A literatura das boas ideias

terça-feira, outubro 08, 2013

Ficção científica ainda tem problemas para se fixar como um gênero literário sério. É tida como um sub-gênero literário, uma literatura marginal, ultrapassada pelas tecnologias e gadgets do mundo atual, algo que não precisa mais ser escrito. Autores não conseguem sobreviver de suas obras de FC. Leitores pastam para encontrar bons livros. Por que será?





Exite um preconceito literário contra ficção científica. Quem disser que não é porque não respira o gênero, não o consome, tampouco tenta produzi-lo ou busca saber sobre ele. Indo desde os livreiros às grandes editoras, produção de ficção científica é de nicho, para nichos, para poucos. E se temos pouca produção, cabe a nós mesmos começar a produzi-la para tentar abastecer o mercado. Mas se olharmos bem, veremos que também existe preconceito da parte dos próprios fãs.

Existe ficção científica inundando livrarias, cinemas e TVs. Só que ela não é chamada assim. Um mundo num futuro incerto, distópico, com um país organizado em diversos distritos, controlado por um governo opressor, que sacrifica 23 adolescentes numa arena para que um só apenas saia como vitorioso. É um enredo distópico, certo? Mas Jogos Vorazes além de ser mau visto por leitores e autores mais adultos de ficção científica, tampouco é assim classificado. É uma "literatura juvenil". Ou quando muito, é uma ficção juvenil. MY ASS. É uma ficção científica, uma distopia como outra qualquer.

Por que então ela foi classificada assim? Concordo que classificações rígidas sejam ruins. Em um determinado livro podemos ter vários sub-gêneros e essa permeabilidade apenas enriquece a trama. Nada contra mesmo. Mas quando a classificação é feita para camuflar uma coisa de outra que ela não é, me parece enganação, ou uma saída de tornar algo mais palatável para um público que pode torcer o nariz para a ficção científica clássica.

E por que torce o nariz? De onde veio esse preconceito bobo? Realmente não sei. Mas vou especular. Muitos filmes e livros surgiram com essa temática voltada para adolescentes, voltada para um público jovem, algumas vezes extrapolando o limite do aceitável no quesito viagem na maionese. Tínhamos muitas obras B de produção deficiente ou duvidosa dando um ar de amadorismo ao gênero popularizado por Asimov, Bradbury, Clarke, Heinlein e Shelley.


Se nos livros ela conseguiu manter um caráter mais sério, no cinema o cine aventura era recheado de obras com viagens espaciais, monstros alienígenas, viagens no tempo e desenhos. Eram áreas onde a FC ainda hoje se sai muitíssimo bem e não vejo o menor problema com isso. Mas essa produção típica de uma "novela mexicana" levou muita gente a pensar que FC é algo marginal, B, sub-classe. É o gênero que viaja de classe Econômica enquanto o restante vai de Executivo ou Primeira Classe.

Além disso, ficção científica é tido como um gênero complicado, onde apenas os NERDS conseguem entender o que está sendo dito ali. MY ASS AGAIN. Isso é besteira e da grossa. Um bom escritor - assim como um bom professor - vai conseguir explicar relatividade para um público que necessite desta explicação. Se ele não conseguir, ele não é bom. Se fazer entender é, talvez, uma das coisas mais difíceis para qualquer um. Isso explica porque que obras de cunho mais social ou distópico do tipo Jogos Vorazes, Divergente, A Estrada se saem tão bem com os leitores. Eles tratam do que? De um mundo distópico? Não, ela trata da relação do ser humano com esse mundo distópico, doente, destruído. As mudanças causadas pela raça humana modificaram esta mesma raça humana, que precisou se adaptar.

Não é de estranhar que obras de cunho mais social ganhem da ficção científica tradicional nas livrarias e até sejam desclassificadas como sendo obras de FC para alavancar as vendas. Se olharmos os blogs literários voltados para adultos jovens e adolescentes, veremos o quanto eles estão lendo de ficção científica sem se darem conta disso. Uma ficção científica não precisa de aliens, naves e viagens espaciais para ser considerada uma obra de FC. Mary Shelley, com 18 anos, escreveu um dos maiores clássicos da literatura que, por muito tempo, foi considerado apenas como um livro de terror.


Talvez o que a ficção científica precise é de uma reinvenção de seus autores. É preciso criar enredos que sejam entendidos, apreendidos pelos leitores. Ao invés de destrincharmos o motor de dobra em todos os seus pormenores, por que não investimos em a relação do ser humano com essa tecnologia, ou com o futuro, ou com as mudanças no mundo causadas por esta tecnologia? Afinal, todo gênero literário lida com o ser humano. Ficção científica não é diferente, ela apenas traz o diferencial da ciência, do papel da tecnologia e das criações humanas.

Ou seja, precisamos de boas ideias. Ideias bem escritas. Ideias que divirtam, que informem, que apaixonem, que criem. Não existem temas chatos, existem autores chatos.


Até mais!

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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"A ficção científica é um substituto para todos os lugares que eu nunca vou alcançar nessa vida."

James W. Harris