rápido. Por fora, é um cara aparentemente normal, apenas um agente da lei dedicado querendo pegar uma fugitiva. Mas como ninguém esconde nada da Máquina, ele logo se torna uma ameaça. Muitos abusadores e criminosos também passam uma imagem normal, mas na verdade são monstros.

Reese e Sarah

Muitas mulheres vivem em um ambiente de terror, abuso, agressões e submissão com homens agressivos. Eles se desculpam, dizem que não vai acontecer mais, porém depois de um tempo, o ciclo recomeça. As ameaças retornam, a vida dela fica por um fio. Não é toda mulher que tem condições de fugir de um companheiro agressor. Às vezes o casal tem filhos e eles viram reféns na mão dele, que os usa para forçar a permanência da vítima. Coloque em qualquer canal de TV à tarde que tem jornais sensacionalistas e veja quantas notícias são de mulheres mortas por seus ex-companheiros. Quantas delas já tinham feito boletins de ocorrência e não foram salvas? São muitas. Quase todas já tinham comentado sobre as agressões com a família, sobre a perseguição e algumas tinham medida protetiva depois do término do relacionamento.

Cada agressão, cada novo ciclo, conta para a Máquina como uma tentativa de crime. Por isso ela via os mesmos CPFs das mulheres retornando ao sistema quando alguma ameaça surgia. E muitas, presas neste ciclo de horror, não conseguiam se desvencilhar do marido ou namorado, sendo obrigadas a permanecer do lado deles. Reese salvou a vida de Sarah, mas quantas outras não conseguiram ser salvas aqui, na vida real?

Presenciou ou sabe de alguma mulher sendo agredida? Disque 180 e denuncie. Não julgue uma mulher que nada fez para sofrer ou merecer violência. Ela é a vítima. A culpa sempre é do agressor.

Até mais.

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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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