O cemitério das ideias

segunda-feira, fevereiro 08, 2016

Já aconteceu de você ter aquela ideia massa, que você pensa "uau, que coisa linda, vou trabalhar nisso" e depois, por algum motivo, você precisou parar e deixá-la de lado?




Eu tenho um imenso cemitério de ideias que sempre me assombraram. Ficava me remoendo, achando que elas estavam lá, apodrecendo, virando adubo e eu sempre depositava umas flores em seus túmulos, pedindo desculpa por não conseguir continuar o que queríamos fazer. Me sentia uma fracassada por não ter dado continuidade a algo que eu sabia que seria muito legal, que me traria grande satisfação e no fim deixei morrer. Esse sentimento sempre aparece quando sento para escrever algo novo. Sempre.

É uma culpa desnecessária. Comecei a ler essa semana um livro chamado Grande Magia, da mesma autora de Comer, Rezar e Amar, Elizabeth Gilbert. Pouco tempo atrás eu o indiquei para a Manu Najjar, do Garota da Biblioteca, porque ela andava sem ideias, se sentindo meio pra baixo, mas eu mesma ainda não tinha lido.

Comecei a ler sem nenhuma pretensão, mas as palavras dela me acertaram em cheio. Gilbert diz que as ideias são imateriais e elas pousam sobre as pessoas que estão receptivas para trabalharem com ela naquele momento. Se por alguma razão a ideia não foi trabalhada, ela não morre simplesmente. Ela te abandona, sem remorsos, sem DR, e vai pousar em outra pessoa que estiver mais disposta.

De repente percebi que eu estava lamentando a morte de ideias que nunca estiveram mortas. Aquilo foi como uma imensa ficha da Telesp caindo sobre a minha cabeça. Peguei uma pá, corri pela noite, quebrei o cadeado que trancava o portão do cemitério e comecei a desenterrar os caixões das minhas ideias mortas, esbaforida, temendo fantasmas inexistentes, a umidade da noite grudando na pele e nos cabelos e vi que eles estavam vazios!

Já aconteceu de você ver alguma série ou ler algum livro e se tocar que você também teve aquela ideia? Isso já aconteceu comigo várias vezes. Desde 1999 eu escrevo uma saga de ficção científica chamada - surpresa! - Momentum Saga. Desde 99 muita água já rolou por baixo dessa ponte e ao reler os antigos arquivos eu percebi que já tinha visto algumas daquelas ideias em outras séries de TV e livros de FC com as quais eu não tivera contato naquela época.

Será que me copiaram??? DÃÃÃÃ. Claro que não! Eu nunca publiquei nada disso. Como que um produtor de TV ou um roteirista lá no KCT vão saber de algo que uma amadora está escrevendo em seu computador? Seriam as ideias imateriais flutuando e procurando novos lares?

Fiquei ali, chorando na madrugada, olhando aqueles desenterrados caixões vazios e percebendo, com alívio, que as ideias não estavam mortas. Elas me abandonaram e pousaram em outros. Ou ela tinha vindo de outra mente ocupada e pousou em mim, viu que ali não tinha pé e foi-se embora outra vez.


Esse conceito imaterial da ideia é que leva tanta gente a achar que as coisas são continuamente copiadas. Mas você pode se inspirar nas coisas que lê, ouve e vivencia. Aliás, você deve! Se não, como que você vai criar? Ninguém é obrigado a escrever uma obra-prima todos os dias e mesmo as obras-primas do cinema, da literatura, da TV, foram inspiradas em algo, isso não surgiu do nada. Devemos tirar o mérito das coisas então? Devemos parar de criar? JAMÉ!

No lugar do caixão das ideias mortas, eu coloquei flores. Remexi aquela terra úmida do cemitério, coloquei bulbos e sementes e mudas e deixei ali para brotar. Agora sei que as ideias não morrem, elas apenas estão aí, flutuando, caindo sobre mentes criativas que terão o tempo necessário para se envolver com elas. Pode ser que aquela ideia que me fugiu algum tempo atrás tenha caído sobre você, por que não? Vai trabalhar com ela?

Até mais!

Este texto foi, originalmente, publicado na newsletter Diário da Capitã, que é exclusiva para os apoiadores do blog no Padrim!


Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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7 comentários

  1. Menina, eu estive morrendo de rir com esse livro justamente quando ela conta sobre esse tipo de experiência. E reconheci algumas ocasiões em que isso aconteceu comigo também. Queria um pouco mais de tempo pra colocar essas ideias que eu tive pra funcionar, mas sempre tem algo no caminho, você sabe bem como é. Espero que essas ideias possam chegar pra quem dê realmente a devida atenção. xD

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    1. Sabe em que parte que eu morri de rir?? Do cara vestido de lagosta na festa à fantasia. Aquilo foi muito divertido... rs

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  2. Cara, Sybylla, me definiu nos primeiros parágrafos! Eu mesma tenho um arquivo no word com muitas ideias que começaram mas ainda não consegui criar uma continuação.. são contos, ideias para novos livros,enfim.. Mas nunca considerei como um cemitério e sim como um lugar em que estão esperando para acontecer, suspensas, sei lá.

    Gostei deste seu jeito de escrever, um estilo diferente do que estamos acostumados a ver aqui no Momentum, mas bom, muito bom! Gostei imenso do texto.

    Quanto às ideias... bem, elas podem sim se liberar do cantinho onde guardei e pousar em outras cabeças, ou voltar a pousar em uma versão minha mais madura que vai conseguir desenvolvê-las. Esperemos a roda da vida girar e as ideias movimentarem, e veremos para onde vão.

    Marina Carla- Devaneios e Desvarios

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  3. Interessante este texto! Eu nunca pude imaginar que você tivesse bloqueio de ideias, pelo contrário. Quanto a se inspirar nas ideias dos outros, pode ter, como consequência, novas ideias, tão originais quanto a que nos inspirou, sobre o mesmo tema.
    Beijo, menina

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  4. Esse texto me inspirou demais quando li na newsletter e é bom ter ele no blog pra recomendar para as outras pessoas <3

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  5. Ai Sybylla, obrigada por falar sobre isso. Meu cemitério está enorme e isso me causa tristeza!

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  6. Também tenho meu arquivo de ideias, tudo guardando esse tanto de coisa que nunca foi. O grande baque é mesmo topar com nossa ideia caminhando por aí depois de receber vida na mão de outra pessoa. Achei interessantíssimo esse ponto de vista. :)

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