Resenha: A Menina Submersa: Memórias, de Caitlín R. Kiernan

sábado, fevereiro 21, 2015

Este não é um livro fácil! Neil Gaiman diz que poucos escrevem como Caitlín R. Kiernan. Fiquei semanas digerindo ele, tal como uma sucuri que acabou de jantar. Foi difícil terminar a leitura, pois este não é um livro como os que costumamos pegar nas prateleiras. A Menina Submersa é um relato louco sobre um enredo fantástico, onde acompanhamos uma protagonista que está escrevendo um livro... confuso? Então bora ler a resenha.





O livro
'Vou escrever uma história de fantasmas agora’, ela datilografou. ‘Uma história de fantasmas com uma sereia e um lobo’, datilografou mais uma vez.
Eu também datilografei.

India Morgan Phelps, ou Imp, é uma menina que tem nos livros, nos vinis antigos de sua mãe e na pintura os grandes companheiros na luta contra seu histórico genético esquizofrênico e paranoico. Sua avó e sua mãe se suicidaram para escapar das garras da loucura e Imp tenta, por caminhos tortuosos entender o que aconteceu com ela e com Eva Canning, com sua namorada e consigo mesma.


A narrativa não-linear nos joga no tempo e na cabeça de Imp o tempo inteiro. Confesso que isso me incomodou porque não é um tipo de narrativa ao qual estou acostumada. Teve momentos em que eu tinha que ler o mesmo parágrafo para tentar entender o que se passava e nem sempre conseguia. Mas sair da zona de conforto de vez em quando faz bem. Nós vemos o passado de Imp com sua avó, vemos sua relação com uma namorada gamer, expulsa de casa por ser trans*. Vemos como ela busca na memória o que é fato e o que é fantasia depois de receber a estranha visita de Eva Canning, uma mulher misteriosa e que se descortina aos poucos.

Imp vagueia pelas impressões de várias obras de arte, especialmente uma que tem fixação, chamada A Menina Submersa, de Phillip George Saltonstall e Fecunda Ratis, de Albert Perrault. Temos uma visão tão ampla e aprofundada destes obras e destes artistas que acreditamos que eles realmente existiram. É preciso ir ao Google para descobrir que tanto os autores como as obras são personagens do livro. E personagens reais ou tão reais quanto Imp quer nos fazer acreditar.

Como sua memória é errática, ela nos avisa várias vezes que não tem bem certeza se algo aconteceu daquele exato jeito, mas que pode ter sido bem parecido com aquilo. É como se tivéssemos um véu o tempo todo que nos impedisse de ver o concreto, apenas o que Imp quer que vejamos. Acho que o único momento em que podemos ver a mente de Imp é quando ela deixa de tomar seus remédios, na tentativa de descortinar Eva, e mergulhamos na esquizofrenia, paranoia, lembranças confusas e feras de sua cabeça. Foi preciso que sua namorada invadisse seu apartamento e a colocasse nos eixos novamente.


O livro é lindo, como todos os livros da editora DarkSide. Temos folhas, besouros e outros bichinhos perdidos por algumas páginas, além de algumas ilustrações. A capa é simples, mas a brochura é bem acabada e a impressão muito boa. O meu livro, no entanto, veio com algumas páginas picotadas na parte de cima, como se a lâmina que corta o papel estivesse meio gasta e com alguns erros de digitação.


Ficção e realidade
Como é entrar na cabeça de um doente mental? Ou de um paranoico? De um lunático? De um esquizofrênico? Como é ver a loucura de perto, como um livro, narrado de forma a nos fazer entender sua loucura? Será que um dia isso será possível? E o mais importante: mesmo que seja possível, teremos condições de compreender a loucura e o que se passa na cabeça de cada um?

Caetano Veloso diz que de perto ninguém é normal. Cada um de nós tem seu lobo espreitando na floresta, tem seus esqueletos no armário, tem sua própria cota de loucura e paranoia, tem uma sereia contando em nossos ouvids. Acho que se tentássemos narrar nossos próprios pensamentos, não sairia tão diferente da narrativa de Imp.

Não vejo muita resolução no mundo. Nascemos, vivemos e morremos, e no fim disso há somente uma confusão feia de negócios inacabados.

Imp


Pontos positivos
Loucura
Protagonista feminina
Seres fantásticos
Pontos negativos
Partes maçantes e confusas
Capítulos arrastados


Título: A Menina Submersa: Memórias
Título original: The Drowning Girl
Autora: Caitlín R. Kiernan
Editora: DarkSide
Ano de lançamento: 2014
Páginas: 317
Onde comprar: Amazon - capa dura e capa comum

Avaliação do MS?
Fica difícil fazer uma resenha de uma narrativa não-linear sem parecer confusa. Mas minhas impressões sobre o livro variavam de acordo com o momento em que Imp estava. Houve instantes em que achei que não entendia mais nada, depois estava novamente no apartamento dela, para logo em seguida ser jogada em uma espiral de loucura com os devaneios dela. Se você está procurando algo para sair do comum, algo para viajar e se surpreender, não pode deixar A Menina Submersa longe de sua estante. Quatro aliens para o livro e uma recomendação para que você leia.


Até mais!

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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9 comentários

  1. Também estou nessa viagem da Imp. É desconcertante.

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  2. Sou louca por este livro. Começou pela capa, e depois que vi uma resenha afirmando que se tratava de um relato sobre doenças mentais, fiquei ainda mais atiçada a ler. Sua resenha me convenceu a colocar o livro na listinha de prioridades. Aliás, não conhecia seu blog. É muito bonito, e adorei os aliens de notinhas!
    Beijos!

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    Respostas
    1. Oi, Lívia! Bem vinda e obrigada!

      O livro vai te tirar da zona de conforto, esteja preparada!

      =D

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  3. Livro maravilhoso!
    Confesso que é um dos meus favoritos da DarkSide ♥

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  4. Olá, Lady.
    Sua resenha ficou muito boa! Você soube captar bem a essência do livro.
    Li mês passado para o mês do terror, como é chamado outubro, e até fiquei postergando a leitura porque eu sou uma pessoa muito medrosa e fujo de livros desse gênero. Mas fiquei muito surpresa ao iniciar a leitura e me dar conta de que não era um livro de terror, está mais para um livro de suspense, um livro de fantasia e não senti mesmo, mas ficava ansiosa para saber o que ia acontecer toda vez que a Eva era citada.
    Achei fantástico a forma como a autora consegue fazer com que o leitor se sinta dentro da mente da personagem, especialmente naquele capítulo sete, em que a Imp tem a crise. Se é desesperador para mim, que sou uma pessoa "normal", fiquei imaginando como deve ser para as pessoas esquizofrênicas.
    Abraços.

    Minhas Impressões

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  5. AMO demais esse livro, e sem duvidas é o meu preferido, comecei a ler final de Julho, logo após o meu aniversario, e acabei logo no proximo mês, o devorando em menos que UM mês . Achei uma bela narrativa, que me provocou e me viciou intensamente .. e pela sorte do destino a prova do livro do meu colegio desse ultimo bimestre era livre, e eu me dei de cara com a menina submersa denovo !
    Eu não achei uma narrativa difil como muitos dizem...

    AH amei o blog, pode ter certaza que vou acompanhar sempre s2

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