Resenha: Jurassic World (2015)

quinta-feira, julho 30, 2015

E olha quem finalmente assistiu Jurassic World! Várias pessoas me perguntaram se eu já tinha visto o filme e se tinha curtido, mas acabei postergando esse filme por pura falta de saco mesmo. Agora, depois de ver e ler muito sobre as polêmicas que rondaram o longa, posso dizer com toda a certeza: ODIEI CADA MINUTO.





O filme
Vinte anos se passaram desde o que houve com os experimentos da InGen e com o parque original. O parque na ilha Nublar é um sucesso, está sempre lotado, as pessoas adoravam ver os dinossauros, tudo uma beleza. Os dinos estão praticamente domesticados e as pessoas podem passear por entre eles, ver shows aquáticos, comprar souvenires.


Porém, depois de 20 anos vendo dinossauros, o público está bem acostumado com aqueles animais. Ficou bem difícil de angariar patrocinadores e novos expectadores, as pessoas querem novas atrações. Ou seja, a novidade passou e isso forçou a equipe de Claire (Bryce Dallas Howard), chefe de operações do parque, a criar um novo ser, o Indominus rex, que é um ser híbrido de T. rex com porra nenhuma com ninguém sabe bem.

O Indominus é meio anti-social. Claire então pede ajuda ao personagem de Chris Pratt, Owen Grady, o macho alfa, treinador de Velociraptors, o homem branco cis hetero que salva todo mundo, que tente tornar a atração mais interessante, afinal os patrocinadores estão apertando pela novidade. O Indominus é muito inteligente, capaz de criar armadilhas, mata por prazer, é praticamente indestrutível. Cheguei a pensar que ele seria um Exterminador do Futuro jurássico, porque nada parece abalar aquela criatura que tem polegar opositor (!).

Assim como acontece nos longas anteriores, o filme tem aquele momento em que algo dá merda. O Indominus escapa e toca o terror em todos os bichos da parte norte da ilha. Claire e Owen partem em busca dos sobrinhos dela, que acabaram se perdendo no parque e precisam correr pela ilha fugindo da morte.


Tá. O filme não é ruim só por causa da parte científica. Sim, isso me incomodou pra KCT, mas a ficção funciona com a suspensão da descrença. Nós nos permitimos a um momento de ignorância para apreciar uma obra de ficção. Enquanto o primeiro filme acertou em muita coisa, por mais que seja impossível clonar e/ou reconstruir dinossauros, este último acabou com qualquer descrença. Não foi possível suspender a descrença para apreciar o filme, eu teria que dinamitar a descrença para apreciar essa obra.

O Pirula, que é paleontólogo também, fez uma ótima análise sobre os furos que o filme apresenta com relação aos animais que aparecem no longa neste vídeo aqui. E concordo com tudo o que ele falou, exceto de que este é um filme muito bom. O filme não é bom. Ele repete os mesmos estereótipos irritantes de todo filme que tem saído ultimamente, não inovou em nada, não trouxe nada de interessante, não ensinou nada, não diverte, tirando os ótimos efeitos especiais. De mulher correndo na selva com salto alto, a Velociraptors bipolares, a Pterossauros impossíveis até um Tiranossauro que desiste da briga quando bem entende... Olha. Não dá para suspender a descrença em tal nível.


Ficção e realidade
Uma das maiores reclamações dos paleontólogos com o filme foi a ausência de penas nos animais. O Dr. Grant, no terceiro filme, argumentou não exatamente sobre isso, mas que serve como explicação. Dinossauros estavam extintos; aquilo que a InGen criou era um híbrido, uma criatura fantasiosa. Ok, só que neste mesmo filme existem Velociraptors com um penachinho no coco.

O cinema e a mídia em geral, até mesmos os brinquedos, ainda perpetuam uma imagem de dinossauros cristalizada há muito tempo na mente do público: a de lagartões lerdos e pacíficos ou então de seres violentos, sanguinários e asquerosos. E por um tempo a paleontologia sustentou essa ideia, mas isso veio caindo com evidências fósseis. O próprio termo 'dinossauro' passa essa impressão. Dino vem de "deinos", que significa terrível, aterrador, e "sauro" que quer dizer lagarto. Foi utilizado pela primeira vez por Richard Owen, paleontólogo, em 1842, por ver similaridades entre os fósseis e os esqueletos de répteis atuais.

Os dinossauros foram seres muito, mas muito legais. E seus parentes diretos, as aves, são tão maravilhosos quanto. Os imensos esqueletos encontrados acabaram inflamando a imaginação dos paleontólogos, que acabaram adotando boa parte da imagem de seres terríveis monstruosos que surgiu. Mas outros já discordavam nesta época. Não havia suporte para as afirmações.

Nos últimos anos, os paleontólogos afirmam, já baseados em fósseis, que os dinossauros estão mais próximos das aves do que dos répteis, de onde eles derivam. Todas as evidências apontam também que eles teriam sangue quente, diferente dos répteis. A estrutura de seus ossos são muito semelhantes às aves, animais de sangue quente. A maioria deles teria penas, coloridas, preto e branco, plumas.

Velociraptor atacando um Archeopteryx

Essa parte das penas incomoda, por incrível que pareça, muita gente. Isso tiraria o ar de "terrível" que os dinossauros tinham, estragaria a brincadeira da meninada. Lembro de ver meus colegas na Geografia rindo quando a professora falou sobre isso e tirando um sarro de que pareceria um desfile de carnaval. Eu ouvi algo pior ainda numa aula de paleontologia no mestrado, de um aluno de geologia que questionou um professor, que é um dos maiores especialistas no assunto:

- Mas não é estranho os dinos terem penas, professor?
- Por que você acha isso?
- Sei lá, eles parecem meio viadinhos.
- Nossa, mas que babaca você é.

É. Eu ouvi isso.

Quando Rachel Welch correu de um dinossauro terrível e sanguinário, usando um biquíni de pele, em 1966, não ficou nem um pouco diferente da cena de Claire correndo do T. Rex no final de Jurassic World. Ou seja, enquanto a paleontologia evoluiu em todas essas décadas, o cinema não se mexeu. E esse é o fato que mais me incomoda em toda essa história. Não dá para suspender a descrença sempre. Outros filmes exageraram como 2012, Núcleo, porque exigiram demais da nossa descrença. E  nem sempre dá.


Pontos positivos

Chris Pratt

Pontos negativos
Animais absurdos
Corrida de salto alto
Final óbvio

Título: Jurassic World
Direção: Colin Trevorrow
Data de lançamento: 11 de junho de 2015
Duração: 2h 5m


Avaliação do MS?
Sem mais, o filme é ruim. Poderiam ter derrapado na ciência de várias maneiras se o roteiro e todo o enredo fossem melhores. Nem O Dia Depois de Amanhã, que produz uma mudança climática em escala global em 48hs conseguiu ser tão ruim. Os dinossauros convencem como monstros terríveis porque eles realmente existiram e podem até ter originado lendas de animais fantásticos como gárgulas ou dragões. Mas a ciência nos mostra os seres incríveis que eles eram e ninguém conseguiu fazer uma ficção convincente com eles. As pessoas acham que ter penas é algo que degrada o animal, ou que é cômico, que é engraçado e que isso tiraria o ar terrível dos dinossauros. Esse ar terrível foi construído e precisa ser desconstruído.


Até mais.

Dez erros que cometemos ao falar sobre os dinossauros


Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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