Onde está o resto da humanidade em Star Wars?

quinta-feira, maio 22, 2014

Padme Amidala
Recentemente foi divulgada a lista com os atores do novo Star Wars, sétimo filme da franquia, que nem começou a ser filmado e já levanta polêmica entre os fãs fundamentalistas desde seu anúncio. O universo expandido não é mais válido, para não bater de frente com a novíssima trilogia e na divulgação deste novo elenco tem apenas uma mulher, duas se contarmos com Carrie Fisher, a eterna princesa Leia. Cadê o resto da raça humana, afinal?





O cinema continua repetindo a velha fórmula de criar cenários de e para homens brancos, cis e heteros. Eles são os heróis, eles são os vilões, eles são os salvadores da galáxia, eles são os tios, pais e maridos carinhosos ou os vilões perversos. O restante da população que não se identifica com essa fórmula tem pouca representatividade. E quando tem, em geral, é carregada de estereótipos negativos, perpetuando essa velha visão que só prejudica e às vezes fere a dignidade das pessoas.

Quando você reclama disso, é ofendida, agredida. Falam N merdas para quem está incomodado, falando que o cinema está cheio de representatividade feminina ou seja qual for. E mexer com Star Wars é deixar uma legião de fãs fundamentalistas irritadinhos que não aceitam opiniões ou posicionamentos diferentes dentro de seus restritos clubinhos. Bem, foda-se. Star Wars sempre teve um problema sério com representatividade e isso desde seu lançamento. Na trilogia mais recente temos mais uma nova mulher forte e uma mestre jedi que não abre a boca para nada, mas ainda assim é um exemplo pequeno entre tanto personagens masculinos.


Tem quem alegue que Star Wars é uma história de meninos, para meninos. Desculpe, garotos, mas assim como Star Trek, Star Wars é um enredo universal, ele deveria estar mais próximo de um mundo igualitário que desejamos alcançar. Um universo onde as pessoas tenham as mesmas oportunidades e onde possam se expressar e viver do jeito que quiserem. Star Trek conseguiu chegar a este cenário muito mais rápido, nesta mesma galáxia e em um futuro não tão distante assim. Então qual é o problema de Star Wars?

Mitos são coisas poderosas. Os mitos nos ensinam a representar e quem podemos ser em universos diferentes. E ninguém é louco de reduzir o poder do mito de Star Wars na cultura ocidental. O bar repleto de alienígenas diversos é uma ótima maneira de se visualizar uma humanidade diversa convivendo em paz. No entanto, é justamente por ter este poder que não podemos deixar que apenas meninos brancos possam fantasiar e imaginar outros mundos. Outras crianças - meninas, crianças negras, trans* e deficientes físicas - também podem ter espaço neste mundo.


Ronald Moore causou furor entre fãs de Battlestar Galactica quando, em 2004, ele decidiu reformular a franquia. O principal personagem da série original, o amado tenente Starbuck - um homem - foi representado como mulher. Kara "Starbuck" Thrace, interpretada, brilhantemente, por Katee Sackhoff, era fanfarrona, beberrona, brigona, adepta do sexo casual, sem querer relacionamento sério e pulando de cama em cama. Era brilhante em seu cockpit como piloto de Viper, mas tinha sérios problemas com autoridade. O sucesso desta nova Starbuck calou a boca de muita gente e eclipsou o personagem original, tornando-a uma das mais importantes personagens dentro do novo Battlestar Galactica e também dentro da ficção científica.

Leia também: Disney e a guerra com os fãs

A novíssima trilogia da Disney fez a cagada de ignorar completamente o universo expandido, que decretou não ser oficial. E todo fã de Star Wars sabe que neste UE existem grandes e inspiradoras mulheres. JJ Abrams disse que a escalação do novo elenco ainda não terminou e espero mesmo que não tenha terminado e que ele se mostre inovador, coisa que não foi totalmente com Star Trek quando reduziu a importância dos personagens femininos, deixando praticamente Uhura sozinha na tela com um monte de caras. Nos anos 60, Star Trek revolucionou a TV de tantas formas, bem como suas séries seguintes, que dá um certo desânimo ver o filme de 2009 regredir em alguns aspectos.


Star Trek conseguiu mostrar vários cenários que Star Wars ignora. Temos episódios com críticas ao racismo, personagens assexuados, gays, cadeirantes, líderes negros, mulheres no poder e no comando de naves, mulheres mandando em relacionamentos e personagens simbiontes (uma ótima alegoria para tratar da transexualidade). Obviamente temos muitos estereótipos no universo de Roddenberry, no entanto sua visão é muito mais democrática do que vemos em Star Wars. E se Abrams se mantiver no mesmo rumo, sabemos que Star Wars virá com ótimos efeitos visuais e cenas de ação de tirar o fôlego, mas se manterá no mais do mesmo no que tange à diversidade.

É aguardar para ver.

Até mais!


J.J. Abrams Misses His Chance to Make Star Wars History
Star Wars: Where the hell are the women?

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





Leia esses também...

0 comentários

Viajantes

Curta no Facebook

❤️


"A ficção científica é um substituto para todos os lugares que eu nunca vou alcançar nessa vida."

James W. Harris