Ficção científica e preconceito literário

quarta-feira, julho 15, 2015

Preconceito literário é algo que me irrita profundamente. Ele não está relacionado a gosto pessoal, está relacionado a um achismo de que todas as obras de conteúdo X serão ruins, comerciais ou sem fundamento. Uma coisa é você ler um determinado livro de um determinado gênero e não gostar, outra é dizer que todo livro daquele gênero é ruim. E na ficção científica, infelizmente, isso acontece com bastante frequência.




Muito fã mais velho de ficção científica cai de paraquedas no blog. E a grande maioria pula fora ou é banida quando percebe que aqui eu falo de FC em geral, não fico só na estante dos clássicos. Isso por si só já me diz muita coisa sobre esse público que deve acreditar que FC é um espaço apenas para os autores que já morreram. Vi isso recentemente devido a uma lista que fiz há anos, com ficção científica obrigatória na categoria livros e como essa lista muda de tempos em tempos, atualmente, ela tem Jogos Vorazes. E eu li todo o tipo de crítica e xingamento por causa disso. De "listinha" a "faltam os clássicos!", sendo que na mesma lista tinha Mary Shelley, Isaac Asimov, Carl Sagan e Júlio Verne. A lista virou ~listinha~ porque teve gente torcendo o nariz para Jogos Vorazes.

Vejo que FC não é o único gênero a sofrer com preconceito literário. Livros juvenis, livros eróticos, best sellers, livros escritos por mulheres, John Green, todos eles já são julgados e rebaixados por N motivos sem nem ao menos alguém se dignar a lê-los. Leu, não gostou? Bola pra frente, meu bem, existem outros livros para você ler. Mas julgar alguém pela leitura dela, isso em um país em que as pessoas leem menos de 4 livros ao ano, é pura babaquice.

[...] uma das coisas que mais me tiram do sério é ver alguém tentar inferiorizar ou calcular o nível de inteligência do outro pelo que ela lê, sejam livros de autoajuda, sobrenaturais, policiais ou qualquer coisa que o valha.

Lú Gomes

Os leitores mais velhos e que ficam pagando de culto chato deviam olhar um pouco para o mercado e ver que é a garotada, os adolescentes, os jovens adultos que o estão expandido e consumindo não apenas Jogos Vorazes, mas autoras nacionais como Paula Pimenta e Thalita Rebouças. As feiras de livros e bienais lotam de jovens que se acotovelam para falar com André Vianco, John Green, Hugh Howey, cada vez que uma festa ou evento literário acontece. Eu não vi isso na minha época de adolescente. Queria muito, mas muito mesmo que os livros que leio hoje existissem na minha época de escola.

Outra coisa que o povo que paga de culto chato detesta é best seller. É como se o livro que antes era bom ficasse ruim por causa do público que o consome ou porque vendeu demais. OI?? O livro tem que circular apenas em determinados nichos para ser considerado válido? Esse mesmo povo que paga de culto chato reclama que a leitura no país é baixa, que o brasileiro lê pouco e quando um livro explode de vendas, de repente, esse livro passa a ser algo ruim? É errado um autor lucrar com o fruto do seu trabalho? Acho que não, né?

Os gêneros da ficção são inúmeros, mas uma parte dos leitores acha que só um tipo é válido: o que eles consideram culto. Não basta pensar que os outros leitores são inferiores, nem basta se pabular do que leu, esses “críticos” adoram menosprezar quem não se encaixa na tribo cult.

Caroline Gurgel

A observação da Caroline sintetiza muito bem o que acontece. Você pode e deve ler, DESDE QUE alguém aprove isso antes, em geral aquele que acha que suas leituras são as melhores do mundo. A literatura é um campo muito vasto e muito fértil, é universal, feita para todos. Se você não gostou, sempre terá alguém que gostou de um determinado livro e NA-DA do que você disser vai mudar isso. Muitas vezes a crítica é completamente vazia, crítica de modinha, que acha que um livro adolescente ou escrito por mulher é automaticamente ruim. Pegue um e leia, simples assim.

Livros de menina, livros nacionais, livros isso, livros aquilo. Eu já ouvi de tudo, até mesmo de que "não sou consistente" em minhas leituras. O que seria ser consistente? Ler e reler todos os livros de Asimov? Aí eu seria alguém "digna de respeito"? Não, obrigada. Até na ficção científica, de longe o gênero que eu mais leio, já abandonei livros porque não gostei da narrativa.

Não sou melhor nem pior do que ninguém por meus gostos literários e sempre aprendo muito com quem lê outros gêneros além do meu preferido. Você é extremamente consistente? Não tem nenhuma emoção que aflore, um palavrão para soltar num momento de raiva, aquele best seller escondido na estante? Se for, e eu sugiro que pare de mentir, faça um workshop com todas as outras pessoas do mundo que são normais.

Qual a diferença entre não gostar e ter preconceito? É que quando você tem preconceito, você:

1) Não experimenta os livros para ver se tem algo que te agrada;
2) Diminui as pessoas que leem aquele tipo de livro e as histórias que eles contam.

Bell

Quando faço uma lista, e pasmem, essa lista é pessoal, portanto é o meu gosto nela, eu indico livros que sei que vão agregar alguma coisa ao leitor. Se na lista onde existem clássicos e novos clássicos eu coloquei uma distopia juvenil, é porque sei que tem algo nela que vale à pena ser lido. Mesmo alguns dos leitores - e curiosamente todo mundo que me xingou foi homem - que leram JV vieram dizer que havia coisa melhor para eu colocar na minha lista. Não. A lista é minha. Se você leu, fique na sua, porque pode ter gente que não leu por preconceito e ao ver um livro desses numa lista se anime. Assim como pode se animar a ler Frankesntein, ou Contato.


O preconceito literário existe dentro da própria ficção científica. Leitores que consideram tudo o que não for FC hard como ruim. Ou que achavam que cyberpunk já morreu ou que distopia não é FC. Ou melhor, ele consideram só alguns, como 1984 ou Admirável Mundo Novo, qualquer distopia mais nova, especialmente as juvenis, aí não pode. Aí não é mais FC. #meusnervos

Como o Brasil, país de raros leitores, pode ser tão preconceituoso? Fala-se tanto de incentivo à leitura, mas que incentivo é esse? Incentivamos o preconceito; incentivamos a ignorância, incentivamos a estupidez, incentivamos a arrogância, menos a leitura.

Renata Ferreira

Os livros que não gostamos têm o seu propósito: eles lapidam nossas leituras e nos fornecem a pista para que possamos encontrar livros que nos encante. Mas não podemos ter preconceito. Eu tenho grande dificuldade de ler livros que não sejam FC ou terror ou romances históricos, mas me arrisquei a ler Americanah e é um livro fantástico. Falta à grande parcela de leitores que pagam de cultos esse caráter de risco. E o principal, falta respeito da parte deles com quem não lê os mesmos livros ou gosta das mesmas coisas. Não julgue um livro pela capa, nem um leitor pelas capas que eles carregam nos braços.

Até mais!



Leia mais:
Então você acha fantasia e ficção científica escapismo?, por Lucas Rocha.
Sobre leituras e leitores, por Taissa Reis.
Mimimi, boa literatura nacional, best-selers idiotas, por Jim Anotsu.
Preconceito literário, por Fernanda Nia
Preconceito literário: onde estão os autores nacionais?, por Bárbara Vasconcelos


Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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1 comentários

  1. Concordo totalmente! E isso acontece também com outras formas de entretenimento como cinema, tv e quadrinhos. Meu gosto literário é mais conservador, mas não vou desprezar quem prefere autores novos. Gostar disso ou daquilo não torna ninguém superior ou inferior.

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