Você gostaria de ser imortal?

terça-feira, março 31, 2015

A busca pela vida eterna extrapola os desejos religiosos e cai de cabeça na ciência e também na ficção científica. Viver para sempre, vida eterna, imortalidade, não morrer nunca, a juventude eterna, são todos sintomas de um dos maiores medos que o ser humano possui: o medo da morte. Morrer, em especial para a cultura ocidental, está envolto em tabus e tristeza. Bora tentar viver eternamente, certo?





Gilgamesh e Enkidu.

Se compararmos a longevidade humana atual com a de dois mil anos atrás veremos que estamos no lucro. A humanidade nunca viveu tanto e tão bem quanto hoje. As vacinas, os antibióticos, os avanços constantes na medicina, na produção de alimentos e no saneamento básico estão levando o ser humano a idades que poucos indivíduos no passado conseguiram alcançar. E com isso, todas as doenças e problemas da velhice também chegam em um organismo que não foi programado para viver tanto. Começamos a ter problemas nas juntas, nas vistas, na memória, na locomoção e mulheres perdem a fertilidade.

É aí que entra a religião em primeiro lugar. E com ela as noções de vida eterna no Paraíso. Mas o problema é que a gente tem que morrer para isso, certo? E quem é que quer morrer para desfrutar disso se a tecnologia aqui mesmo puder dar uma forcinha? O conceito de vida eterna existe no hinduísmo, cristianismo, zoroastrismo, islamismo, judaísmo e da Fé Bahá'í. Essa busca é tão antiga quanto a própria civilização: a Epopeia de Gilgamesh, uma das primeiras obras literárias de que se tem notícia, que remonta a meados do século XXII a.C., é, essencialmente, a busca de um herói pela imortalidade.

Se não definirmos a eternidade como infinita duração temporal, mas intemporalidade, então a vida eterna pertence àqueles que vivem no presente.

Ludwig Wittgenstein

A imortalidade pode vir através da história. Gilgamesh, Ramsés, Platão, Aristóteles, Cleópatra, Júlio César, Rei Arthur, Shakespeare, Chopin, Marie Curie, Einstein. Estes nomes são usados e pronunciados com tamanha frequência que nem nos damos conta de que pertenceram a pessoas que um dia viveram sobre a superfície do mesmo planeta que você. Os nomes marcam de forma indelével a história, o mais próximo da imortalidade que a gente conseguiu até agora.

Mas e quanto ao organismo humano? É possível viver para sempre? Alguns cientistas apostam que sim, que é possível. A tecnologia, segundo Ray Kurzweil, nos dará essa possibilidade ainda no século XXI. Acho bem complicado fazer previsões quando tantas outras pereceram, mas fica aí a ideia. Algumas tecnologias, especialmente aqueles que eram da ficção científica, mas que estão vindo para a realidade poderiam nos dar essa forcinha. Cultivo de órgãos, membros biônicos, sangue artificial, controle de radicais livres, criogenia são tecnologias apontadas para o futuro próximo e que poderão estender a vitalidade do ser humano. Mas ser imortal?


Aliás, quem gostaria de ser imortal? Você gostaria? Pensando por essa perspectiva não sei se gostaria de viver para sempre. Qual é o sentido de ver as pessoas que amamos morrendo, o mundo que conhecemos caindo, o planeta em que vivemos sendo destruído para depois sobrar uma sopa amorfa de partículas e nós nesse meio todo? Uma população imortal poderia causar uma superpopulação que nenhum ecossistema aguentaria. Alguns cálculos informais dizem que cerca de 106.716.367 669 bilhões de pessoas já passaram pela Terra. CENTO E SEIS FUCKING BILHÕES DE PESSOAS! E você pode não gostar, mas o pó dos ossos dessas pessoas, o sangue delas, seu suor, excrementos e DNA são os responsáveis pelas gerações que vieram depois.

Existem implicações morais e ética na imortalidade. Viver para sempre poderia acarretar em demência e loucura. Imagine ser capaz de lembrar de tudo, de lembrar de cada rosto, de cada pessoa que você sabe que vai morrer. Poderíamos ver o advento de novas tecnologias cujas promessas animariam e muito uma população, mas que poderiam ser usadas para o mal, assim como a descoberta da radiação levou à bomba atômica. Seríamos obrigados a aprender cada nova teoria, cálculo, idioma, receita, que surgisse.

Tecnologias que melhorem as condições de saúde e de vida das pessoas sempre são bem vindas. Mas tudo neste planeta tem seu começo, meio e fim. O que nos dá o direito sobre as outras criaturas vivas de permanecer vivos eternamente? Alquimistas tentaram obter, durante séculos, a pedra filosofal para dela extrair o elixir da vida. No fim, a alquimia virou a Química moderna, que tem nos auxiliado bastante, mas não garantiu vida eterna a ninguém.

Nada menos que a imortalidade é uma completa perda de tempo.

A pergunta mais importante de todas que podemos fazer a respeito da imortalidade é: uma criatura imortal daria valor à vida, sendo que ele não corre o risco de perdê-la? Quem vive para sempre vai se preocupar com a vida em geral? Nossa cultura praticamente inteira cairia por terra se não morrêssemos. O medo da morte e da deterioração, de sermos esquecidos, ergueu culturas inteiras e mitologias. Os antigos egípcios tinham tremendo pavor do esquecimento e acreditavam que manter o corpo preservado era essencial para a alma do morto.

Talvez nossa Magnum Opus seja a de fazer o melhor possível para deixar viva a lembrança de nossos nomes e, se não de nossos nomes, pelo menos de nossos feitos. Cada coisa viva tem seu tempo de viver. O ser humano pode até extrapolar isso, mas será que deve?

Até mais!



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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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1 comentários

  1. Imagino o conflito religioso que surgiria se efetivamente conseguíssemos rejuvenescer o corpo humano. Imagine uma facção radical que afirmasse que a morte é uma punição de Deus e que todos os que usam de tecnologia pra permanecer jovens são abominações que merecem a morte.

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