Brasil não é um país de leitores

quinta-feira, fevereiro 13, 2014

Quem é leitor viciado pode achar um absurdo, mas infelizmente nosso país não é um país de leitores. Vemos o mercado aquecido com livros, especialmente para o público infanto-juvenil, vemos muitas obras boas sendo publicadas por aqui, vemos autores nacionais com fama de superstars (alguns deles exagerando até), mas ainda assim não somos um país de leitores. Somos um país de quem pode pagar por livros e não para quem quer ler.



"Ahhh, mas e as bibliotecas públicas??", alguém pode perguntar. Você sabe onde fica a biblioteca pública mais perto de você? Eu não sabia, então entrei na página de cultura da Prefeitura de São Paulo para descobrir. Também busquei algumas informações sobre bibliotecas públicas no Brasil para que a gente tenha uma ideia. Apesar do número delas ter aumentado no país, ainda é um número insuficiente para a população.

O problema delas é que, diferente de outros programas culturais como o cinema ou livrarias, as bibliotecas costumam fechar aos finais de semana. Bibliotecas costumam ser locais frios, distantes da maioria das pessoas, um local de intelectuais, ou pessoas chatas por "saberem demais". Leitura também não costuma ser vinculado a algo prazeroso desde a escola. Lá, ela é vista como obrigação, leitura obrigatória de obras chatas e incompreensíveis, de um Português rebuscado demais para o paladar dos estudantes.


Segundo dados de 2009, 1/5 dos municípios brasileiros não possuem bibliotecas. Mais de dois terços das bibliotecas municipais (71%) não oferecem acesso à internet para seus usuários, pois os computadores costumam ser apenas para buscas no acervo. O lazer é associado às bibliotecas em apenas 8% das visitas recebidas. O grosso mesmo vai para pesquisas escolares, o que vem diminuindo com a facilidade de cópia e estudo oferecido pela internet. Cerca de 12% delas funcionam aos sábados, 1% aos domingos e 24% no período noturno.

Muitos municípios recebem kits para bibliotecas sem ao menos terem uma. Os kits com livros, computadores, DVDs e CDs ficam guardados na prefeitura pela ausência de um espaço público voltado para eles. Termina a gestão, o novo prefeito entra, recebe um novo kit e o descaso continua. Existem 4.763 bibliotecas públicas municipais no país. Só por comparação, o estado de Nova York tem cerca de 7 mil.

Aí, durante essa semana que passou, pipocou pelas redes sociais o caso do rapaz de 19 anos que roubava livros na Livraria Cultura de um shopping em Salvador. Ele teria roubado HQs do Watchmen, Rurouni Kenshin, Demolidor e Novos X-Men, além de livros como História da Magia e Fios de Prata, um livro de astrologia e uma enciclopédia. Foi preso em flagrante, mandando para a penitenciária, mas conseguiu sair sob fiança.


Roubar é errado. Não há dúvidas. Mas o fruto do roubo é algo a se pensar. Ele alegou que roubava livros porque queria estudar. E quem compra livros, quem lê muito e gosta de acompanhar seu autor favorito, sabe o preço exorbitante que a maioria deles tem. Consulte o catálogo da editora Aleph, especializada em ficção científica, e veja o valor de seus livros. Minha meta ano passado de ler Realidades Adaptadas e Limites da Fundação não se cumpriu porque não pude pagar pelo valor dos livros. Aliás, paguei mais barato pelo livro importado, algo por volta dos 35 reais do que pagaria por um destes dois. Se tenho grana, não me importo de pagar, pois tenho paixão pela leitura, mas estando no aperto que estou agora, eu tive que deixar de lado esse luxo para me concentrar em contas mais urgentes.

Quando digo que o Brasil não é um país de leitores, não é pela falta deles. Nós temos leitores, em especial os jovens, que sustentam quase metade do mercado nacional. O principal problema, o grande entrave para muita gente, é o preço. E não dá para discordar disso ao vermos catálogos como o da Aleph com um livro saindo por mais de 50 reais. É lógico que tem muita gente que não lê porque não gosta ou porque não compreende, mas é um sintoma de falha cultural grave quando alguém rouba livros para poder estudar ou pelo simples prazer de ler.

"Ahhh, mas tem os ebooks". Já vi gente falando isso. Ok, um cara que não consegue comprar um livro que custe 50 reais vai pagar por um e-reader de, no mínimo, 300 reais? Perceba que o problema da falta de leitura do brasileiro não é só pelo viés da escola. Temos um conjunto de fatores que nos coloca na lanterninha quando o assunto é consumo de livros. E até mesmo os leitores viciados apertam os cintos muitas vezes por conta do valor. Livro não é um produto massificado, livro é caro pela falta de leitores, e os leitores que existem muitas vezes não podem pagar o valor deles. É um eterno círculo vicioso.


Eu trabalhei em livraria e digo com bastante certeza: livro não é algo que se roube com frequência. Era muito, mas muito raro. Trabalhei na FNAC de Pinheiros por mais de 2 anos e os produtos mais levados eram de informática, telefonia, papelaria, música e DVDs, e revista de mulher pelada. Mas os livros eram reverenciados por quem lia. Tinha cliente que pedia dicas de como limpar as capas ou como a gente fazia para organizar as estantes, pois eles queriam repetir nossa organização em casa. E aí quando a gente vê livros sendo roubados, é preciso pensar no problema estrutural grave que levou ao ato.

Espero que este rapaz, no futuro, possa sustentar o prazer de ler. Que não precise roubar para manter o hábito e que possa ter acesso à cultura e às bibliotecas, com qualidade de acervo. Aliás, espero que todos possamos ter esse acesso, saciando nosso desejo pelas palavras.

Até mais!



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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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