Estrelas Além do Tempo e o poder da inclusão

segunda-feira, fevereiro 20, 2017

Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures, 2017), o filme, estreou e já desbancou na bilheteria nomes fortes da cultura pop. O filme é um resumo do livro de mesmo nome, que nos conta a história de três matemáticas e, posteriormente engenheiras e programadoras da NASA, que foram cruciais para o desenvolvimento do programa espacial dos Estados Unidos. Sem o trabalho dessas mulheres, não haveria pegadas na Lua.

O que nos leva à uma outra questão de igual importância: quantas descobertas e invenções fascinantes que poderiam mudar a história da humanidade nós estamos perdendo pelo simples fato de não darmos as mesmas oportunidades às pessoas?




Mesmo que você já tenha visto o filme, recomendo fortemente que você leia o livro de Margot Lee Shaterly. O livro é de não-ficção, portanto traz a história da vida das três mulheres - Mary Jackson, Dorothy Vaughan e Katherine Johnson - além de todo o cenário de segregação racial, preconceito e privilégio branco daquele período histórico que é crucial para que possamos entender o que se passava na sociedade.

As três enfrentam grandes desafios para estudar, trabalhar, morar em um bom bairro. Dorothy tinha que pegar empregos secundários durante os meses de verão, pois seu salário de professora não era suficiente para o sustento da família. Professores brancos ganhavam até três vezes mais e por isso não precisavam trabalhar nas férias. Era preciso muitas vezes entrar na justiça para conseguir uma vaga em uma escola ou universidade ou cruzar a cidade para estudar, pois a escola do bairro era segregada e não aceitava alunos negros. A cada momento que os negros conseguiam a qualificação necessária, patrões brancos elevavam as exigências, ignorando até mesmo as leis federais.

Contrariando regras e convenções, mudando o que podiam mudar, as três chegaram nas salas das missões espaciais, calcularam, suaram e deram o seu melhor para o sonho de uma nação. Mas pense quantas pessoas geniais foram perdidas na história por que as universidades não aceitavam mulheres? Quantos negros foram castigados, mutilados em campos de algodão, quantos deles foram obrigados a andar no fundo do ônibus ou impedidos de estudar por que universidades não os aceitavam? Quantas coisas maravilhosas eles poderiam ter feito se o racismo, se a misoginia, não existissem?

Quando você impede que uma pessoa desenvolva todo o seu potencial baseado em cor, gênero, sexo, você está cometendo um crime contra a dignidade dessas pessoas. Está ignorando sua inteligência e todo o potencial que elas têm. Quando Mary Jackson perguntou às colegas brancas onde era o banheiro, as colegas riram. Se nem o direito a fazer xixi você tem no ambiente de trabalho, o que isso fará com sua mente e saúde?

Diferente do que existe no filme, Katherine Johnson usava o mesmo banheiro das colegas brancas sem se importar com os olhares atravessados. Mas assim como está no livro, ela lutou muito para conseguir o respeito dos colegas que a consideravam inferior por ser mulher e negra. Isso me fez lembrar de um texto que falava sobre um negro que vinha se tornando amigo de brancos que faziam parte de grupos de supremacia branca para convencê-los de que estavam errados. E uma frase me impressionou muito. Ele comenta que muitos daqueles sujeitos que se achavam superiores nunca conheceram ou conversaram com um negro na vida. Resultado: eles os odiavam, pois não há maior medo humano do que o medo do desconhecido. Por isso que a inclusão e a representatividade importam tanto.

Meninas estão se interessando por ciência e tecnologia por causa de Estrelas Além do Tempo. E com um grande atraso essa mensagem chega até elas. Imagine o que elas poderão fazer no futuro? Quem sabe o motor de dobra virá de seus cálculos e genialidade? Quem sabe a primeira colônia em Marte seja capitaneada por uma dessas meninas? É esse o poder da inclusão. É esse o poder da representatividade. E quando você exclui parte de sua população das universidades, dos postos de trabalho, ainda mais na ciência, são esses feitos que uma sociedade inteira perde. Meninas fora da escola causam prejuízo aos países na ordem de 92 bilhões de dólares ao ano.


O racismo tem um custo grande à saúde. Sentir a segregação e o racismo todos os dias resulta em sintomas semelhantes ao de estresse pós-traumático, depressão, crises de ansiedade e insônia. Isso impacta na vida pessoal, profissional, nos estudos e podem levar a problemas como hipertensão. Incluir as pessoas como elas são, sem estereótipos e rígidos papéis de gênero ou raça, ou classe, é garantir que elas sejam vistas e, principalmente, ouvidas. Suas contribuições para a sociedade podem nos fazer evoluir muito se finalmente as pessoas tiverem as mesmas oportunidades. Se as pessoas não têm voz, como conhecê-las? Por quanto tempo a sociedade continuará aceitando a morte e a obscuridade das pessoas?

Este é um dos mais importantes filmes da década. Essas mulheres ficaram anos à sombra dos feitos dos astronautas, mas sem elas, nunca teriam subido aos céus. Além de mostrar suas histórias, mostra também as dificuldades impostas pelo preconceito e por uma sociedade racista. Elas não estão mais escondidas.

Até mais!

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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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