Ficção científica, uma aventura pessoal

quinta-feira, agosto 07, 2014

A dificuldade de se definir o que é ficção científica parece soar sem importância para quem não curte o gênero. Mas quem é fã e quem já parou para pensar sobre o assunto deve ter percebido que não dá, simplesmente, para dizer que ficção é algo e acabou, fim da história. Ela tem tantas coisas a considerar que acredito que somente uma aventura pessoal com a FC pode ajudar alguém a entender o que ela é, mas esse alguém nunca conseguirá defini-la completamente.




Lembro que eu participava de um grupo de ficção científica no Facebook e uma vez, em uma discussão, fiz um certo comentário que resultou em um comentário seguinte bem inflamado e rude de outro usuário do grupo. Ele questionava, com bastante veemência, se eu tinha uma definição só minha de ficção científica (exagerando nas interrogações e exclamações), pois ele não estava "entendendo" o que eu queria dizer.

O problema não foi meu comentário. Ou a agressividade verbal do usuário. O problema é o gênero em si. Todos nós temos uma noção do que é e do que não é ficção científica, mas explicá-la é tão ou mais difícil do que explicar o que é um capacitor de fluxo. É a mesma tarefa que descrever uma bola para um alienígena. Elas existem em vários tamanhos, formas, cores e funções, de bolas de vôlei a bolas de pilates, e por mais que usemos nossa capacidade argumentativa com ele, a explicação será, de alguma forma, ambígua demais para que um alien entenda o que é mesmo uma bola. Ou uma cadeira. Ou um passarinho.

Como saber que o alien entendeu o que a gente quis dizer? Resposta: não faço ideia. Ficção científica, além de ser um gênero ou categoria, é algo que também se faz na base de tentativa e erro, como a ciência. É como uma lista de músicas feita por pessoas com gostos afins: embora tenhamos coisas parecidas nas listas, não seguiremos a mesma ordem, nem podemos gostar das mesmas bandas ou cantores. É tão subjetivo que mesmo sendo um gênero igual, ainda haverá diferenças entre eles.

Existem muitas definições para ficção científica bem como existem mundos sonhados e desenvolvidos por seus criadores. Isaac Asimov disse:

(...) lida com a reação dos seres humanos às mudanças na ciência e na tecnologia.

Thomas M. Disch falou:

(...) onde tudo pode acontecer e deve.

J. O. Bailey comentou:

Ficção científica é uma invenção imaginária ou descoberta nas ciências naturais e suas consequentes aventuras e experiências (...) Deve ser uma descoberta científica - algo que o autor pelo menos racionaliza como possível para a ciência.

Já Brian Aldiss...

(...) uma busca pela definição de humanidade e seu status no universo, o que contribuirá para nossos avançados, porém confusos, conhecimentos.

E Theodore Sturgeon...

A história de ficção científica é uma história construída em torno de seres humanos, com um problema humano, e uma solução humana, o que não teria acontecido sem o seu conteúdo científico.


Talvez a melhor definição de todas seja aquela de John W. Campbell, que esteve à frente da revista Astounding Science Fiction, a quem Asimov chamou de "a mais poderosa força na ficção científica" (e que trabalhou com parapsicologia e eventos sobrenaturais em suas obras):

Ficção científica é o que eu disser que é.

É bastante subjetivo, certo? Mas para mim, cada uma das explicações que li para definir o que é ficção científica me pareceram corretas. Como lidar com tantas definições agora? Mas sabemos que podemos ir até um determinado horizonte, para não cair na fantasia. Então, ainda assim, existe um limite. Rod Serling assim disse uma vez:

Ficção científica é algo improvável tornado possível. Fantasia é algo impossível tornado provável.

Se formos falar de distopias, gostaria mesmo que nenhuma delas acontecesse, mas um futuro como o de Jornada nas Estrelas seria bem vindo. Existem tantas formas de trabalhar com raça humana, ciência e tecnologia que cada autor acaba sendo um pequeno universo em si, levando aos seus leitores suas próprias definições de ficção científica. Cada vez que um leitor vira a última página de um livro ou experimenta um filme de FC, ele acaba por tornar universo mais rico.


Eu poderia dar uma definição sobre o que acho ser ficção científica? Sim, posso. Para mim, a ficção científica trata do ser humano e de sua forma de lidar com ciência, com tecnologia e as implicações que isso pode gerar. Ficção científica é um grande SE no horizonte. Poderia elaborar mais, claro, só que isso complicaria ainda mais algo que já conta com definições muito melhores que a minha. Assim, fico com este que foi um dos grandes momentos da FC:

Sinto muito, Dave. Temo que não posso fazer isso.

HAL 9000

Até mais!


Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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2 comentários

  1. A definição que usamos na Trasgo: Se as coisas impossíveis no seu mundo têm uma explicação científica (ou pseudocientífica), é FC. Se for magia, é Fantasia. É uma definição beeeem rasa, mas funciona para a gente.

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  2. Ótimo texto. Outro dia num grupo do facebook sobre games, não me lembro mas acho que o assunto era Fallout, me peguei num debate e não fazia ideia do que dizer quando me perguntaram o que eu achava de steampunk e cyberpunk, se eu achava que tá tudo "no mesmo bolo",pq nos games é assim: Tem uma nave,uma arma de laser, é sci-fi. Resumindo, cheguei a conclusão que tenho até um preconceito com esses sub gêneros. É claro que eu gosto de algumas coisas desse tipo, mas nada que me pegue tanto quanto uma space ópera, ou uma história sobre civilizações galáticas num futuro à perder de vista. No fim, minha ficção científica é aquela que me afasta desse conceito de sociedade atual e me mostra uma humanidade mais avançada como algo possível, ainda assim ela mantém a crítica social sobre os nossos problemas atuais. Ok, o difícil é explicar tudo isso pra pessoas que não tem um interesse tão constante por FC quanto nós ^^

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"A ficção científica é um substituto para todos os lugares que eu nunca vou alcançar nessa vida."

James W. Harris