Você nem parece trekker

quarta-feira, fevereiro 15, 2017

Este comentário chegou recentemente em um post aqui no blog. Estou bem acostumada a receber reclamação de alguns leitores em listas que faço, pois eles não parecem entender o conceito de "minha lista, meu gosto pessoal". Mas um leitor se incomodou com uma dessas listas e disparou: você nem parece trekker. Bem, vamos falar sobre isso, porque a frase me fez rir, mas também me entristece.




Já começo dizendo o seguinte: ninguém tem obrigação de parecer com NADA. Sou trekker sim, sou também gater (Stargate), também sou toaster (Battlestar Galactica), e também sou Ranger (Babylon 5), mas não tenho uma camiseta, nem uniforme da Frota Estelar ou da Frota Colonial. Ser nerd no Brasil é bem caro. Se você é fã de Star Wars ainda consegue algumas coisas, mas Star Trek é bem difícil achar bons produtos, acessíveis e em moeda nacional. Destas outras séries então, mais difícil ainda. E não é todo mundo que tem dinheiro para manter seus hobbies. Fico feliz que a Netflix tenha colocado de volta todas as séries, porque eu não teria como comprar caixas das séries lá fora.

A cobrança para parecer mais nerd não é de hoje. Especialmente para as mulheres, você tem que acertar o bingo nerdista para ser considerada digna de portar a carteirinha em determinados grupos. Se você não assistir determinada série de uma ponta a outra e decorar as falas, não falar klingon, não souber o número do RG do figurante de Leonard Nimoy em Star Trek V, seus gostos são relativizados e você não é mais bem vinda no clubinho. Não lhe é permitido desconhecer alguma coisa, especialmente se você é mulher.

A patrulha se estende em vários segmentos da cultura pop e não tem coisa mais chata do que você ser cobrada para ser uma sabe-tudo. Porque se você sabe de menos, não é digna, se sabe demais, é metida; se não joga, é noob, se joga demais (e sabe mais que os colegas homens), você os está humilhando; se tem qualificação de menos, tiram sarro de você, se é a mais qualificada do grupo, ninguém quer conversar porque te acha esnobe. Nunca há um meio termo. As conversas saudáveis sobre conteúdos estão cada vez mais difíceis.

Deixo essa dica aqui para as moças: você não tem obrigação nenhuma de parecer com o que quer que seja. A única coisa que a gente quer é poder curtir nossos conteúdos preferidos sem patrulha. É entrar na loja e sair com seu quadrinho ou livro preferido sem o vendedor perguntar se é para o seu namorado. O que a gente quer é curtir nosso seriado ou filme favorito, ler e cheirar nossos livros e graphic novels, porque é legal, porque a gente gosta, porque nos dá prazer. Não importa se você não tem a coleção de Funkos de Star Wars. Isso não te define.

"Ahhhhh, mas você tá levando a sério demais, foi brincadeira..." Então, não foi. Em quase sete anos de blog, eu já recebi esse comentário de que não sou alguma coisa várias e várias vezes. Minha carteirinha do Clube Nacional de Nerdismo foi revogada diversas vezes (mesmo que eu nunca tenha pedido por uma). Já reparou o quanto somos as "loucas" só por que "não entendemos" uma brincadeira? Que somos levadas ao pico da irritação e quando não aguentamos mais, "calma, querida" ou "você é muito sensível, menos"? Que tal parar de patrulhar a nerdice alheia? Respeite, apenas isso.

Ter seus gostos e sua inteligência, sua capacidade e preferências sempre relativizadas emputece mesmo. Por isso nunca acredito que é "só uma brincadeira", não é inócuo. Até porque não existe um padrão certo para ser nerd, aliás são os padrões quebrados que deveriam nortear essa cultura diversa, com tanto simbolismo e que vem sendo apropriada inclusive por grupos sociais, como na Marcha das Mulheres, que se repetiu pelo mundo todo e usou imagens da Princesa Leia, de Ellen Ripley, de Uhura, em seus cartazes.


Eu tenho múltiplos gostos, múltiplos interesses e me recuso a ser definida. Eu sou a Coronel Samantha Carter, a Uhura, a Capitã Janeway, sou a General Leia, a Comandante Susan Ivanova, Ellen Ripley e Sarah Connor, sou Katherine Brewster, Sete de Nove, Starbuck e Presidente Roslin, sou Molly, Katniss Everdeen, Princesa Lia e a Aia, sou Trinity, sou Niobe e Dra. Louise Banks. Portanto, não pareço com nada que alguém possa definir e exijo respeito. Respeito para todas.

Até mais!

Leia também:
Princess Leia Gave the Women’s March a New Hope - Wired

Já que você chegou aqui...

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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7 comentários

  1. Nossa, tô chorando de alívio ao ler esse post.
    Às vezes chega a ser um estress usar camiseta de banda! se você não sabe absolutamente todas as músicas/letras, em que ano foi lançada tal música, ...e qualquer assunto que você saiba minimamente, as pessoas em geral já te consideram metida. Mulher tem que sempre manter a postura de aprendiz. É exaustivo...e tremendamente solitário. Obrigada pelo seu texto e pelo blog maravilhoso.
    Jacqueline

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  2. Parabéns pela qualidade e profundidade do desabafo.

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  3. Concordo totalmente com o seu texto. Vejo esse tipo de comportamento masculino muito presente no mundo nerd e no do rock/metal. Mulheres sempre precisam provar seu conhecimento para não serem tachadas como posers.
    De todo, acho que existe um tipo de pessoa que nunca vai parecer um trekker: as que segregam. Infelizmente não faltam fãs do mundo de Roddenberry que ainda vivem na contramão dos desejos que a série tem para o nosso futuro. O preconceito, o pensamento burguês, etc, sempre me pareceram mais esquisitos quando propagados por ditos fãs. Para mim, estes realmente nunca serão trekkers de verdade.

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  4. Isso mesmo.
    Chato demais essa categorização toda, esse apontar o dedo.
    Por que eu (tu ela) não posso ser eu mesmo? Por que tenho que responder a um questionário pré-formatado? Por que eu tenho que me espremer num estereótipo esquizofrênico?
    Apoio total.

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  5. Não acho que seja exclusividade do mundo feminino, embora seja mais intenso. Eu mesmo vivo no limbo, pq os "trouxas" me chamam de nerd, e os nerd só me acham metido a nerd, pq francamente, fanatismo enche o saco! Eu tenho camisetas de bandas que mal conheço, de Dragon Ball sem nunca ter assistido DBZ inteiro até hoje! kkkkkkkkkkkkkkk "Frak" this! Não quer falar comigo por causa disso, ótimo! Estou perdendo taaaaaaaanta coisa... kkkkkkkkkkkkkkk
    Adoro seus textos, minhas leituras geralmente são indicações suas que acompanho pelo skoob e por aqui, pq o tempo está curtíssimo e nossos gostos se parecem...rsrsrs E o que falar de Voyager... Vc sempre falava dela tanto aqui quanto no Holodeck e ela conseguiu a proeza de superar DS9 no meu coração! (Abençoado seja o deus Netflix!)
    Então, podem continuar bombardeando. Os escudo estão erguidos, não me acontece nada! kkkkkkkkk Só deixo a ponte se for junto da Capitã! ;-)

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  6. Se você assiste Star Trekker, é trekker... Se sabe o número do RG do figurante do Nimoy... você é chato pra caramba!!! ;)

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  7. É impressionante como isso acontece sempre, e ao meu ver cada vez mais, principalmente com mulheres. Já presenciei várias vezes as situações descritas no seu texto e nos comentários pelos colegas leitores. Precisamos sim nos mover para impedir que isso ocorra, porque isso não é só um fã se achando dono daquilo que ele vê, mas sim um braço da infeliz cultura machista, como bem foi demonstrado no texto.

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