Trabalhar por amor

terça-feira, maio 13, 2014

Esta frase é escrota. Mas muito escrota. Não confunda com "trabalhar com amor", que é diferente. Essa tal frase "trabalhar por amor" implica que você não merece ser recompensado financeiramente por seu trabalho, afinal você tem que trabalhar por amor à coisa. Dinheiro para que, perguntam os outros? Você quer ser pago por que? Para que? E existem algumas profissões que são vítimas dessa frase. Algumas mais do que outras.




Trabalhar com amor é diferente de por amor. Trabalhar com amor implica que você gosta do que faz, que é feliz na carreira que escolheu e, espero, é remunerado por isso. Não tem coisa pior do que você trabalhar em algo que não gosta. Já tive dias de ir chorando para o trabalho porque odiava o que eu fazia e odiava mais ainda meus colegas, o ambiente, tudo. Nessa época, eu trabalhava no comércio e ficava irada de estar na loja das 14 às 22hs. Chegava em casa cansada, não conseguia estudar e meu desempenho na faculdade caiu muito neste período. Já na escola, eu cheguei a abrir mão de algumas aulas para o meu bem estar, pois sabia que aquele valor, que não era muito, provavelmente seria gasto com remédios.

No entanto, você gostar do que faz e querer ser remunerado por isso parece um absurdo para algumas pessoas. Ontem, um cara disse que a Clara Averbuck, escritora, que lançou uma campanha no Catarse para financiar seu livro, coletivamente, estava roubando e enganando as pessoas com o financiamento, que é feito a partir de doações. A meta para imprimir 120 livros era de 35 mil reais. Ela não apenas bateu esse valor como sobrou uma graninha, que ficam para ela. Quem financia recebe o livro, entre outras recompensas.


Para mim, é totalmente natural e aceitável que você seja remunerado por seu trabalho. Mas tem gente que acha um absurdo. Há quem entenda que você não precisa ser pago, especialmente quem é escritor e/ou professor. Estas duas ocupações são vistas como algo banal, em que a pessoa está lá por osmose. Mas ó só: você não é obrigado a fazer voto de pobreza para trabalhar em algo que ama. A gente deve ser remunerado por isso, porque eu posso ter amor ao trabalho que exerço, mas não posso pagar minhas contas com amor. Não dá para chegar no caixa do banco, fazendo coraçãozinho com as mãos e estar com tudo pago no final sem grana.

Então por que raios tem gente irritada em ver um escritor querendo ser remunerado por sua obra? Por que alguém questiona algo que nem deveria ser alvo de desconfianças? Trabalhar e ser remunerado por isso é uma sequência natural de eventos em qualquer sociedade civilizada. E todos nós temos nossas contas a pagar. Quem trabalha com textos, com a palavra, com a escrita, também tem. E esta é uma atividade que demanda tempo, concentração, criatividade e também, no mínimo, eletricidade e um computador, que - surpresa! - precisam ser pagos e custeados, afinal eles não caem do céu. Escritor também precisa se alimentar, fica a dica.


O que eu vejo é que tem gente que não encara o trabalho intelectual como trabalho. Não é à toa que escritor, professor, jornalista, entre outros tantos, tenham seu trabalho relativizado, diminuído, como se este não fosse um trabalho de verdade. Aposto que todo professor - e também escritor - já ouviu a pergunta: mas você não trabalha? Ou sua variante mais comum: você trabalha ou só dá aula/escreve? Vi muitas amigas reclamando que realizam trabalhos e depois não são pagas por isso.

Só a remuneração não basta. Muita gente escolheu profissões, a maioria tradicionais, visando apenas a remuneração e depois se frustou, levando uma vida presa a algo que não gostavam de fazer. Ou seja, gostar do que faz e ser remunerado deveriam ser coisas óbvias, mas não são. Não são para alguns, né? Que reclamam de ver um escritor querendo ser remunerado por seu trabalho, que não é nada fácil.



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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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