Até onde você iria para sobreviver?

segunda-feira, março 14, 2016

Se tem uma coisa que séries distópicas e pós-apocalípticas fazem na audiência - ou deveriam fazer - é um exercício de reflexão. Sobrevivência a qualquer custo? Temos que nos ater a determinados princípios morais? É cada um por si? O que devemos manter da civilização? Até onde você iria para ver um novo amanhecer?




Nós temos, praticamente, todos os confortos modernos. Temos acesso à água limpa, comida fresca e refrigerada, congelada, salgada, pré-cozida, pré-pronta. Temos vacinas, antibióticos, soro, analgésicos, remédios para o fígado, ambulâncias, carros, ônibus, metrô, lanchonetes, temos roupas, temos meias, sapatos, temos cama para dormir, mantas, edredons e travesseiros, temos internet e temos também a ficção para nos fazer suspender a descrença e acreditar que, um dia, tudo isso pode ser perdido. A ideia é te tirar da zona de conforto e te jogar no limbo da sujeira e perdição, numa terra de ninguém onde o que vale é a lei do mais forte.

Para nós, uma situação de apocalipse é muito distante. E mesmo que ela comece, é provável que a gente ache que não passe de um viral de alguma marca que espalhou por aí. A coisa vai ficar feia mesmo quando a eletricidade cair, quando a comida acabar e quando o ser humano começar a perder o controle que tem sobre a vida. Quando ligar nos Bombeiros e o serviço estiver off, quando tentar pedir ajuda da Defesa Civil e não tiver ninguém, quando abrir a torneira e não tiver água, podemos nos tornar uns animais irracionais, movidos apenas pela sobrevivência.

Em Fear the Walking Dead, a imagem acima, temos o comecinho da infecção zumbi que levou a The Walking Dead. Temos pessoas comuns indo trabalhar, pagando contas, consertando pias, vendo o namorado, vivendo a vida dia após dia. Mas assim que os mortos começam a sair andando por aí, algo muda nos personagens, é como se algo se quebrasse. Quem já viu o efeito trazendo humanos de volta como zumbis fica completamente abismado e preocupado. Quem ainda não viu acha que você está só exagerando e que as autoridades vão lidar com isso e tudo certo.

Madison Clark, por exemplo, trabalha em uma escola e é alertada pelo filho Nick de que algo está acontecendo. Só que Nick é viciado em heroína e sua palavra pouco conta para as autoridades. Quando ela precisa matar um amigo e colega de trabalho da escola porque ele ataca um aluno é que Madison quebra. Percebemos que a personagem sofre uma ruptura entre o que ela era antes e o que ela virá a se tornar.

Sou muito fã de enredos com zumbis. Gosto de ver a forma como os mais variados autores pensaram na raça humana depois de um evento como esse. Até o CDC - Centro de Controle de Doenças - dos Estados Unidos, entrou na brincadeira ao criar um guia para as pessoas seguirem no caso de qualquer emergência nacional, incluindo um apocalipse zumbi.

Quando olho para a minha situação aqui em casa, percebo que teria muitos problemas numa situação dessas. Eu não fugiria de casa com a minha mãe e deixaria meus gatos para trás. Mas também não poderia carregá-los. E depois, como vou alimentá-los com o fim da distribuição de comida para animais de estimação? Como vou me alimentar? Por causa da coluna, eu sequer teria condições de correr dos zumbis. Minha mãe também não.

Aí, vamos supor, que eu tenha que saquear uma casa para encontrar comida e encontro alguém lá dentro, querendo me roubar, me agredir. Eu nunca estive nessa situação, mas não sei se teria condições de matar essa pessoa, tanto física quanto emocionalmente. Antes de rir da minha cara e dizer que eu deveria matar logo, vamos fazer um exercício bem simples aqui. Crescemos e aprendemos, durante toda uma vida, que matar é errado. Nosso sistema criminal pune pessoas que matam. Matamos pessoas de mentirinha em jogos de computador e adoramos as cenas de The Walking Dead, mas na vida real a coisa é muito mais sinistra que na ficção.

Lembro de ter visto um documentário há muitos anos atrás que dizia que os rifles de muitos soldados na Primeira Guerra Mundial não foram disparados uma vez sequer. Eles carregavam com munição, carregavam de novo, de novo, porque não conseguiam disparar. Ao ver outro ser humano na frente, muitos não conseguiram dar o tiro. Muitos veteranos de guerra ficaram com sequelas e problemas psicológicos para toda uma vida. Isso porque eles tiveram treinamento e quanto a nós? Meros civis, usuários de bilhete único, o que seria de nós numa situação de apocalipse?

Ver tudo isso na ficção nos faz refletir, mas até onde nós iríamos? Essas séries e livros também mostram que pessoas comuns acabaram se tornando líderes tribais ou líderes de acampamentos, umas cruéis como o Governador, outras não. Elas passaram por aquele momento de quebra da realidade e um distanciamento do passado para encararem a nova realidade. Mas não vai ser tão fácil assim como parece.

Eu teria problemas, e você?

Até mais!


Leia também:
CDC - Preparedness 101: Zombie Pandemic

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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5 comentários

  1. Eu imagino que não sobreviveria em uma situação pós-apocalíptica. Até acho que conseguiria quebrar algumas barreiras éticas, mas creio que não teria capacidade psicológica mesmo de sobreviver sabendo que perdi as pessoas que amava, que terei que reaprender totalmente a viver. Eu acho interessante que em algumas histórias, como The Walking Dead, as pessoas mais ordinárias, com os empregos e vidas mais banais, conseguem encontrar uma força tremenda dentro de si para continuar vivendo. :/

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  2. Pensando em um apocalipse zumbi, eu provavelmente seria uma das primeiras a ser mordida e neste momento estaria vagando - ou já teria levado um tiro na cabeça e nem competência para ser zumbi teria. Sério. Hesitaria demais em roubar, a não ser que a fome fosse muita, e matar então, xi... não, acho que não. Vendo todos os que amo morrer, acabaria morrendo também, seria devastador seguir adiante em um mundo sem esperança como as piores teorias de apocalipse zumbi pintam. Mas.. não posso ter certeza. Isso é o que acho, dizem que em situações extremas as pessoas se revelam e mostram lados que ninguém conhece, vai saber.É algo tão extremo,tão diverso da nossa realidade que não tenho mesmo certeza.
    (lembrei desta tirinha da Fernanda Nia - Como Eu Realmente - adoro este site!
    http://www.comoeurealmente.com/2013/04/sobrevivencia.html

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  3. Quando assisto a estes filmes, fico analisando a reação dos que matam para sobreviver. Parece-me que adquirem uma "blindagem" emocional que os impulsiona a ir sempre em frente, sem parar para pensar.É muito sinistro. Eu não conseguiria matar. Bater, derrubar, talvez.
    beijo, menina

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  4. Eu teria condições físicas para sobreviver em uma ambiente de pura devastação. Mas, concordo que seria difícil viver em tais condições.

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  5. O que acho curioso sobre historias de zumbis (e catástrofes em geral) é o paradoxo que ela levanta. Que no fim, quem sobrevive são os mais desumanos e pragmáticos. De tal forma que: Ou você vira uma máquina cruel de sobrevivência, ou você se torna um monstro devorador de carne humana.

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