Racismo e o astronauta no passado

terça-feira, agosto 19, 2014

Eu evito muito, mas muito mesmo, em tocar no assunto do astronauta no passado devido ao furor com que os fãs de Daniken (que apelidei de daniketes) chegam aqui para me agredir. Até torceram para que, um dia, eu fosse "abduzida" por ser uma "descrente" sobre a "teoria" do alienígena ou astronauta no passado. Mas existem fatos em todo esse imbróglio que são difíceis de ignorar.






A ideia do astronauta no passado não me desce por um motivo muito simples: porque ela reduz o ser humano a um mero lacaio burro de alienígenas benevolentes e empilhadores de pedras, que "criaram" a humanidade e depois sumiram sem deixar vestígios críveis e legítimos. Ou seja, toda a força do intelecto, do braço e da boa vontade da raça humana passam longe diante da magnificência dos alienígenas que tinham capacidade de viagem interestelar, mas precisavam de plataformas de pedras e desenhos no chão para poderem pousar. A meu ver, o astronauta no passado não é uma teoria, mas uma verdadeira seita e se você fala algo ao contrário, os ataques começam.

Quando você lê Eram os Deuses Astronautas? ele realmente impressiona, mas não se sustenta. Erik Von Daniken é apenas um escritor que abusa do sensacionalismo para tornar suas afirmações mais críveis. Não são poucas as afirmações dele que foram derrubadas pela arqueologia. E também não são poucos os processos que Daniken já sofreu, inclusive por falsidade ideológica e fraude. Daniken não responde a nenhuma pergunta, ele não consegue provar nenhuma hipótese. Ele mesmo já disse que é indiferente à verdade e que só escreve histórias fantasiosas para fazer dinheiro. E fez muito.

Elizabeth Taylor como Cleópatra espalhou a ideia de que a grande rainha era mais europeia do que africana.

Seguindo o princípio de que o ser humano é um lacaio burro de aliens, fica assim bastante fácil dizer que povos como os antigos egípcios, ou os maias, incas e astecas, ou o povo do Zimbábue eram incapazes de construir suas magníficas civilizações. E pode reparar que estes povos têm algo em comum: não são brancos. Na verdade, falar de um Egito Antigo com reis e rainhas negros parece causar urticária em algumas pessoas. No entanto, nunca vi alguém dizer que o Coliseu, a Muralha de Adriano, ou o Partenon foram construídos por aliens.

Cleópatra, por exemplo, foi retratada no cinema sempre como branca, de porcelana, olhos azuis. Mesmo o ramo de Ptolomeu, a casa de Cleópatra, sendo macedônia, o próprio povo do mediterrâneo não é porcelanado de olho azul e já existem dados indicando que parte de sua descendência vem da África. Toda a realeza egípcia, inclusive das dinastias mais antigas, é ainda retratada como branca, porque parece um absurdo admitir que uma das maiores civilizações do planeta, que já era considerada antiga pelos próprios gregos, tidos como os "fundadores" da civilização, pudesse ser negra. Quem quiser se aprofundar nisso, procure pelo escritos de Cheikh Anta Diop. Em geral, os negros ficam relegados aos papéis secundários nas produções de cinema. Se você acha um absurdo isso, clique aqui e veja o elenco do novo filme de Ridley Scott e veja quem são os ladrões e quem é a realeza egípcia, incluindo Moisés, a Rainha Tuya e o próprio Ramsés.

Quetzalcoatl.

Exemplos desta "branquização" estão por aí. José do Egito, da rede Record, tem apenas atores brancos nos papéis principais, bem como outras produções de época. Basta assistir ao filme Cleópatra, com Elizabeth Taylor e procurar pelos negros. Eles, em geral, estão em posições subalternas ou até mesmo escravos.

Um dos exemplos mais escandalosos de tentar rebaixar povos do passado ou de retratá-los como brancos é sobre o mito do deus Viracocha. Nas aulas de história das Américas, no ensino médio, eu aprendi que os incas receberam os espanhóis muito bem, pois eles pareciam com seu deus Viracocha, brancos e de barba. Cronistas espanhóis do século XVI disseram que Francisco Pizzaro foi bem recebido pelos nativos devido à sua pele clara e barbada, que lembrava a descrição do seu principal deus. Pedro Cieza de León, em 1553 foi o primeiro a relatar isso e mais tarde Pedro Sarmiento de Gamboa fez o mesmo. Histórias semelhantes de outros cronistas descrevem Viracocha como um deus branco, barbado. Os relatos dos próprios povos nativos não fazem menção alguma à descrição de seus deuses como semelhantes aos conquistadores.

Situação semelhante aconteceu com os astecas e com seu deus Quetzalcoatl e diversas outras divindades das Américas Central e do Sul. Por muito tempo se sustentou a ideia de que a barba representava um papel central na mitologia destes povos, pois os ligaria à pré-história europeia, de onde teriam partido os primeiros habitantes das Américas, que posteriormente ficaram conhecidos como seus deuses. Povos nativos das Américas, em geral, não têm barba, mas a cultura Moche, no Peru, e sua famosa cerâmica é toda retratada com barba, isso bem antes da chegada dos espanhóis. E quando os padres Silvestre Vélez de Escalante e Francisco Atanasio Domínguez entraram em contato com a cultura Paiute, ambos relataram que:

"Some of the men had thick beards and were thought to look more in appearance like Spanish men than native Americans"
Alguns homens tinham barbas finas e pensamos que eles se pareciam mais com espanhóis do que com americanos nativos.

Cerâmica Moche, mostrando homens barbados.

Como se isso não bastasse, voltemos ao caso de Daniken, onde ele "disserta" sobre as origens "raciais" do ser humano em seu livro Signs of the Gods. A tradução eu fiz livremente, pois não encontrei o livro em português.

“The evolutionists say that man descends from monkeys. Yet who has ever seen a white monkey? Or a dark ape with curly hair such as the black race has?”
Os evolucionistas dizem que o homem descende dos macacos. Mas quem já viu um macaco branco? Ou um macaco negro com cabelo enrolado como a raça negra tem?

“Were the extraterrestrials able to opt between different races from the beginning? Did they endow different human groups with different abilities to survive in different climatic and geographical conditions?”
Eram os extraterrestres hábeis em optar por diferentes raças desde o começo? Eles teriam dotado diferentes grupos humanos com diferentes habilidades para sobreviverem em diferentes condições climáticas e geográficas?

”Today it is assumed that primitive men had dark skins.”
Hoje assume-se que os homens primitivos tinham pele escura.

“Was the black race a failure and did the extraterrestrials change the genetic code by gene surgery and then programme a white or a yellow race?”
Teria sido a raça negra uma falha e os extraterrestres mudado o código genético por cirurgias genéticas e, então, programado uma raça branca ou amarela?

“Nearly all negroes are musical: they have rhythm in their blood.”
Quase todos os negros são musicais: eles têm ritmo em seu sangue.

“I quite understand that I am playing with dynamite if I ask whether the extraterrestrials ‘allotted’ specific tasks to the basic races from the very beginning, i.e. programmed them with special abilities.”
Entendo que estou brincando com dinamite se questiono se os extraterrestres atribuíram funções específicas desde o começo, i.e. os programaram com habilidades especiais.

“I am not a racialist… Yet my thirst for knowledge enables me to ignore the taboo on asking racial questions simply because it is untimely and dangerous… why are we like we are?
Eu não sou racista... Mas minha sede pelo conhecimento me permite ignorar o tabu ao fazer questões raciais simplesmente por ser inoportuna e perigosa... por que somos como somos?

“Once this basic question is accepted, we cannot and should not avoid the explosive sequel: is there a chosen race?”
Uma vez que a a pergunta foi aceita, não podemos nem devemos evitar sua explosiva consequência: existe uma raça escolhida?

Hernan Cortes e a conquista do México. 

Já ouvi de muitas pessoas que eu devia ser mais "mente aberta" para a ideia do astronauta no passado, pois é perfeitamente "plausível" que os aliens tenham vindo para cá e auxiliaram o ser humano a construir a civilização. Para a ficção científica é sim muito plausível, Stargate taí que não me deixa mentir. No entanto, sinceramente, acreditar que somente alguns povos da antiguidade eram capazes de construir monumentos impressionantes, enquanto outros - especialmente europeus - não são acusados de conspiração com aliens em suas construções é um exemplo de racismo científico e preconceito contra os povos nativos. Eu também ouvi na escola que os indígenas eram, "naturalmente", preguiçosos e vagabundos e no filme Dança com Lobos acontece um diálogo igual enquanto o personagem de Kevin Costner vai para seu posto na fronteira.

Este tipo de mito é danoso e ainda é o responsável pelos preconceitos que existem na sociedade para todos aqueles que não são caucasianos. Por várias vezes durante a história, pseudocientistas tentaram rebaixar as populações não-europeias com base em características físicas e/ou sociais. Para alguém que afirma que a raça negra foi um "erro", é um passo para afirmar que os aliens tiveram que dar uma forcinha para construir as pirâmides.

O próprio Carl Sagan teceu alguns comentários sobre Daniken, nem um pouco elogiosos.

Aquela forma tão descuidada de escrever como a de von Däniken, cuja principal tese é de que os nossos antepassados eram bonecos, ao ser tão popular é um comentário sobre a credulidade e desespero dos nossos tempos. Mas a ideia que seres de qualquer outro lado viriam salvar-nos de nós próprios é uma doutrina muito perigosa - semelhante ao do médico charlatão cujos tratamentos impedem que o cliente procure um médico competente para o ajudar e, quem sabe, talvez curar a doença.

Carl Sagan, no prefácio de The Space Gods Revealed

O desespero dos nossos tempo também tem uma explicação. Darwin nos tirou de "sua imagem e semelhança" com Deus e Copérnico tirou a Terra do centro do universo. Se nossos deuses e religiões deixam de responder às questões mais fundamentais da civilização - de onde viemos, qual nossa posição no universo - a melhor saída para isso é procurar respostas em outro lugar. E os alienígenas visitando a Terra, alterando o código genético, selecionando raças para serem dominantes e auxiliando aquelas que não eram tão hábeis se encaixa como uma luva.

Como artifício de ficção especulativa, não tenho problemas. Mas tentar fazer isso se encaixar na arqueologia, desmerecendo a ciência séria por alegações sensacionalistas de um programa de TV e de um charlatão é demais para a cabeça. As pessoas têm o direito de acreditar no que quiserem, mas não aceitem isso pronto, mastigadinho. Daniken teve seu apelo em mim na época em que li Eram os Deuses Astronautas?, porém com pouca pesquisa é fácil perceber que ele não tem noção do que está dizendo e que o programa do History não passa de entretenimento barato e bastante falho, com alegações fabricadas para caberem na fala dos "especialistas".

Até mais!



Leia mais:
"Leading Expert on UFOs" Nick Pope: Ancient Astronaut Theory "Borderline Racist"
The Astonishing Racial Claims of Erich von Daniken
Is pseudoarchaeology racist?
Um Egito Negro incomoda muita gente
10 Arguments That Prove Ancient Egyptians Were Black


Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





Leia esses também...

2 comentários

  1. Belo texto, me surpreendeu voce falar que sofre agressoes de fãs do Daniken, não achei que isso existiria, mas de fato tem maluco pra tudo.

    Quanto a ideia de Deuses Astronautas, eu nunca tinha pensado por esse lado racista dessa visão, onde torna o homem branco capaz de suas construções mas o restante não. Esta ai mais um motivo para eu não gostar das obras de Daniken.

    E o Daniken escorregou no famoso argumento "não sou racista, mas...".

    Os que as pessoas que defendem a ideia dos astronautas não percebem é que estão complicando ainda mais. Mesmo que tenha alguma mega construção antiga que não saibamos como de fato foi feita. Se considerarmos que foi obra humana, basta encontrar como foi feita. Agora se considerarmos que foi obra de alienigenas, teremos que: Mostar que eles existem, mostrar que conseguem vir pra cá, e ainda mostrar como foi que construiram.

    Mas no final os aliens se tornam um deus das lacunas, e por isso digo que essa crença na verdade são nossos mitos modernos.

    Por fim, parabéns pelo texto.

    ResponderExcluir
  2. Texto de 2014 e eu ainda não conhecia... com certeza um de seus escritos mais inspirados. E sobre esses que não param de criticar e atacar, um antepassado seu já disse como se portar: Arik tree-ac te kek! (hehehe)

    ResponderExcluir

ANTES DE COMENTAR:

Comentários anônimos, incompreensíveis ou com ofensas serão excluídos.
O mesmo vale para comentários:
- ofensivos e com ameaças;
- preconceituosos;
- misóginos;
- homo/lesbo/bi/transfóbicos;
- com palavrões e palavras de baixo calão;
- reaças.
A área de comentários não é a casa da mãe Joana, então tenha respeito, especialmente se for discordar do coleguinha. A autora não se responsabiliza por opiniões emitidas nos comentários. Essas opiniões não refletem necessariamente as da autoria do blog.

Viajantes

Curta no Facebook

❤️


"A ficção científica é um substituto para todos os lugares que eu nunca vou alcançar nessa vida."

James W. Harris