Star Trek Voyager: humanidade e a representatividade

terça-feira, fevereiro 10, 2015

Star Trek Voyager é uma série odiada por muito talifã babaca de Star Trek. E não é porque não tem afinidade com o enredo ou porque ache chato. O motivo da maioria esmagadora é muito simples: capitã Kathryn Janeway. Para muitos destes talifãs, ter uma mulher comandando uma nave estelar é um disparate. Piadinhas idiotas com "só podia ser mulher pra levar sete anos pra voltar pra casa" começaram logo que a série foi ao ar. Mas na verdade, Star Trek Voyager é uma das melhores séries já feitas na televisão.




USS Voyager.

Quando Star Trek, A Nova Geração acabou, a Paramount queria outra série da franquia para acompanhar Deep Space 9. Voyager começou a ser concebida em 1993, com os Maquis, grupo terrorista e rebelde, sendo introduzidos em DS9. Foi a primeira série da franquia a usar apenas efeitos especiais em seus episódios, enquanto as anteriores se valiam de modelos em escala para as tomadas das naves. A mesma empresa que trabalhou nas três primeiras temporadas de Babylon 5, a Foundation Imaging, era a responsável pelos efeitos.

A Voyager é uma nave da classe Intrepid, com número de registro NCC-74656. Sua velocidade em dobra máxima é de 9.975. Outros dados:

  • Armamento - torpedos fotônicos, banco de phasers, torpedos transfásicos e de tricobalto
  • Defesas - escudo defletor, casco com armadura reforçada
  • Motor - de dobra, de impulso, com reator de matéria/anti-matéria, de fusão e um reator holográfico
  • Comprimento - 344 metros
  • Inauguração - 2731

Sua missão inicial era caçar a nave Maquis além das Badlands, mas um pulso misterioso de energia os joga do outro lado da galáxia, no inexplorado Quadrante Delta. Como sobreviver longe de tudo o que você conhece? Como manter unidas duas tripulações, uma da Federação, outra Maquis, renegada e rebelde, pouco acostumada às regras? Esses são os desafios da capitã Janeway, que para não prejudicar todo um povo, preferiu fazer o caminho mais longo para casa.

Tripulação, da 4ª até a 7ª e última temporada.

Mas por que a série é um marco no quesito representatividade e humanidade?


Mulher no comando
Apesar de as séries de ST sempre terem mostrado mulheres em posição de comando, como almirantes, capitãs, comandantes, cientistas, engenheiras, ainda não havia uma personagem central, comandante de nave estelar e em uma série própria. Janeway é durona, no melhor estilo capitão Picard, mas é destemida, corajosa, que toma decisões firmes com quem quebra as regras e que luta pelo o que acredita. Janeway faz da Voyager um lar permanente e nômade, unido em um lugar inexplorado da galáxia. Os desafios são imensos. São setenta anos, cortando caminho, até chegar em espaço da Federação.


O fato de termos uma mulher no comando, tomando decisões polêmicas, irritou muitos talifãs. As piadas sobre "só podia ser mesmo uma mulher no comando pra voltar em 70 anos", "nunca vai achar o caminho de volta", até a "velha vadia, cadela da Federação" surgiram assim que os episódios foram ao ar. Nerd misógino tem em qualquer lugar e ainda hoje tem babaca que comenta desta maneira.

Para quem já se sente bem representado por Kirk, Picard, Riker, entre outros, uma mulher no comando e não um homem branco-cis-hetero-pegador incomoda mesmo. Mas ter uma capitã de nave estelar foi bastante importante para toda uma legião de fãs, especialmente mulheres que, finalmente, tinham alguém com quem se identificar.

Sua liderança vai muito além do arquétipo de mulheres fortes retratadas em seriados. Ela vai além disso, mostrando que não é necessário encarnar características masculinas ao extremo para se tornar uma grande líder.

Janeway e eu, por Lilian Felix


Comandante indígena
O comandante Chakotay é um marco para a televisão. O personagem é um ex-rebelde Maquis, colocado como segundo oficial em comando da Voyager depois da batalha que matou uma parte da tripulação da nave. Como os Maquis estavam a bordo, o único jeito era incorporá-los à tripulação restante e tentar fazê-las trabalhar juntas. Mas nem tudo são flores, os atritos começam logo de cara, e Janeway e Chakotay precisam trabalhar juntos para impedir um motim.


Chakotay é um nativo norte-americano, um indígena, muito orgulhoso de suas origens. A série não deixa claro qual é a etnia dele, mas a ideia era representar a todos os povos nativos. Seus ancestrais deixaram a Terra a fim de manter seus traços culturais, como podemos ver pela tatuagem em seu rosto.

Você se lembra quando foi que viu um representante indígena tendo posição de destaque em um filme qualquer, ou série, especialmente de ficção científica, que não fosse a de se representante de um povo exótico e alienígena? Devido ao pioneirismo de Uhura, Star Trek conseguiu colocar um indígena como comandante de uma nave estelar em um país que há muito tempo deve desculpas aos povos nativos.


Vulcano negro
O comandante Tuvok, vulcano, é o chefe de segurança da Voyager, fazendo às vezes de oficial de ciências. Sua racionalidade extrema, sua experiência, sua frieza e inteligência sempre foram essenciais para o sucesso da nave em batalha e para prevenir invasões e sequestros por raças alienígenas do quadrante. Tuvok já era um oficial da frota estelar há muitas décadas antes da missão da Voyager e é um amigo de longa data da capitã Janeway.


Negros na ficção costumam ser mostrados como o alívio cômico, o cara da quebrada, aquele que conhece os mano, ou o piadista que tira sarro de todo mundo e ajuda o herói (branco-cis-hetero) em suas delicadas missões. Ele, em geral, não tem nenhum vínculo externo, sua vida não importa, sua função é de coadjuvante do herói. Tuvok quebra tudo isso. Os vulcanos são uma raça nobre e que valoriza a lógica acima das emoções. Tuvok é reservado, não tem senso de humor, valoriza o cumprimento das normas da Federação e não é de compartilhar seus problemas pessoais com ninguém, exatamente o contrário do que o estereótipo de negros apresenta. E isso é fantástico.


A Borg desconectada
Uma das raças alienígenas mais perigosas e incríveis de ST é dos Borg. O objetivo deles não é matar, nem aniquilar outras raças. Seu objetivo é a perfeição. E para conseguir isso, eles assimilam raças alienígenas à sua coletividade, tornando-se assim uma imensa mente coletiva, sem individualidade. Ao assimilar os conhecimentos das outras raças, eles aumentam suas chances de ser uma raça perfeita. Sempre vimos em ST que os Borg parecem implacáveis, onde as pessoas praticamente não poderiam mais a ser o que eram, que a assimilação era permanente ou quase.


Apesar da hipersexualização da personagem, Sete de Nove é um dilema nas mãos da capitã Janeway. Sua família foi toda assimilada pelos Borg e a coletividade é tudo o que Sete conheceu. O retorno para a raça humana é difícil, tortuoso. A maneira de lidar com o significado de humanidade em Sete de Nove e suas tentativas de entender cada nuance humana fazem dela um dos melhores personagens de toda a série. Como se apaixonar? Como entender piadas? Como compreender os conflituosos sentimentos humanos quando você viveu, por anos, tendo isso completamente suprimido pela tecnologia avançada dos Borg?


O ser humano holográfico
Depois do ataque à Voyager, o oficial médico-chefe morreu, deixando a nave sem nenhum médico. Nestas ocasiões, o Médico Holográfico de Emergência é acionado até que um novo médico seja enviado pela Frota Estelar. O problema é que a Voyager está na casa do caralho no Quadrante Delta, muitos anos-luz longe de qualquer posto avançado. E agora? O jeito foi manter o Doutor ligado quase que permanentemente para poder cuidar do bem estar da tripulação.


O Doutor passa, então, a ser tratado como um ser humano, como um tripulante qualquer dentro da nave. Ele tem domínio de suas funções, podendo desligar-se quando quiser. Seus bancos de memória não podiam ser alterados e em um dos episódios mais incríveis da série, onde ele perdeu uma paciente e não conseguia lidar com isso, ele se torna o paciente. Cada dia e noite um tripulante ficava com ele, para não se sentir sozinho, até que ele se recuperasse. Lições de humanidade vindo de um holograma.

A engenheira-chefe
B'Ellana Torres foi cadete da Frota Estelar, mas acabou tornando-se Maquis. É uma excelente engenheira e conquista seu lugar como engenheira-chefe da Voyager após mostrar serviço para a capitã. Infelizmente, B'Ellana também se irrita fácil, um traço do sangue klingon vindo de sua mãe (B'Ellana tem pai humano), o que lhe dá dor de cabeça com outros membros da tripulação, especialmente aqueles da Frota Estelar.


Star Trek tem uma longa tradição de engenheiros-chefe homens. Scott, LaForge, O'Brien e, finalmente, uma mulher em VOY. B'Ellana e Janeway se entendem bem, discutem sobre motor de dobra e partículas subatômicas como se trocassem receita de bolo. Discussões como essa fazem a série passar no Teste de Bechdel em todas as temporadas, e na quinta temporada, todos os episódios passam nele.

Quantas moças, meninas, assistindo à série, se sentiram encorajadas a seguir carreiras, até então, tidas como "masculinas" devido a personagens como essas? Sabemos bem como algumas moças são tratadas em cursos repletos por homens. Quantas moças aspiraram subir na carreira, como Janeway, chegando a cargo de chefia? Vemos o modo deplorável com que a mulher costuma ser representada na ficção e ver uma série com tantas mulheres em posição de comando, ver tantas minorias sendo bem representadas, ver tantas lições de humanidade, ética e respeito são um vento fresco em plena tarde de verão.

O ódio injustificado de muitos fãs se deve, exclusivamente, à misoginia e falta de empatia. E mesmo aqueles que acham que não, que não tem nada a ver, mas que odeia a série, peço que faça um esforço e pense o porque de seu ódio. Se é porque não gosta de Janeway, se é porque acha que mulher no comando nunca chegará em casa cedo, parabéns, você é um machista e não soube apreciar em NADA o que a série tem a oferecer. Ou porque acha que um personagem em posição de chefia e liderança não pode ser negro. Preconceitos, em geral, estão enraizados e são perpetuados em piadas, em comparações toscas, em todo tipo de comentário maldoso, e até mesmo na linguagem.

Existem outros seres humanos que carecem de representatividade. A raça humana não tem apenas uma cor, um jeito de se exercitar sexualidade ou de se expressar. Temos múltiplas cores, múltiplas formas de amar e de se relacionar com os outros. E elas precisam ser mostradas.

Até mais!



Leia mais:
Grandes mulheres da ficção científica
O feminismo em Star Trek
Janeway e eu



Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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1 comentários

  1. Uau! Amei seu texto! Voyager é a minha série preferida!! Muito amor por todo esse elenco <3 !

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