Falta pouco para o fim do mundo

segunda-feira, fevereiro 13, 2017

Dias atrás, o comitê de diretores do Bulletin of the Atomic Scientists, da Universidade de Chicago, soltou uma notícia alarmante: eles adiantaram o Relógio do Juízo Final. O último reajuste aconteceu em 2015, mas ele vem sendo ajustado, adiantado e atrasado desde sua apresentação em 1947. Mas o que isso quer dizer de verdade? Há mesmo algum risco?




A história do relógio remonta ao fim da Segunda Guerra Mundial, dois anos depois da vitória dos Aliados. A representação dele surgiu quando a artista Martyl Langsdorf, esposa de Alexander Langsdorf Jr., físico que trabalhou no Projeto Manhattan, foi convidada a ilustrar a edição de junho do boletim. O número de minutos para a meia-noite, uma medida do nível nuclear, é atualizada seguindo a política mundial anualmente.

O comitê inclui físicos e cientistas ambientais de todo o mundo, que decidem como ajustar o relógio após consultar também o Conselho de Patrocinadores do grupo - que inclui 15 ganhadores de prêmios Nobel. Quanto mais próximo da meia-noite, mais provável é um evento catastrófico. A preocupação dos cientistas com os testes da bomba de hidrogênio fizeram renomados cientistas assinarem um manifesto, enviado ao presidente Truman, para que ele não usasse a bomba atômica durante a Segunda Guerra. O medo persiste na contagem para a meia-noite.

O fim do mundo é assunto recorrente para a raça humana e para a ficção. São livros, quadrinhos, filmes, músicas, todas elas discutindo, ilustrando e problematizando o fim do mundo, o juízo final, o armagedon, escolha sua palavra favorita. O ano 1000 representava o fim do mundo, depois 2000, o 3000 talvez não assuste tanto. Desde sua apresentação, ele já foi ajustado 21 vezes e agora em 2017 foi ajustado de novo.

O que isso significa? Por que agora um novo ajuste? Segundo o comitê do boletim, os motivos foram:

  • aumento do nacionalismo,
  • comentários de Donald Trump sobre as armas nucleares,
  • dúvidas sobre o futuro do acordo nuclear do Irã,
  • ameaças à segurança cibernética,
  • surgimento e espalhamento de notícias falsas,
  • a ameaça de uma renovada corrida armamentista entre os EUA e a Rússia e;
  • a descrença no consenso científico sobre a mudança climática pela Administração Trump.

Desde 1953 que não ficávamos tão próximos assim da meia-noite, quando o ponteiro foi movido para dois minutos por causa de testes de bomba de hidrogênio feitos pelos EUA e pela União Soviética. O que é mais curioso de tudo isso é que o século XXI era visto com esperança, otimismo. Existia o medo do ano 2000, mas se sobrevivêssemos a ele, tudo melhoraria. Achávamos que as diferenças diminuiriam, que a raça rumava para uma união nunca antes vista. E claro, quebramos a cara. Os atentados de 11 de Setembro, os conflitos no Iraque, Afeganistão, o Estado Islâmico, nacionalismo acirrando, golpes... É como se não tolerássemos mais um ao outro.

O relógio é um símbolo. É um alerta constante de como nossa civilização é frágil, por isso ele causa tanta apreensão. Recentemente vimos o que houve com o estado do Espírito Santo sem a presença da polícia nas ruas. Faltou água e a população invadiu escolas para esvaziar as caixas d'água em uma cidade. Não parece, mas vivemos em um tempo extremamente perigoso para a sobrevivência, em especial de grupos que já são marginalizados. Se uma Terceira Guerra Mundial, que parecia impensável uns anos atrás, estourar hoje, o risco de termos um novo holocausto e de mais mulheres, crianças, idosos, gays, negros e transsexuais sofrerem e muito com um conflito, é muito alto.

Não é só uma questão nuclear, que foi o que originou o relógio do juízo final. Segundo a ONU, o clima é um dos maiores opressores da humanidade. Os refugiados ambientais são uma realidade. Além deles, temos os refugiados de zonas de conflito, de intolerância religiosa. Qual é a mensagem que Trump está passando com suas palavras equivocadas, atrapalhadas e agressivas? Que essas pessoas não importam, que o Acordo de Paris é inútil, que só seu país tem o direito à vida, à liberdade e à felicidade. Será que uma Terceira Guerra Mundial vai ter que eclodir para que possamos resolver nossas mesquinharias? Em Star Trek deu certo, mas os custos de uma guerra mundial destruiriam nações completamente hoje.

Sempre brinco no Twitter que a gente devia orçar um meteoro e tacar de vez no planeta, mas ninguém quer de verdade que a civilização acabe. Até porque se ela acabar agora os problemas ao meio ambiente serão imensos, com produtos químicos e radiação vazando de seus tanques e reatores. Somos falhos, mas temos algum cuidado com essas questões, mesmo que falhando miseravelmente em alguns casos.

O que precisamos é de líderes mais conscientes com o outro. Mas acho que aí é pedir demais mesmo.

Até mais (se sobrevivermos).

It's two and a half minutes to midnight

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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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James W. Harris