Resenha: A Passagem, de Justin Cronin

sexta-feira, junho 26, 2015

A Passagem é um livro que assusta muita gente, especialmente, por contar com mais de 800 páginas. Confesso que tive um pouco de preguiça de começar esse livro e mais preguiça ainda para terminá-lo. Livrões não me assustam, mas livrões chatos me incomodam muito. E em A Passagem temos alguns problemas.





O livro
Amy é uma menina retraída e assustada. Temos sua vida inicial contada com detalhes, a forma como foi concebida, um pai que batia na mãe, a falta de comida, a estrada e o carro onde morava com a mãe que precisava se prostituir. Enquanto temos flashes da sua vida, recebemos dados a respeito de um estranho vírus encontrado que aumenta e muito a longevidade do ser humano. Mas ele também pode matar e transformar as pessoas de uma maneira assustadora.


Algum tempo depois, dois agentes do FBI recolhem prisioneiros condenados à morte para serem usados em uma experiência do Exército. Eis então que chega uma ordem estranha, que o agente Wolgast treme ao pensar em cumprir: uma órfã foi deixada em um convento, cuja mãe foi acusada de assassinato. A experiência agora requer uma criança para testar o vírus. Ele não consegue deixar de pensar em sua própria filha, morta tão jovem e em seu doloroso divórcio.

O problema desse vírus é que ele tem transformado esses prisioneiros em seres abomináveis. Uns os chamam de virias, ou de fumaças, mas eles são parecidos com vampiros. Possuem uma grande sede por sangue, hipersensibilidade à luz e matam indiscriminadamente. Apenas alguns se transformam em virais, e somente Amy não foi transformada pelo vírus. Ela ficou com sensibilidade à luz, mas não se transformou. O agente Wolgast consegue tirá-la da base militar onde tinha passado por vários experimentos e se refugia nas montanhas. Conforme o tempo passa, ele recebe poucas informações de fora, mas sabe que tem algo errado. Até que Amy acaba sozinha.

O tempo então pula para mais de 90 anos. Temos alguns flashes sobre o desespero dos últimos dias, de como crianças foram embarcadas em trens, dos ataques, da escuridão e de como somente a luz potente poderia manter os virais longe. Até que chegamos à Primeira Colônia, onde alguns sobreviventes conseguiram se manter por décadas usando potentes holofotes sobre os muros para manter os virais longe. Poucos dados existem sobre "os dias de antes" e as pessoas vivem sem conseguir ver as estrelas nem se sentem tranquilas sob a escuridão.

Um viral.

A narrativa de Cronin é boa, mas poderia ser muito melhor se ele não ficasse narrando todo mero pensamento de cada um dos personagens, da garçonete sem nome ao coronel responsável pelos experimentos. Isso quebrou a narrativa várias e várias vezes tornando-a exaustiva, porque você está naquela tensão e de repente cai na lembrança adolescente de um dos personagens secundários e de como ele ficou tímido de beijar alguém que não devia numa noite atrás do barracão, ou sei lá o que. Ou então da lembrança da mãe de alguém morrendo, ou a lembrança de estar, pela primeira vez, no muro sob uma noite, tendo que abater os virais. Isso encheu o saco e tirou o gosto pela leitura.

Este é um recurso que, quando bem usado, é muito interessante. Mas Cronin exagerou nas lembranças secundárias e aí, de repente, você tem uma caralhada de pensamentos aleatórios que em nada contribuem para a narrativa. Além disso, o autor usou de eventos sobrenaturais e inexplicáveis, para vários momentos do livro, como quando Amy está num zoológico, antes do experimento, os animais se aproximam dela e "dizem" o que ela é (e você não sabe o que ela mesmo depois de acabar o livro). Este tipo de evento sem explicação pode cair bem em algumas narrativas, mas ficou completamente aleatório em A Passagem e foi desnecessário.


Ficção e realidade
Uma coisa que o livro narra bem é o desespero que acomete o mundo com a chegada dos virais e o que restou das construções humanas após o apocalipse. Temos a sensação de estar em locais abandonados e toda a cena de Las Vegas foi carregada de tensão pela cidade vazia, abandonada, a decadência das construções. Isso passa uma sensação de extremo isolamento que os personagens também sentiam, pois acreditavam serem os únicos humanos no país, até mesmo do mundo.


Pontos positivos
Distopia
Personagens femininas fortes

Pontos negativos
Narrativa arrastada
Eventos sobrenaturais
Personagens aleatórios


Título: A Passagem
Título original: The Passage
Autor: Justin Cronin
Editora: Arqueiro
Páginas: 816
Ano: 2010
Onde comprar: Amazon


Avaliação do MS?
Sou muito fã de distopias, mas Cronin errou a mão neste livro que é o primeiro de uma trilogia. O segundo volume, Os Doze, já foi lançado no Brasil e não estou com a menor pressa de ler. A Passagem tem eventos, personagens e situações aleatórias que o deixam exaustivo. Eu passei os olhos em vários momentos pelos parágrafos porque sabia que viria mais um pensamento aleatório daquele personagem que não ia viver muito tempo. Tive a nítida impressão que o livro não teve edição nenhuma, pois existem eventos demais ali que de nada servem. E mesmo os virais sendo essas criaturas vampirescas horríveis que deixam todo mundo cagando de medo, o leitor não sente esse medo todo. Três aliens para o livro.


Até mais!

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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