As mulheres de Interestelar

terça-feira, novembro 25, 2014

O novo longa de Christopher Nolan tem causado discussões entre fãs sobre sua ciência, seu enredo, até trilha sonora. Também tem dividido fãs em dois lados bem distintos: uns amaram (como eu), outros odiaram (e em muitos casos porque não entenderam a ciência dele). Eu o achei até bem didático mesmo para quem não entende de buracos negros ou viagens interestelares, mas há um ponto gerando discórdia que é a representatividade feminina do filme.





Sendo bem direta, o filme só tem duas mulheres de destaque e o protagonista é Cooper, personagem de Matthew McConaughey. Tem estereótipos óbvios no filme, como o fato de termos, novamente, sem variar em nada de filmes anteriores, um herói branco, heterossexual, cisgênero. Isso não é novidade na ficção científica, é padrão há muito tempo. Temos duas mulheres com maior importância na trama inteira: uma é a Dra. Amelia Brand (Anne Hathaway), filha de um antigo professor de Cooper, Dr. Brand (Michael Caine), que trabalha para a NASA (ou o que restou dela). A segunda é Murphy, filha de Cooper que, quando o pai parte em missão, tem dez anos e quando adulta é interpreta por Jessica Chasthain.

Essas duas mulheres não se falam durante o longa. Até porque Amelia Brand é adulta quando conhece Murph, que está muito triste com a partida do pai e assim fica com raiva dele durante anos. E como Cooper é quem mais aparece em cena, além do fato de termos apenas um negro e depois todo um elenco masculino branco é sim um entrave para uma maior representatividade. Até comentei no Twitter que adoraria ver Viola Davis no papel de Cooper e que sua filha adulta fosse Lupita Nyong'o.

Murphy criança com o pai.

Mas o fato de um filme não passar no Teste de Bechdel não é sinônimo de que suas mulheres sejam fúteis, fracas e passivas, ao contrário. Interestelar tem um diálogo apenas de Murphy com a cunhada e só também. Alien, o Oitavo Passageiro e Gravidade também não passam no teste, mas suas personagens são foda. Em Interestelar temos uma astronauta (Brand) que deixa para trás a Terra, deixa seu pai, e parte em uma missão que tem muito mais coisa contra do que a favor, enquanto Murphy fica chateada com a partida do pai, mas torna-se cientista - algo que seu pai queria que os dois filhos fossem ou que, pelo menos, fossem para uma universidade.

Leia a resenha de Interestelar.

Costumamos ver na ficção científica mulheres que estão lá como prêmio, enfeite ou objeto de desejo. No caso de Interestelar elas não são isso, um alívio. Um ótimo exemplo de prêmio, enfeite e objeto de desejo em FC é Mikaela de Transformers. Além disso, Brand e Murphy procuram soluções científicas para os problemas que surgem. Murphy recebe dados vitais que podem resolver um sério problema que põe em risco a sobrevivência da raça humana, mas é ela quem refaz toda a equação do Dr. Brand, que antes não funcionava e a resolve.

Murphy.

Brand é uma cientista que não deixa de lado a emoção. É muito comum vermos mulheres cientistas na FC que são frias, racionais, mas Brand não deixa de lado as explosões de raiva ou o sentimento por um amor perdido. Interessante ver que Cooper chora várias vezes durante o filme e não foi criticado. Mas Brand ao extravasar emoções foi logo chamada de "mulherzinha". O mesmo para Murphy, quando dá piti em casa porque não quer que o pai vá para uma missão onde ele pode nunca mais voltar. Você reagiria com frieza e aceitaria na boa a possibilidade de nunca mais ver alguém que ama?

Entendo que o filme peca em não ter uma representatividade maior. Eu mesma gostaria de ver uma mulher como protagonista no filme. Seria interessante inverter toda a situação e colocar dois homens e o restante mulheres. O núcleo da trama é composto por brancos e temos somente um negro. No entanto, as duas mulheres de destaque do filme não são passivas na obra. Elas participam do enredo de forma decisiva e é Cooper que, praticamente, vai ao encontro delas durante o longa.

Dra. Amelia Brand.

Pessoalmente, me identifiquei muito com Murphy. Ela me pareceu a mais humana dos personagens, pois se irritou, se calou, depois se resignou e pensou "bem, agora o que eu devo fazer?". Ela não ficou quieta esperando um resgate. Se não tivesse perseverado no que acreditava, no que sabia ser o certo, a humanidade estava perdida. Com relação à Brand, ela não se sacrificou para que o personagem masculino chegasse ao seu objetivo, foi exatamente o oposto. Os sentimentos dela e a missão estavam em primeiro lugar.

Não é um filme perfeito do ponto de vista de diversidade e representatividade, mas Interestelar trouxe mulheres que não se acomodaram e que puseram a mão na massa. Quantas personagens assim costumamos ter nos grandes lançamentos do cinema e nos filmes de exploração espacial que não sejam fúteis e caricatas? Pois é. Acho que, pelo menos, nesse sentido, podemos nos identificar com Brand e Murphy.

Até mais!



A Giza, em seu blog, também escreveu um texto muito bom sobre Interestelar!

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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"A ficção científica é um substituto para todos os lugares que eu nunca vou alcançar nessa vida."

James W. Harris